Show de padre Fábio de Melo na Galopeira atrai público de todas as idades

Na casa especializada em música sertaneja e funk, fãs cantaram junto e ouviram felizes as pregações do religioso, que se apresentou em BH nesta quinta-feira

por Ana Clara Brant 21/12/2013 00:13

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Marcos Vieira/EM/D.A Press
Galopeira se preparou para receber mais de 1,5 mil espectadores, no encerramento da turnê 2013 de 'Queremos Deus' (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
O show estava marcado para 21h. Os portões foram abertos às 20h. E às 18h15 já tinha gente se aglomerando na porta da Galopeira. E o alvoroço não era por nenhum ídolo do sertanejo, do pagode ou do funk, gêneros que dominam a programação da casa de espetáculos, localizada na Avenida Teresa Cristina, no Prado. A noite da última quinta-feira estava reservada para um novo segmento, o mercado gospel. No palco, o fenômeno religioso do momento, padre Fábio de Melo, mineiro de Formiga, no Centro-Oeste mineiro.


O próprio sacerdote, de 42 anos, revela que como não conhecia o histórico do espaço, não estranhou se apresentar por lá, mas admite que muitos fiéis chegaram a reclamar do local escolhido. “Confesso que no início muitas pessoas que estão acostumadas a me ver em outros locais ficaram um pouco assustadas, porque não conheciam a Galopeira. Eu mesmo, com toda sinceridade, nunca tinha ouvido falar. Mas um amigo assegurou que era um espaço bacana, que tinha sido revitalizado e que estava justamente querendo mudar o histórico da casa e até mesmo trazer públicos diferentes”, explica.

A principal razão para a escolha da casa, segundo a empresária Heliomara Marques, foi a dificuldade de encontrar um grande espaço para shows em Belo Horizonte. “Os custos do Chevrolet Hall, onde ele está acostumado a cantar, estão muito altos. O Mineirinho não tem uma acústica boa e o Palácio das Artes e o Sesc Palladium não abrem agenda para religiosos. A única vez em que o padre se apresentou no Palácio das Artes foi com um repertório secular. A gente está abrindo portas. Depois do padre Fábio de Melo, outros artistas do mundo gospel vão cantar na Galopeira”, anuncia.

                              Veja mais fotos do show do padre Fábio de Melo

Mas não é novidade para Fábio de Melo cantar em espaços, digamos, pouco convencionais. Ao longo de sua carreira de 16 anos ele conta que já evangelizou dentro de bares, boates, festas de peão de boiadeiro, exposições agropecuárias e até do alto do trio elétrico. “Onde existam pessoas dispostas a ouvir o nosso trabalho, a evangelização pode ocorrer. Deus está em todos os lugares. Acho que a gente tem que seguir o exemplo de Jesus. De entrar em todos os espaços”, propõe.

No show Queremos Deus - seu trabalho mais recente - de aproximadamente duas horas de duração, o padre canta (e muito bem, diga-se de passagem), mas sobretudo prega. Entre uma e outra canção, ele dá conselhos, oferece uma palavra de conforto: “Rezar é querer o bem do outro. Só a graça de Deus nos dá leveza para enfrentar a vida”, preconiza. A maioria do público reage cantando todo o repertório, joga rosas no palco, acena, manda beijos. Pula, faz coreografias, mas também tem seus momentos de recolhimento. “Agora vocês podem se sentar, porque ainda vamos dançar muito”, pede o padre, como se estivesse celebrando uma missa.

O set list é todo religioso, mas há espaço para uma ou outra composição secular, como Amor pra recomeçar, de Frejat, e Pareço um menino, do repertório de Fábio Júnior. A apresentação em Belo Horizonte contou com as participações especiais dos cantores gospel Ziza Fernandes, Eros Biondini e Celina Borges e fechou a temporada 2013 do padre.

Para Fábio de Melo, que morou na capital durante dois anos, encerrar aqui a turnê tem algo de especial. Além de ter um carinho especial pelo público belo-horizontino, a equipe que o acompanha há mais de uma década, a Talento Produções, tem sede no Bairro São Luiz, na Pampulha, e cuida de sua carreira no Brasil e no exterior. “Eu poderia dizer que é uma equipe que não tem todas as competências, mas que me ama. Isso para mim é muito especial”, diz.

Público

Marcos Vieira/EM/D.A Press
Odete, Júlia e Ronise Campinelli: três gerações de fãs do padre Fábio de Melo (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
Há muitos idosos nos shows e, por causa disso, a produção tem um cuidado em conduzir as pessoas até o seus assentos. Não há venda de bebidas alcoólicas durante as apresentações. O preço dos ingressos variou de R$ 35 a R$ 280. Tudo que é arrecadado nas apresentações do padre Fábio de Melo, além de pagar as despesas do próprio show - como aluguel do espaço, banda e técnicos - é doado para duas entidades que contam com a ajuda do sacerdote, a Fundação Dom Couto, em Taubaté, e o projeto Arte pela Paz, em BH.

Kátia Maria de Souza Assis, de 44 anos, ao lado do marido, Antônio Francisco de Assis, de 50, e das amigas Juliana Aparecida de Souza, de 33, e Maria Lúcia de Assis, de 37, foram um dos primeiros a chegar. Lúcia aproveitou para comemorar o aniversário e estava emocionada em assistir mais uma vez à apresentação do religioso. “O jeito de falar dele toca o nosso coração”, destaca.

Três gerações de uma mesma família, a neta Júlia Campinelli, de 11; a mãe, Ronise Campinelli, de 38; e a avó, Odete Moreira, de 66, estão acostumadas a seguir o religioso. “O padre passa o que sente. Faz a gente se sentir melhor só com suas palavras”, comenta Júlia. Intitulando-se “a fã nº 1”, Maria das Mercês Miranda, de 84, chegou animada ao Galopeira na noite de quinta-feira. “Vou a todos os shows sozinha, mas quando chego encontro um monte de amigos. Ele tem essa capacidade de congregar as pessoas”, declara.

Já o casal Mariana Lopes e Daniel Felipe Moreira, ambos de 23, estava estreando em apresentações de Fábio de Melo. Ela, que é católica, levou o namorado evangélico, que nunca ouviu falar no religioso. “Já fui com ele em shows de artistas evengélicos e agora é a vez de o Daniel retribuir. Ceder faz parte do amor”, filosofa Mariana.


Ligado nas redes sociais

Marcos Vieira/EM/D.A Press
Maria das Mercês Miranda, de 84 anos, veio de Diamantina especialmente para o show (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
Em todos os shows do padre Fábio de Melo há um estande com produtos do religioso: camisetas, canecas, CDS, DVDs, fotos e livros. Durante a apresentação, ambulantes também aproveitam para vender, entre os fãs e fiéis, as faixinhas de cabeça. No Galopeira não foi diferente. Quando se apresenta em BH, o padre costuma se hospedar na casa de conhecidos. “A cada vez que vem aqui ele reveza para poder atender todo mundo. É muito querido na cidade”, afirma sua empresária.

E o assédio também acaba sendo grande no camarim, antes e depois do show. Os amigos querem ter a todo custo uma palavrinha com o sacerdote. Antes de entrar no palco, assim que terminou seu jantar japonês, o padre falou ao Estado de Minas sobre a expectativa para a apresentação, dos projetos para 2014 - deve lançar mais um CD e um livro - e sobre o Natal. “Vou passar sozinho mesmo, em Taubaté (SP), mas minha mãe vai estar em Uberlândia, onde mora. Ela ficou comigo esses dias, mas vamos nos reencontrar em breve”, diz.

Assíduo nas redes sociais, especialmente no Twitter (http://twitter.com/pefabiodemelo), ele assegura que é responsável por todos os posts, que alternam mensagens de conforto, com queixas e comentários de qualquer mortal como problemas nos aeroportos, piadas e até dieta. O último, inclusive, é curioso: “Hoje completo 45 dias sem comer doce. Um balanço razoável. Perdi 2% do peso desejado e 98% da minha alegria”. O contato pelas redes sociais é visto por ele como uma forma de aproximação com as pessoas. “É como se conversasse na cozinha lá de casa”, compara.

Vaidoso assumido (na própria Galopeira ele chegou a usar duas camisetas em um intervalo curto de tempo), padre Fábio ainda diz que não é devoto de nenhum santo, mas tem um carinho profundo por Santo Antônio. “Não sou muito devocional, mas gosto muito dele por ser o padroeiro dos pregadores”, explica.

Três perguntas para...
Fábio de Melo - padre e cantor


O senhor está num momento de transição entre o lado artístico e o religioso. Fale um pouco sobre isso.

Tenho sentido necessidade de criar espaços onde eu possa ser um padre sem toda essa badalação que às vezes existe em torno da minha vida. Pregar o retiro, por exemplo, me dedicar a eventos menores, situações mais simples, nos quais possa encontrar as pessoas de maneira mais direta e demorada. Para isso criei uma associação, que se chama Vila Sacramento, onde quero me dedicar e criar um centro de espiritualidade. Ainda não sabemos como isso vai funcionar, mas a sede será em Campos do Jordão (SP) e já comecei a dar os primeiros passos. Acredito que daqui a cinco anos devo me dedicar inteiramente a esse projeto.

Isso significa que os shows vão diminuir?

Por enquanto, não. A minha vida vai seguir do jeito que está. Mas pretendo experimentar o futuro. Ver algumas coisas que possa fazer nesse centro de espiritualidade, desenvolver outro lado da minha vida, que me faz muita falta, que é esse encontro com as pessoas.

O senhor consegue ter uma vida normal de padre? Celebrar missa, ouvir confissões?

Celebro missas, mas não tenho paróquia e as pessoas conseguem, sim, confessar comigo. Em muitas situações consigo atender. Mas nunca dentro da igreja, sempre num contexto de informalidade. Às vezes estou num lugar e a pessoa pede para conversar comigo e percebo que ela precisa de uma confissão. Outro dia mesmo, fui num consultório de um médico amigo meu e ao final da consulta ele disse: ‘Padre, estou precisando tanto me confessar. E o senhor está aqui comigo, né? Tem algum problema?’. E aí, depois de ele me atender na consulta, eu o atendi em confissão.

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE MÚSICA