Fabiana Cozza traz a BH o show 'Canto sagrado', em homenagem a Clara Nunes

Cantora encarou um desafio para homenagear sambista: celebrar o legado da mineira sem cair na armadilha do cover

por Walter Sebastião 04/04/2014 08:00

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Guilherme Derrico/divulgação
(foto: Guilherme Derrico/divulgação)
"O show 'Canto sagrado' é quase um musical”, avisa a paulistana Fabiana Cozza, de 38 anos. Domingo, ela traz a BH sua homenagem à mineira Clara Nunes (1943-1983), registrada recentemente em CD e DVD. A produção caprichada é fruto de pesquisa atenta que deu origem a um roteiro detalhado, explica a cantora. A domingueira de luxo contará com banda de primeira, iluminação especial, figurinos elegantes e coreografias inspiradas em danças brasileiras. Tudo isso para celebrar o legado – autoral e contemporâneo – da Guerreira.

A viagem passa por baião, moçambique, ijexá, samba de roda e jongo, levando para o palco um retrato musical de Clara Nunes. “Ela é referência de interpretação brasileira: tem domínio técnico da voz, trouxe a negritude para a cena, propôs uma nova consciência sobre a cultura do Brasil e a importância das raízes africanas. Ela fez do samba uma identidade”, enumera Fabiana. “Clara é uma cartilha para quem quiser cantar. O show é homenagem, com o meu jeito, a essa artista luminosa.”

A paulista explica que usa o corpo – não apenas a voz – procurando valorizar as letras e fazer do texto música. “Sempre busco revelar segredinhos contidos na canção, entrelinhas”, observa. Desde criança, Fabiana ouviu discos de Clara Nunes, mas teve de superar o medo de seu projeto soar como cover. “Já sabia o que não queria: vestir o figurino da Clara. Precisava achar um caminho que expressasse o que sou”, explica. Para ajudá-la, chamou amigos e profissionais que admira: Olívia Araújo (direção cênica), o coreógrafo J. C. Violla (direção corporal) e André Santos (direção musical). Coube a eles integrar aspectos musicais e cênicos à luz e ao figurino.

Além de homenagear a Guerreira, 'Canto sagrado' traz a marca de Fabiana, que não deixou de experimentar algumas transformações. “Ganhei em suavidade e segurança melódica. Mostro um repertório complexo”, explica. A artista cita afinidades de temperamento entre as duas: “Sou uma pessoa com fé na arte e na vida, Clara Nunes tem isso também. O canto dela não passa em branco, tem cor, é quente, guerreiro. Tem força e alegria”.

O repertório traz o “lado B” do repertório da mineira, mas Fabiana avisa: não deixou de contemplar o cancioneiro essencial de Clara. A banda que a acompanha reúne André Santos (baixo), Douglas Alonso (bateria), Edson Sant’Anna (teclado), Henrique Araújo (cavaco e bandolim), Léo Rodrigues (percussão), Lula Gama (violão) e Paulão 7 cordas (violão 7 cordas).

Além de 'Canto sagrado', a paulista lançou os discos solo 'O samba é meu dom' (2004), 'Quando o céu clarear' (2007) e 'Fabiana Cozza' (2011), que lhe valeu o Prêmio Musica Brasileira.

Homens

Fã de Aracy de Almeida, Carmen Miranda, Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Elza Soares, Elizeth Cardoso, Leny Andrade, Elis Regina e Nana Caymmi, Fabiana reverencia também os cantores. Gosta de Ciro Monteiro, Miltinho e, especialmente, de Paulinho da Viola. “Ele canta de modo mais contido, sabe que o samba tem dolência e tristeza. Essa delicadeza torna o gênero nobre ainda mais nobre”, elogia.

Paulista da gema

Fabiana Cozza, de 38 anos, nasceu no Bairro Pompeia e foi criada na Vila Madalena, na capital paulista. Seu primeiro professor de música foi o pai, Oswaldo dos Santos. Por 15 anos, ele atuou como intérprete da Escola de Samba Camisa Verde e Branco, “dona de batucada de respeito e referência do samba urbano paulista”, ressalta ela.

Foi lá que Fabiana aprendeu a cantar samba. Inicialmente, ela não planejava ser artista. Formada em jornalismo, tomou um susto ao ser aprovada em primeiro lugar na Universidade Livre de Música Tom Jobim, atual Escola de Música do Estado de São Paulo. Ela cantou em corais, fez oficina com Jane Duboc e estreou cantando MPB, em 2009, no Bar Feitiço de Áquila, acompanhada pelo violonista Antônio Mineiro. Quando o compositor Eduardo Gudin a viu, convidou-a para integrar seu grupo, com o qual Fabiana gravou o primeiro disco.

Fabiana e a música


Cantar “Assim como estar no palco, cantar é exercício de comunhão com o sagrado. Cantar samba é essencial a qualquer cantora que se diga brasileira. Significa contato com uma herança musical que é preciso conhecer. Não conhecer samba é como ser norte-americana e ignorar o blues. Sem blues, como cantar folk, reggae?”

Parceiros “Sempre trabalhei com músicos exigentes, eles não passavam a mão na minha cabeça. Sou movida a desafios, ouvia a crítica como desafio. Se você não é cheia de melindres, trabalhar com gente assim traz muitas vantagens. Estudava feito uma louca, até ouvir o ‘agora acertou’. Não quero gente dizendo que tudo o que faço é maravilhoso, já me iludi muito com isso. Prefiro quem me faz sentir segura. Não é vaidade. Quero ser competente.”

São Paulo “Não é – e nunca foi – túmulo do samba. Ele está em comunidades como Samba da laje, Pagode da 27, Kolombolo Diá Piratininga. Um projeto importante é o Samba autêntico, com sua música de qualidade, não só referenciada nos mestres, mas trazendo novidades. Contemporaneizar o samba é necessário. O que não pode é, sob a desculpa de modernizá-lo, jogar areia em anos de história.”

História “Precisamos criar espaços que contem a história do samba, que é a história do Brasil. E valorizar os artistas. Vários deles passaram e continuam passando por dificuldades, vivem modestamente. Ainda há preconceito. Temos de dar respaldo ao sambista popular: registrar, documentar, transcrever em partitura o que eles fazem, entrevistá-los. O meio ainda é muito desorganizado.”

Saiba mais
A pioneira


Clara Nunes nasceu em 1943, em Caetanópolis (MG). De família simples, a cantora foi tecelã, trabalhou em rádios de BH nos anos 1960 (foto) e se mudou para o Rio de Janeiro em 1965. Em 1975, veio o primeiro hit: 'Conto de areia' (Romildo/Toninho) chamou a atenção do Brasil. O disco da mineira vendeu 300 mil cópias, rompendo tabus que cercavam as mulheres no mundo do samba. Clara abriu o caminho para Alcione e Beth Carvalho, entre outras colegas. Gravou clássicos do samba e lançou hits inspirados nos terreiros de candomblé. Seu figurino afro – vestido branco, colares e miçangas – celebrou a negritude brasileira. Em 1983, Clara morreu em decorrência de complicações cirúrgicas, no Rio de Janeiro.

CANTO SAGRADO

Cine Theatro Brasil Vallourec. Praça Sete, s/nº, Centro, (31) 3222-4389. Lançamento de CD e DVD. Domingo, às 19h. Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada).

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