Confira entrevista com o cantor e compositor Lenine

''Com o tempo, precisamos encontrar estímulos, até porque em toda a minha trajetória, sempre teve uma busca pela excelência, ousar, levar além. Isso é uma coisa que me move'' afirma o músico

por Paula Bittar 17/03/2014 10:32

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Juliana Flister / Agencia i7
(foto: Juliana Flister / Agencia i7 )
As músicas de Lenine conquistaram gerações. Afinal, são 30 anos de carreira. Não há quem não saiba cantarolar pelo menos uma das canções que reinaram em alguma época, como 'Paciência', 'Hoje eu quero sair só', 'A ponte', 'É o que me interessa', 'Jack soul brasileiro', entre tantas outras. No palco, o cantor mostra uma humilde grandiosidade, oposição que combina na tentativa de definir quem é esse cronista musical que transcende os anos. "Com o tempo, precisamos encontrar estímulos, até porque em toda a minha trajetória, sempre teve uma busca pela excelência, ousar, levar além. Isso é uma coisa que me move", afirma o músico.

Como você vê a influência da sua educação na infância no homem que é hoje?
Minha formação foi fundamental. Pode parecer uma dicotomia, mas não é. Papai era ateu franciscano. Ele chegou ao comunismo pelo viés cristão. E mamãe era católica, mas meio macumbeira. Em casa sempre vivi essa liberdade de horizontes muito grande, e o bacana é o convívio com a curiosidade. Meus pais propiciaram esse estímulo de buscar o conhecimento, de se informar, não se limitar ao achar que já conhece, todo tempo que vivi com eles, e mesmo agora, porque ainda são vivos. Isso foi fundamental para o ser humano que eu sou, mais do que o artista.

Como o interesse pela música surgiu?
Para ser bem honesto, a música foi a minha redentora. Quando jovem, era muito feio, cara cheia de espinha, me achava a coisa mais estranha do mundo. Eu tinha a incapacidade muito grande de lidar com o ser humano e de dividir. Era meio excluído de tudo, acredito que todo adolescente passa um pouco por isso. A música chega para mim nessa época. Lá em casa, todo mundo tocava um pouco. Descobri que, com o instrumento, eu enfrentava qualquer um, chegava na festinha e arrasava. Tinha uma facilidade de absorver e transportar aquilo que ouvia para o que eu tocava. Foi redentor.

Quando criança, imaginava ser o músico que é hoje?
Não me recordo muito bem, mas me lembro da mola propulsora de tudo: que era fazer música, compor, criar. Por causa da formação musical do núcleo familiar, essa coisa meio socialista franciscana que eu tive, eu me obriguei durante todo esse período a me fazer três perguntas: o que eu faço, por que eu faço e para quem eu faço. Sempre tenho resposta e é a mesma há vários anos. Por isso acho que sou meio cabeça dura, talvez.

Quais foram as maiores influências do início da carreira?
Meus Beatles são um misto de The Police e Led Zeppelin. Foi isso que me motivou. Queria fazer aquele som, rock’ n’ roll. Então, comecei a compor. Tinha os festivais da época. Era época também de pré-universidade. Bifurcou essa história de uma maneira bem visceral. Saí de Recife porque me senti obrigado até para ampliar o que queria fazer, que era música.

Por que escolheu ir para o Rio de Janeiro?
Quando resolvi ir para o Rio, estava no terceiro ano de engenharia química. Faltava mais ou menos um ano para me formar. Tranquei (o curso) para respirar um pouco. Tinha um desejo lúdico, juvenil de morar no Rio, porque era uma cidade efervescente. Tinha São Paulo também, que me atraía muito, mas o Rio é litorâneo, e isso fez todo o sentido para mim, que fui criado dentro d’água. Naquele momento, em Recife, não existia uma possibilidade real de futuro. Era tudo muito “guetizado”. O Brasil, de um modo geral, sofria de uma síndrome do vira-lata: o que a gente faz não é bom. No Nordeste, isso era mais acentuado. Precisou alguns anos depois surgir o mangue beat como movimento, para exorcizar o Recife que fede, do mangue. Aquilo gerou tanta coisa bacana.

Parece algo comum ao nosso dia a dia a mídia noticiar atos de violência motivados por algum tipo de preconceito. Na sua carreira,já passou por uma situação dessas?
Não sei se é preconceito, mas, quando eu vou a grandes jornais dar entrevista anunciam: o pernambucano Lenine. Olha, sou pernambucano, com muito orgulho, mas não vejo a maioria dos jornais fazerem isso com a carioca Fernanda Abreu ou com o paulista Arnaldo Antunes. Isso pode soar como preconceito. Para mim, não é, porque me orgulho muito. Mas é redutor. Porque é como você adjetivasse o que faz. Eu não gosto de adjetivar o que eu faço. Eu faço música. Ponto.

Não é de hoje que o povo pernambucano se destaca na área da cultura. Há uns anos, o cinema apresenta grandes nomes. Por que o estado se sobressai tanto?
Prefiro acreditar que isso seja um sintoma que revela a alma pernambucana. Pode ser o lance de sempre ter tido essa vocação para cidade portuária, de convívio com muitas coisas. Tudo que chegava da Europa era por Recife, o primeiro porto. Isso, de alguma maneira, nos fez conviver com a diversidade, faz parte da nossa formação: a conjugação de francês, holandês, índio e negro. O fato de não termos sido capital do Brasil de alguma maneira represou toda essa amplitude de manifestação. Porque, realmente, Pernambuco, para a dimensão que tem, é muito amplo, é muito diverso nas expressões populares. Acho também que o nome revela. Pernambuco é um nome cheio de letra e nenhuma se repete. (Risos)

Este ano teremos eleições. O que o Lenine quer dos políticos de um modo geral e para área da cultura?
O que espero dos políticos não vou receber. Tenho 55 anos de idade. Tive o prazer de, em algumas ocasiões, visitar a Câmara e o Senado. Contei nos dedos das mãos as pessoas que, de alguma maneira, passavam idoneidade. Veja bem, passavam, eu digo. Porque é só uma questão de aparência e não devemos acreditar nela. Já tenho um descrédito associado à politicagem. Não a política das coisas, porque eu faço política com a minha música. Endireitar esse país passa forçosamente pela classe política. O que eu vou esperar? Espero que eu não espere sentado. Espero que a política deixe de ser um cabide de empregos, uma busca pelo poder desenfreado, que deixe de ser o sexo dos velhos. Quero ver uma coisa mais arejada, pensando no cidadão. Nós temos uma possibilidade histórica de dar exemplo à humanidade como nação libertária que somos, mas com tanta coisa medieval ainda. A gente precisa aprender a votar direito e colocar pessoas sérias comandando o país.

Você é um cronista musical. O que tem lhe inquietado ultimamente?
Muita coisa. Tenho muito tema para fazer música. Se fosse só isso que motivasse, só o lado que me perturba da sociedade, dava para fazer álbum triplo de três em três meses. Mas eu faço outro tipo de crônica, mais emocional, passional. O que dói marca e é o que faz a gente evoluir. Prefiro acreditar que a gente evolui também na alegria, no riso, na contemplação.

Músicos de sua geração tinham uma causa, algo pelo qual lutar, no caso uma ideologia a ser defendida. Você sente falta de estímulos para a nova geração?
Acho não, muito pelo contrário. O Brasil nunca teve tantos grandes expoentes novos com uma capacidade de síntese muito bacana, equilibrando poesia e melodia de uma maneira ímpar. Essa é uma tradição que não podemos perder. Quando existe só a música do entretenimento, é uma coisa. Mas nós temos uma tradição do trovador, do cancionista, que é a música a serviço do significado e do significante. Tenho andado por esse Brasil e vi muitos jovens trilhando esse caminho da crônica musical. Equilibram palavras e sons de uma forma delicada, profunda e refinada.

Antes de 'Baque solto' (1983), você gravou 'Flor de cactus' (1979). Na verdade, são mais de 30 anos de carreira. Por que o segundo trabalho foi escolhido como marco inicial?
Foi apenas uma convenção. Quando o nome Lenine saiu como produto? Saiu em 1983: Lenine e Lula Queiroga, pela PolyGram. Cheguei a fazer outras coisas antes, mas achei que significou uma autoafirmação com assinatura. Foi a primeira vez que assinei um trabalho em parceria. E, para chegar a esse disco, foram muitos anos. Se fosse para cronometrar mesmo, seriam bem mais que 30. O significado da história foi: celebrar a materialidade como produto, forma e projeto.

Tem alguma recordação saudosa de alguma época da carreira?
Depois de 30 anos, a gente fica com um baú de memórias maravilhoso. E rodei tanto por todo esse planeta… O baú está cheio de lembranças, fotos, filmes, emoções, conquistas e prêmios. E prêmio é bom quando a gente ganha, porque podemos dividir com quem participou do projeto.

Qual crítica não desceu de jeito nenhum? Por quê?
Nunca dei muita bola não. No início me perguntei: é possível que eu esteja a ponto de estar tão errado? Ponderei e cheguei à conclusão de que não poderia estar errado. Porque era íntegro, honesto, bacana, tinha um nicho, que eu levava além, e que por isso era significativo me atirar na música. Fui cabeça dura para insistir naquilo. Não foi fácil. O processo foi segmentar, foi tijolo a tijolo, uma permanência por excelência no fazer, muita dedicação. Passei como compositor a transitar em vários nichos de outros intérpretes.

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