Max Rosa constrói violões de cordas de aço que conquistam os músicos de BH

Luthier se baseia em modelos tradicionais norte-americanos

por Eduardo Tristão Girão 22/12/2013 00:13

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Jair Amaral/EM/D.A Press
(foto: Jair Amaral/EM/D.A Press )

Pode parecer um pulo, mas foi um mergulho. Seis anos separam o Max Rosa colecionador das preciosas violas caipiras de Queluz daquele que, hoje, tornou-se conhecido por construir alguns dos violões de cordas de aço mais cobiçados pelos músicos de Belo Horizonte – Affonsinho, Flávio Venturini, Kadu Vianna, Aggeu Marques e Gustavo Fofão (instrutor do Cifra Club TV) são alguns deles. Em seu ateliê, em Nova Lima, na Região Metropolitana de BH, ele atualmente produz seu 45º violão. É um dos cinco modelos que domina, todos basedos na linha vintage da icônica marca norte-americana Martin.


“A maioria dos meus clientes acaba comprando um segundo violão meu e um deles quis comprar minha linha inteira”, orgulha-se Max. Nascido em Belo Horizonte, ele se interessou pelo ofício de luthier quando, já colecionador de várias antigas violas de Queluz, sentiu a necessidade de restaurá-las. Tornou-se, então, aluno de um mestre mineiro da construção de instrumentos musicais, Vergílio Lima, que mantém ateliê na vizinha cidade de Sabará. As violas ficaram lindas.

O estalo que o fez construtor de violão de cordas de aço (totalmente distinto do de cordas de náilon) deve-se ao fato de sempre ter tocado esse instrumento nas bandas das quais participou e, além disso, conhecido meio por acaso Wayne Henderson, aclamado luthier norte-americano que veio a Belo Horizonte visitar o colega de profissão Rodrigo Moreira e comprar madeiras. Daí surgiu a oportunidade para que Max fosse para os Estados Unidos construir um violão com Henderson e seu assistente, Don Wilson.

A ida aos Estados Unidos foi decisiva para que, na volta, Max passasse a se dedicar aos violões de cordas de aço dos modelos 0, 00, 000, Orchestral Model e Dreadnought, sendo este último geralmente conhecido por folk no Brasil. É um trabalho cheio de etapas, cada uma delas com muitos detalhes: embora umas exijam força e outras, jeito, a atenção deve ser sempre – e literalmente – milimétrica. “As pessoas não têm ideia do trabalho sujo que a gente faz. Trabalho de óculos de natação para me proteger do pó”, conta Max.

Um único violão requer cerca de um mês de trabalho. São duas semanas para construí-lo e outras duas para tapar os poros da madeira com resina, nivelar as superfícies com uma lixa e, por fim, envernizar. Ele conta exclusivamente com o auxílio de Adriano Lourenço, que atuou na reforma do seu ateliê e, posteriormente, foi treinado por ele para trabalhar com construção de instrumentos musicais.

Jair Amaral/EM/D.A Press
Em sua oficina em Nova Lima, Max trabalha com ferramentas convencionais e instrumentos adaptados por ele para o ofício (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
Ébano e jacarandá

O trabalho começa com a compra das madeiras. Se não forem nacionais, são importadas dos Estados Unidos, Suíça, Itália e Espanha, principalmente – o ébano (de cor escura, para a escala) é, invariavelmente, de países africanos. O tampo do violão precisa ser feito de madeira de densidade mais baixa, como abeto (spruce), enquanto o fundo e as laterais pedem matéria-prima mais densa, como jacarandá e mogno. Madeiras de demolição, explica, são as melhores de trabalhar, por já estarem estáveis.

“O jacarandá tem o chamado ‘som de vidro’, com os harmônicos evidenciados. É a rainha das madeiras para timbre. Já o mogno dá som mais seco, focado nas notas fundamentais. É muito usado para instrumentos de folk e blues”, observa Max. Ele também trabalha com pau-brasil, cedro, imbuia, ziricote (do México) e koa (do Havaí). “As propriedades do ziricote são parecidas com as do jacarandá e as da koa, com as do mogno”, completa.

“Por causa das nossas restrições de exportação, o jacarandá indiano é o mais usado fora do Brasil. Na Bahia a gente ainda vê muito fazendeiro cortando jacarandá para fazer porteira. Quem mais deveria estar preocupado com isso não dá exemplo”, critica ele. Para se adequar à legislação e evitar problemas com fiscalização, Max só trabalha com madeiras cuja compra é registrada com nota fiscal. Fora a declaração de cada madeira comprada no Instituto Estadual de Florestas.


ATENÇÃO AOS DETALHES

Jair Amaral/EM/D.A Press
Os modelos produzidos pelo luthier têm visual e sonoridade vintage (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
Uma vez submetidas às primeiras serras e lixas (ambas integradas a máquinas enormes e pesadas), as madeiras seguem para o quarto de armazenamento com umidade controlada (40%), sem interferência de luz. No ateliê propriamente dito (cuja umidade fica em 45%), ocorrem os momentos mais interessantes da produção do violão. A começar pelas junções das diferentes partes dos instrumentos, feitas com nada menos que sete colas. Uma delas, à base de colágeno bovino, precisa ser preparada um dia antes. “Depois de seca, fica mais dura que qualquer outra”, conta.

Outra peculiaridade que, certamente, muitos nem sequer conhecem: a face interna de toda a lateral dos violões de Max recebe fitas de cetim que, coladas à madeira, minimizam a chance de rachaduras. Para ajudá-lo na execução de cada detalhe desse longo processo, ele desenvolveu equipamentos próprios e tomou emprestadas ferramentas de outras áreas, como odontologia, mecânica, modelismo e, claro, marcenaria. Lá dentro só entram balas, biscoito e café e é proibido matar aranhas, que se alimentam de cupins e outros insetos. A exceção vale só para as venenosas armadeiras.

Apesar de andar planejando construir viola caipira, violão de 12 cordas e outros ukuleles, ele manterá o foco nesses violões de corda de aço. Aliás, sonha fazer modelo personalizado, que reúna suas preferências de cada um dos cinco que já fabrica. O som desses violões à moda antiga é descrito pelos norte-americanos como “um celeiro escuro e quente” e chegar a esse resultado ainda é motivo para que Max fique horas e horas enfurnado no ateliê.

“O som vintage é resultado de uma série de fatores. Deve ser definido, com massa sonora coerente, mas ao mesmo tempo com distinção de todas as notas. Não pode ser grave demais, nem com muito brilho. Tem que responder ao mais suave toque dos dedos e à mais vigorosa das palhetadas”, define. O objetivo é de abstração que beira o cruel, o trabalho não para e a fila de espera de músicos ansiosos por “namorar” seus violões só cresce.

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