Programação eletrônica está cada vez mais presente em projetos instrumentais de BH

Artistas dizem que fazem música e "tocam" computador

por Eduardo Tristão Girão 12/03/2014 06:00

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Quinho
(foto: Quinho)
Na mais recente apresentação do pianista Rafael Martini, talento da nova geração instrumental belo-horizontina, chamou a atenção a única companhia que o músico escolheu para o palco, o programador eletrônico Pedro Durães. Estava registrado no programa que um tocava piano e o outro computador. Um tanto desconcertante para os habituados a reconhecer bateristas, baixistas, guitarristas e instrumentistas de sopro como parceiros das teclas. Mas isso está mudando. As possibilidades são infinitas e as conexões com todas as artes fazem da programação eletrônica um universo a ser melhor compreendido.

“Gosto de chamar de ‘tocar computador’”, resume Durães. Seu último trabalho em disco foi como co-produtor de 'Deriva' (2013), o arrojado e bem-cuidado trabalho do cantor e compositor Kristoff Silva, no qual assina também boa parte das programações eletrônicas. Ele já gravou com Antonio Loureiro e Juliana Perdigão e foi convidado para apresentação com o guitarrista dinamarquês Mikkel Ploug, no Savassi Festival. “O Rafael entende bem os procedimentos de eletrônica, o que torna a coisa muito mais rica. A primeira experiência mostrou que a parceria deve continuar”, revela.


Mas, afinal, o que é a programação eletrônica? O próprio Durães responde: “O termo é amplo, mas geralmente diz respeito ao trabalho de criação musical com recursos eletrônicos. Especificamente, é o uso de recursos eletrônicos na criação de novos sons e a organização deles como composição musical ou arranjo. É uma espécie de lutheria sonora. No meu caso, o foco está na transformação instantânea do áudio, captado de um instrumento musical ou outra fonte sonora qualquer, numa série de novos sons, que dialogam musicalmente com esse instrumento, gerando uma espécie de orquestração”.


Ele faz isso utilizando um computador, microfones, controladores MIDI e programas que permitem congelar, recortar, tocar em reverso, repetir e mudar a altura dos sons, entre outros procedimentos. “É diferente de usar efeitos, porque o resultado gera música ou arranjo e não tem caráter de acessório”, explica. Durães tem educação musical formal (estudou na Universidade Federal de Minas Gerais) e sabe tocar piano, violão e guitarra. Boa parte dos que se dedicam a programação eletrônica sabem tocar instrumentos.

No caso de Barulhista, outra referência no ramo, é a bateria. “Quando criança, ganhei um par de baquetas, depois um gravadorzinho e, desde então, faço barulho. Meu instrumento mesmo é a bateria, e desde que o laptop caiu nas minhas mãos, as teclas e botões entraram na ‘banda’. Minha escola é uma convivência afetiva com o duo O Grivo e a curiosidade, que quando usada para o bem, funciona bastante”, resume o músico. Para ele, trabalhar com programação eletrônica consiste basicamente em organizar sons no computador e o preconceito que puristas podem ter em relação a isso não o incomoda.


“Não faço música eletrônica, faço música. O computador é apenas uma ferramenta. Alguns acreditam que o processo eletrônico deixa um cheiro artificial na música, mas isso não é culpa do laptop e sim desses ouvidos. O mestre português Vitor Joaquim já dizia que a maior diferença entre um piano e um laptop está no peso de cada um. É tudo música, abraços são feitos de sons e quem não quiser que cruze os braços”, decreta. Naturalmente, para ele é perfeitamente possível construir identidade própria “tocando computador”, a mesma assinatura musical que qualquer instrumentista passa a vida perseguindo.


“Quando você se permite escutar ao menos três artistas que trabalham exclusivamente com programação, percebe rapidamente as assinaturas, cores e perfumes de cada um. No meu caso, são timbres e desenhos sonoros. É meio como ouvir aquele chorus do Lulu Santos ou os synths do Liam Howlett no Prodigy. A coisa toda soa e a imagem reconhecida se forma”, exemplifica Barulhista.

 

Paisagem sonora

 

Ainda que as colaborações com instrumentistas tradicionais tenham aquele “cheiro” de última fronteira, as possibilidades de interação com as demais linguagens artísticas formam cenário estimulante, que já se reflete em outras oportunidades de trabalho. Fabiano Fonseca, por exemplo, começou com o grupo Digitaria, colaborou com gente como Arnaldo Baptista, participou de residências e, hoje, com o parceiro Henrique Roscoe (com quem forma o projeto Ligalingha), faz música para instalações, performances, filmes e peças teatrais.


“Podemos ficar dias improvisando, programando, tocando, repassando e repensando sem nos entediarmos por um instante. Para mudar para algo novo, basta uma decisão e um clique. Não existe dificuldade técnica ou situação insolúvel. É programação eletrônica e psicodelia audiovisual em estado puro. Brincamos de fazer um disco por semana. Ainda não lançamos nenhum trabalho e não estamos muito preocupados com fonograma neste momento”, conta.


Português radicado há poucos meses em Belo Horizonte, André Xina também já utilizou a programação eletrônica para criar sons para teatro, cinema, dança improvisada e até em seu mestrado em antropologia. “Pessoalmente, a música é paixão e no momento que assumo isso perco em nível profissional capacidade de fazer trabalhos distantes da minha realidade emocional. Por exemplo, fui convidado para fazer peças para uma igreja evangélica. Imagino que financeiramente iria ser ótimo, mas não consegui aceitar porque não me vejo nesse ambiente, por mais que o respeite”, conta.


Atualmente ocupado com a divulgação do recém-lançado EP 'Paredes no horizonte', que gravou com o projeto Xafu (reunindo portugueses e mineiros), Xina desenvolve ainda outros projetos na área musical, mas quer viabilizar seu sustento com oficinas de design sonoro e retomar a carreira acadêmica sem deixar a programação eletrônica. “Possivelmente um doutorado na área de paisagem sonora, pesquisa que iniciei em 2009 com o objetivo de entender a influência do som no meio social e urbano”. 

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