O microfone do rap agora é delas

Mineiras se articulam para participar no mês que vem das eliminatórias regionais da Liga Feminina de MCs, campeonato nacional de freestyle

por Shirley Pacelli 30/03/2014 06:00

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Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press
Negra Lud, Sweet e Wal, as minas do rap se preparam para a batalha freestyle com muita garra e sem perder o charme (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)


– Se prepare: agora é hora da revanche. Está achando que é bonita com lencinho da vovó? Mas não vou te tratar pela aparência, vou tratar pela falta de criatividade. Nem vem, agora vai ser minha refém. Aqui você não manda, vai vendo... Pega o mic (microfone) e anda.


– Desculpa te ignorar, vai ser igual antes. Pra ganhar de mim vai precisar crescer. Eu trago aqui na mente o lencinho da vovó, melhor do que você com a calça do Xororó. Do rap você não é capaz. Se eu pegar o mic vou andar e você vai ficar para trás.
Esse diálogo foi travado entre Henry e Sweet durante a edição especial do Duelo de MCs Estrela em Catarse, no Espaço Comum Luiz Estrela, no Bairro Santa Efigênia, em Belo Horizonte. Sweet foi batizada como Bárbara Bretas Coelho. Jovem de 27 anos, ela ganhara do seu oponente na noite anterior, durante a batalha que a Família de Rua promoveu em frente à Prefeitura de Belo Horizonte. A rapper participa ativamente dos duelos e é uma das organizadoras da seletiva mineira da Liga Feminina de MCs, batalha nacional de freestyle só de mulheres, com final marcada para maio, no Rio de Janeiro.


“O apelido veio da época de colégio. Meus pais era separados e no fim de semana ficava com papai. Ele me levava em uma loja chamada Sweet Sweet Way, que tinha no BH Shopping. Toda segunda-feira eu chegava na minha escola pública com aqueles pacotes pink, de bala importada, e distribuía pra galera”, lembra Bárbara. Foi também com a turma da escola, aos 15 anos, que ela teve seu primeiro contato com o hip-hop. Mais tarde, passou a ouvir Racionais, frequentar baladas undergrounds de rap e a se reunir com uma turma sob um viaduto no Barreiro para fazer freestyle (improviso). O tempo passou, ela se casou e foi morar em São Paulo, onde teve uma filha com o rapper Valter Araújo, o Slim Rimografia, que participou do Big brother Brasil.


Sweet voltou a BH em 2008, quando então fez sua primeira batalha sob o Viaduto Santa Tereza contra um MC conhecido como Vinição, que não teve piedade ao depreciar a forma física da adversária. “Tenho muita admiração por ele hoje. Mas no dia ele me esculhambou. Foi difícil, porque era a única mulher a duelar e vi mais de 500 cabeças rindo da minha cara. Tinha acabado de parar de amamentar. Queria dar um soco nele. E é isso: no duelo você tem que ir em busca daquilo que desestabiliza o adversário”, explica.


Hoje, ela se diz mais segura e dificilmente é atingida só com uma indireta sobre sua aparência. Mas na sua estreia no ringue foi preciso um trabalho emocional forte para sobreviver. “Acho que ainda não tinha subido nenhuma mulher naquele palco. Já me sentia oprimida pelos olhares. Sou branca e aposto que eles pensavam: quem é essa patrícia?”, lembra. Esse duelo tem cerca de 43 mil visualizações na rede.



Olho no olho

A eliminatória mineira da Liga Feminina de MCs, que começa em abril, contará com 14 participantes, duas a menos do que o total de vagas oferecidas. No começo, Sweet se dizia relutante com a ideia, não queria apoiar um “Clube da Luluzinha”. Contudo, ela passou a encarar como uma forma de estimular as mulheres, já que muitas têm medo de batalhar com os homens, especialmente pelos ataques verbais ao corpo, além da repreensão dos namorados, aflitos com a vulnerabilidade da parceira no palco. “Nunca batalhei com mulher. Não vou ficar defendendo minha postura feminina se estou batalhando com outra menina. Será interessante fugir do lugar-comum e vivenciar esse desafio”, afirma Sweet. Além disso, ela acredita que esse tipo de competição educará a plateia. “Não é só porque não é um marmanjo no palco que é preciso aplaudir.”


No cenário de duelo, Sweet se transforma: voz impostada e olho no olho do adversário. “Tem que ter postura meio monstra, ser a fêmea alfa”, brinca. Ela diz que quando desce do palco os homens têm medo de cantá-la e ser dizimados com as palavras. “Tem muita mulher no rap que é só uma gostosa no palco, cantando um refrão. Participar de duelos é uma chance de fazer diferente”, afirma. No dia 13 de abril, a MC será uma das atrações da festa Bronx 73 – Voltando às raízes, no Berimbau Circo Bar, em Contagem.

Rima rica

Postura e garra foi do que a consultora de vendas Walkiria Gabriele Elias da Costa, a Wal, de 20 anos, precisou para desbancar em quatro rodadas todos os outros homens que competiram contra ela no Duelo de MCs da Ocupação do Viaduto Santa Tereza, em fevereiro deste ano. Wal é uma das responsáveis pelo grupo As Mina Rima (http://on.fb.me/1dwVHGF), reunião de mulheres dedicadas aos freestyle e a conversar sobre hip-hop. O encontro é realizado de 15 em 15 dias, em espaços públicos da capital mineira, como o Palácio das Artes. Oito meninas, que têm entre 15 e 20 anos, participam ativamente do projeto. Eventos culturais de BH, como o Cidade Hip-Hop 2013, já contaram com as meninas da rima.


O projeto foi um desdobramento do coletivo Casa Amarela, construção abandonada na comunidade São Mateus, em Contagem, ocupada em 2011 por ela e amigos de um curso da Oficina de Imagens ministrado na localidade. A casa é palco de diversas manifestações culturais de hip-hop e abrigou a primeira batalha exclusivamente feminina. “É incrível ver lá de cima o povo gritando seu nome depois de ganhar um terceiro round”, diz Wal, sobre uma espécie de tira-teima para eliminar MCs durante a competição. A jovem, que participará da Liga, diz estar ansiosa pela batalha. O friozinho na barriga já se instalou. Para se preparar, ela tem treinado o improviso com a irmã e frequenta a Batalha da Estação, no Centro de BH, realizada às sextas-feiras. “Agora as meninas estão dando a cara para bater. Quanto mais mulheres na cena, melhor será a recepção do público”, afirma.

 


Ludmila Valéria Donato, de 22 anos – a Negra Lud – é mais uma que “representa”, como diz a gíria do rap para indicar alguém com talento. Desde os 9 anos ela participa da cena hip-hop por influência do irmão, que integra o grupo Missionários do Rap (http://goo.gl/rAuKwP), do qual ela passou a fazer parte. Ludmila faz freestyle desde os 14, mas só agora, com a Liga, está se dedicando mais à prática. “Aqui em BH as meninas ficam retraídas pela exigência do público das batalhas. Nesse evento elas vão se sentir mais à vontade”, prevê Negra Lud.


Quando tinha apenas 15 anos, Ludmila chegou a enfrentar Douglas Din – duas vezes campeão do Duelo de MCs nacional – no Viaduto. A lembrança não é das melhores.

Ainda inexperiente, acabou se dando mal na batalha. Sua última rima foi na inauguração de uma marca de street wear, no Shopping Uai. Ela ganhou de dois MCs, um deles campeão de Vitória (ES). “Hip-hop é cidadania, política e revolução. É importante frisar qual o real propósito de ser MC”, destaca. Até o meio do ano, Negra Lud deve lançar o CD Dona da vez, de sua carreira solo, além de um videoclipe.

 

 

Batalha de MCs
O objetivo é rimar melhor no improviso. Os MCs se enfrentam aos pares e têm o direito de pegar o microfone por duas vezes, com 45 segundos cada. Esse tempo é correspondente aos 16 compassos/versos de um rap. 

 

 

Playlist das minas
Indicações de Sweet, Wal e Negra Lud:
» A Corte (http://goo.gl/t6O3cW)
» Zaika dos Santos (soundcloud.com/zaika-dos-santos)
» Preta Rara (soundcloud.com/pretarara)
» Are.ZONA (pt-br.facebook.com/Are.zona.oficial)
» Karol Conká (facebook.com/karolconka)
» Karol de Souza (facebook.com/aKaroldeSouza)

 

 

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