Cantora Wanderléa serviu de inspiração para gerações durante a Jovem Guarda

Confira entrevista com a musa da Jovem Guarda

por Correio Braziliense 25/11/2013 10:08

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.

Jairo Goldflus/Divulgação
(foto: Jairo Goldflus/Divulgação)
Todo movimento que se preze carece de uma musa. Se ainda pairam no ar dúvidas sobre a Jovem Guarda ter sido ou não um movimento, o nome da musa é indiscutível: Wanderléa Salim. Ternurinha para uns, Wandeca para outros, a cantora serviu de inspiração para toda uma geração de garotas que começavam a trocar os vestidos longos pelas minissaias e sonhavam ser cortejadas por Erasmo e Roberto Carlos. Mineira de Governador Valadares e descendente de libaneses, Wanderléa entrou na onda de reviver os anos de iê-iê-iê. Prestes a completar meio século de carreira, em 2014, a artista, de 67 anos, falou ao Correio sobre a moda lançada pelo rock, o preconceito da MPB e a autobiografia que planeja para breve. “Não paro de trabalhar”, disse ela.

Qual foi o tamanho da revolução causada pela Jovem Guarda?

Foi um movimento divertido, ingênuo, que contou com a adesão de toda a juventude brasileira. Através dessa música, contestou-se uma cultura adulta rígida que não privilegiava os anseios da garotada. Acrescentou-se um protesto de liberdade, que se mostrou por meio de um conceito novo, comportamental, através das reivindicações dentro de casa, na maneira de vestir, de dançar, de cantar. E, principalmente, na efetivação de um mercado novo, um mercado jovem no país, algo que não existia. Nós viemos daquela sisudez dos nossos antepassados, que participaram dos resquícios da austeridade da Segunda Guerra. Ansiávamos por uma coisa diferenciada, de fazer uma conexão com o que estava acontecendo no mundo.

Há quem diga que não havia compromisso com o novo, apenas com a diversão.

Em todas as gerações, a juventude quer contestar o que está acontecendo. Imagine nós, aqui no Brasil, dentro de um contexto muito rígido?! Então, quando apareceu a oportunidade, aquela abertura com a chegada do rock and roll, foi uma euforia muito grande. O movimento que o rock nos proporcionava era diferente, uma coisa da garotada da periferia, que queria agitar, se soltar. A bossa nova era maravilhosa para mim, que sempre fui musical, eu gostava da harmonia e tudo. Mas eu tinha que me manter quietinha, cantando, emitindo sons, coisa e tal. Aquela coisa do rock and roll era toda rasgada, sem compromisso.

E como você, menina prodígio da música, se juntou à turma da Jovem Guarda?

Por ser cantora infantil bem-sucedida, ganhei um contrato na Columbia aos 9 anos. Meu pai contestava muito isso, mas as coisas vinham independentemente de ele querer ou não. Cantava tudo o que ouvia no rádio. Tenho uma memória musical fantástica. Cheguei ao Rio com minha família, fui cantar em programas infantis e ganhei um concurso. Na época, os rádios tocavam uma música jovem que antecedeu a gente: Sérgio Murilo, Celly Campelo e Tony Campelo. Celly arrasando já. A própria Elis Regina gravou música de juventude e não aconteceu. Nem imaginava que eu fosse fazer o mesmo gênero de música.

E o começo…?

Fui a uma caravana no programa do Luiz de Carvalho e tinha vários artistas jovens fazendo esse gênero no Rio. E entre eles, Roberto Carlos, que eu assisti e depois conversamos. Ele já tinha feito o primeiro disco, envolvido com a bossa nova. O Sérgio Murilo, por algum motivo, parou a carreira. A Celly optou pela vida familiar. Então, a CBS colocou o Roberto também na música de juventude. Fui chamada para gravar uma música, Meu anjo da guarda, que era um twist. Eu, como cantava outras coisas na época, rejeitei um pouco. Via aquilo meio de nariz torcido, mas só de lembrar que aquilo ia me remeter aos amigos alegres que eu conheci, entre eles o Roberto, eu topei. E ali fiz a minha performance dentro do estúdio, dividindo de uma maneira, fazendo soluço. Foi onde explodiu, aconteceu.

Vocês sofreram preconceito da turma da MPB?


Sofremos porque éramos novos. Eles queriam que a gente tivesse uma politização, mas a gente não tinha por causa da idade. Estávamos lutando por liberdade. A maior ditadura que existia era dentro das nossas próprias casas. Até hoje, é quando a juventude entra na faculdade que ela começa a ser politizada. O que eu tenho de lembrança de politização era o meu avô, tecelão, que participava de sindicato.

Como era a relação de vocês com a ditadura militar e a política?

Com um pouco mais de maturidade é que fui compreender o que estava acontecendo. Aí é que percebi a gravidade do momento. É como hoje: acontecendo essa situação toda no Brasil, a transformação com o encarceramento do pessoal do colarinho branco. A garotada de 15, 16 anos, se você perguntar, não está lendo jornal. Eles estão interessados em descobrir o seu tempo. E nós éramos uma juventude igual, um pouco diferenciada, porque hoje existe uma ferramenta que é a internet. Só quando você vai ficando mais adulto, começa a exercer a sua cidadania, passa a perceber a ação da política. E, naquele tempo, a gente nem votava. Ficávamos felizes da vida que, por meio da música, estávamos conseguindo fazer uma transformação. Acho que esse movimento foi tão espontâneo, tão sincero e verdadeiro, que por isso desperta tanto interesse até hoje.

O uso das guitarras elétricas foi uma barreira que a Jovem Guarda ajudou a superar.

Acho que, com a sonoridade das guitarras, a gente quebrou uma tradição no Brasil. Eu, quando era criança, cantava só com regional, depois com grande orquestra. Essa coisa mais moderna, a conexão da música da gente com a música do mundo, nos tornou ecléticos. Para a própria música brasileira, de uma certa forma, foi interessante essa troca. Os puristas davam de pau na cabeça da gente por causa da guitarra. Se a gente fosse ficar preso ao nosso regionalismo, a música ficaria um pouco passada.

As “festas de arromba” aconteciam mesmo?
Para mim, que sou filha do seu Salim, não teve isso não. Acho que Roberto e Erasmo eram muito assediados e tudo, mas as mulheres da Jovem Guarda tinham muita postura. Ninguém levou uma vida promíscua ali no meio. Passei por esse movimento com muita dignidade e me honro muito disso. Eu estava em um meio masculino, porque o poder estava na mão dos produtores, diretores... Eu tinha uma coisa de educação familiar rígida e um compromisso com meu pai, com aquele autoritarismo moral que existia dentro de casa.

Deve ter sido difícil, então, sair de casa para se tornar artista.

O meu pai resistiu, depois acompanhou meio que a contragosto minha carreira. Quem me acompanhava era meu irmão mais velho, Wanderley. Depois, tive o meu irmão Bill, que foi muito importante, muito atuante, pois ele fazia as minhas roupas — as roupas que o Brasil inteiro usou. Era tudo tão transformador o que ele fazia, o mercado da moda ficava de olho para saber o que a gente usaria. E ele foi tão influente que, depois, foi contratado para fazer roupas para a Gal Costa e outros artistas performáticos. As coisas que ele produzia eram mesmo originais. A gente não tinha um mercado para o mundo artístico. Quando eu comecei a descobrir que era interessante essa coisa de inventar, para não ficar muito careta, não ter que usar aquelas roupinhas que a gente comprava no mercado, queria fazer uma coisa diferente e não tinha. Queria colocar uma bota transada, algo meio cowboy, então a gente mandava fazer. Tinha uma fábrica de botas, que trabalhava com couro italiano… A gente ia para lá e mandava os artesãos fazerem aqueles adereços, complementos, cinturões.

As minissaias escandalizaram, não é?!

Enquanto a Mary Queen fazia quatro dedos acima do joelho, a minha saia era um palmo abaixo da pélvis. Aquilo assustava a família brasileira. Mas eu acho que toda a minha saia curta, as minhas roupas, a minha modernidade, foram feitas com muita classe. Quando eu vejo as minhas coisas daquela época, eu não tenho nada a me envergonhar. Muito pelo contrário, acho que foi tudo muito glamouroso. Depois do que a gente fez, não se viu mais nada inovador. Os Beatles estavam bem longe, lá fora, e nós fomos os representantes aqui no Brasil. E os brasileiros tiveram que se vestir como a gente, colocar uma calça saint tropez, um cinturão. Todo sessentão, cinquentão, hoje, deve ter no fundo do armário uma calça boca de sino. Cheguei aqui a São Paulo e os homens se vestiam todos de camisa branca, paletó preto, camisa azul-marinho e cinza. Roberto e Erasmo, com os cabelos compridos, andavam na rua com camisa de babado. Eu, com as minhas calças de umbigo de fora. Imagina isso naquela época. Era uma grande mudança comportamental, porque aquilo era a nossa maneira de protesto, de libertação, de expansão. E com isso a gente criou uma cultura jovem no país, em todos os sentidos.

Nesta polêmica das biografias não autorizadas, você resolveu escrever a sua antes que alguém o fizesse por você?

Não, eu tenho a minha escrita há mais de 15 anos. Sempre gostei de escrever, mas quando descobri grande interesse da imprensa sobre o assunto, fiquei um pouco assustada. Então, todo mundo fica até hoje me cutucando com essa biografia, que eu nunca me libertei dela. Ficou uma coisa presa comigo. O que eu escrevi estes anos todos renderia uma porção de livros. Mas agora não tem jeito, já assinei o contrato uma vez, renovei assinatura. Vai sair. Já até me pagaram. O que eu faço nessa autobiografia é contar que a Jovem Guarda foi um aprendizado muito grande para mim como pessoa. E todos esses louros da minha vida profissional eu devo a ela.

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE MÚSICA