Alan Parsons Live Project abre hoje em Belo Horizonte sua turnê nacional

Produtor de discos dos Beatles e Pink Floyd, músico britânico chegou a trabalhar com a música de Stockhausen

por Mariana Peixoto 26/03/2014 06:00

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Leandro Couri/EM/D.A Press
(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Para o senso comum, Alan Parsons é o dono dos hits 'Time' e 'Eye in the sky', lançados em 1980 e 1982, respectivamente. Canções do chamado The Alan Parsons Project, que fizeram história ao redor do globo como um lado mais pop do bom e velho progressivo. Só que o que uma boa parcela do público ligado em flashbacks desconhece – e os iniciados estão cansados de saber – é que o Parsons engenheiro de som e produtor tem um dos currículos mais brilhantes da indústria fonográfica dos anos 1970. Começou com os Beatles, deu seu pulo do gato com o Pink Floyd, passeou pela música do gênio Stockhausen e continuou trabalhando com nomes como Paul McCartney e The Hollies.


“Tive muita sorte, já que minhas produções foram bem-sucedidas”, afirmou, com certa modéstia, o músico britânico de 65 anos. Desde ontem em Belo Horizonte, Parsons inicia hoje, no Palácio das Artes, uma nova turnê brasileira. O show, que será aberto pela banda Dogma, tem promoção cultural do Estado de Minas e apoio da Guarani FM e portal Uai. Ele também se apresenta na sexta em São Paulo e domingo no Rio de Janeiro. É a segunda vez que Parsons toca em BH (quinta no país). A primeira foi em sua estreia brasileira, há 17 anos (11 de abril de 1997, data revelada pelo próprio).


Desde 2000 radicado em Santa Bárbara, Califórnia, Parsons se apresenta com banda norte-americana: P. J. Olsson (vocais), Tom Brooks (teclados), Danny Thompson (bateria), Guy Erez (baixo), Alastair Greene (guitarra) e Todd Cooper (vocais e saxofone). Quanto a ele, responde por guitarra, vocais, teclados e percussão. No repertório, basicamente hits, além de algumas novidades, entre elas o single 'Fragile', canção inédita. Parsons também espera que fique pronta hoje a versão virtual do álbum duplo ao vivo registrado ano passado na Alemanha.


Receptivo, o grandalhão de voz baixa e olhar bastante expressivo mira hoje para o passado sem um pingo de nostalgia. Era um trabalhador como outros da gravadora EMI –“em um departamento que tinha um link direto com Abbey Road. Fabricávamos fitas, não as cassete, mas antes delas. Então, sabia muito sobre som e gravadores” – quando escreveu ao chefe falando que queria mudar de setor. Fez uma entrevista e duas semanas mais tarde havia se tornado funcionário do lendário estúdio londrino.


O ano era 1969. Soldado raso, Parsons trabalhou nos álbuns derradeiros dos Beatles, 'Abbey Road' (1969) e 'Let it be' (1970). “Na verdade, o que fiz foi apertar botões: record (gravação), rewind (voltar). Também fiz bastante chá e café, coisas que a gente faz quando é trainee.” Já mais experiente, conheceu o Pink Floyd, assinando como engenheiro de áudio o disco 'Atom heart mother' (1970). Mas o pulo do gato foi três anos mais tarde, com o clássico dos clássicos 'The dark side of the moon'. Já com cancha, pôde nadar de braçada. O som de relógios na abertura de 'Time'? “Fui até um antiquário local e gravei cada som de relógio em separado. Acho que foram ao menos uns 20, sendo que alguns utilizamos mais de uma vez”, relembra.

A partir da repercussão de 'The dark side…', nada mais foi o mesmo. Nem para o Pink Floyd, nem para Alan Parsons. Trabalhou com Paul McCartney, The Hollies e fez até incursão na música avant-garde, quando atuou com a música do compositor alemão Karlheinz Stockhausen, um dos nomes mais influentes do século 20. “Muito pouca gente menciona isso. Não foi com Stockhausen, mas com alguns discípulos, um deles Eötvös (o compositor húngaro Peter Eötvös). A música trazia uma série de símbolos, pontos e linhas. Era incrível o quão séria a música eletrônica pode ser”, comenta.


Em meados da década de 1970, já não era sem tempo que Parsons deveria seguir sua própria carreira. O convite veio na figura do compositor escocês Eric Woolfson. Juntos, começaram a trabalhar no “nosso próprio Dark side”. Em 1976, com o nome de The Alan Parsons Project, a dupla lançou seu álbum de estreia, o conceitual 'Tales of mystery and imagination: Edgar Allan Poe'. Compositor prolífico – “ele fazia facilmente letras e melodias, eu ficava com a produção e a engenharia de gravação” –, Woolfson, que morreu há cinco anos, era ainda o homem de negócio. Juntos, fizeram uma série de álbuns, alguns ainda conceituais – 'I robot', de 1977, era inspirado na obra de Isaac Asimov – outros com franca vocação pop, com o 'Eye in the sky' (1982).

Estúdio e palco Curiosamente, o Alan Parsons Project só existiu como tal em disco. Nunca foi visto ao vivo. “Nosso último álbum foi em 1987. E só comecei a ir para a estrada em 1994, 1995. Ao longo dos anos 1970 e 1980, a tecnologia era muito precária. Não havia programas, sintetizadores. O sampler é de 1982, mas naquela época era primitivo. Então não nos sentíamos confortáveis para levar nosso som para o palco. Se tivéssemos uma orquestra nos acompanhando, quem sabe, mas isso seria muito caro.” Só uma canção, 'Silence and I' (1982), contava com acompanhamento de 85 instrumentistas.

O Alan Parsons Project terminou em 1987, mas Parsons e Woolfson continuaram juntos algum tempo depois. Em 1990, lançaram 'Freudiana' (sim, o pai da psicanálise é a principal referência), mas sem assinar como APP. “Virou um espetáculo musical que ficou em cartaz durante um ano. Até que Eric e o produtor do show tiveram uma briga séria, que foi parar nos tribunais. Foram cinco anos até que o assunto se resolvesse. Nesse meio tempo, eu tinha que fazer alguma coisa.” Foi a partir daí que Parsons formou seu primeiro grupo, um quarteto que veio ao Brasil poucos anos mais tarde.


Hoje, ele vive de sua música – assina como Alan Parsons Live Project – e continua como o rato de estúdio que sempre foi. Recentemente, produziu álbuns de nomes como Steven Wilson, líder da banda de progressivo Porcupine Tree. Como também do havaiano Jake Shimabukuro, virtuose do ukulele. Mas assina a produção à sua própria maneira. “Não me envolvo com computadores, tenho um assistente para isso. Não sei ficar fazendo clique, clique o dia inteiro”, conclui.

 

 

Três álbuns

 

The dark side of the moon (1973)

Por causa da experiência antecessora com o Pink Floyd, Alan Parsons foi convidado para comandar as gravações do disco. Abbey Road era o único estúdio que permitia a chamada gravação multicanal (que possibilita o registro em separado de diferentes fontes de som), artifício amplamente utilizado pelo grupo.


Tales of mystery and imagination: Edgar Allan Poe (1976)


A ideia, com o álbum conceitual, era criar seu próprio Dark side. Inspirados nos contos do escritor norte-americano, a dupla realizou um disco grandioso, que contava com coral e inclusive uma narração de Orson Welles (que apareceu na reedição do disco, de 1987, na faixa Dream within a dream).


Eye in the sky (1982)


É o blockbuster de Alan Parsons Project, também gravado em Abbey Road.
A faixa-título, com voz gravada por Eric Woolfson é sua música mais conhecida – o nome foi tirado de uma novela de Philip K. Dick. Com uma vocação pop, o álbum figurou no Top Ten em vários países.

 

 

DOGMA

Antes de Alan Parsons subir ao palco do Palácio das Artes, haverá show da banda Dogma. Grupo mineiro de rock progressivo instrumental, tem dois discos: Album (1993) e Twin sunrise (1995). Depois da noite desta quarta-feira, a banda já tem outra data agendada: vai abrir para o Marillion, em 8 de de maio, no Minascentro.

 

ALAN PARSONS LIVE PROJECT
Show nesta quarta-feira, às 20h, no Palácio das Artes, Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro, (31) 3236-7400. Ingressos: setor 1, R$ 300 e R$ 150 (meia); setor 2, R$ 250 e R$ 125 (meia); balcão: R$ 200 e R$ 100 (meia). 

 

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