Parceria entre Hamilton de Holanda e Stefano Bollani valoriza união da música de Itália e Brasil, e alcança o mundo

O pianista italiano e o bandolinista brasileiro lançam CD pelo prestigiado selo ECM, com registro ao vivo de temas instrumentais dos dois países

por Eduardo Tristão Girão 22/09/2013 00:13

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Tom Cabral/Divulgação
Stefano Bollani e Hamilton de Holanda criaram sintonia que tem agradado ao público nos dois lados do Atlântico (foto: Tom Cabral/Divulgação )
Já consagrado no Brasil como maior bandolinista da atualidade, o carioca Hamilton de Holanda parte, agora, para a conquista definitiva do prestígio internacional. As viagens para participar de festivais mundo afora já fazem parte de seu cotidiano, mas dois dos três discos que esse artista em plena forma lançou este ano sinalizam mais claramente essa direção. A começar por O que será, gravado com o pianista italiano Stefano Bollani e lançado pela gravadora alemã ECM, ainda hoje referência mundial em música instrumental.

Em apresentações feitas para lançar o disco – no Brasil o duo estreou em Olinda (PE), no começo do mês – o repertório foi essencialmente música brasileira: de Chico Buarque (Beatriz) a Egberto Gismonti (Lôro), passando por Pixinguinha (1x0, Segura ele e Rosa), Cartola (a inspiradíssima versão de As rosas não falam) e Baden Powell com Vinicius de Moraes (Canto de Ossanha). Essa é a essência do disco O que será, que conta também com duas boas peças autorais, Il barbone de Siviglia (do italiano) e Caprichos de Espanha (do brasileiro). A desenvoltura do artista no bandolim de 10 cordas é impressionante.

Bollani, que Hamilton conheceu há cinco anos num festival italiano, faz graça o tempo todo (além de tocar muito bem). Brinca na hora de ajustar a altura de sua banqueta, ao esticar partitura quilométrica sobre o piano e ao fazer fundo musical sentimental enquanto o bandolinista confessa se sentir feliz por tocar na terra de seus pais. Por meio dele, que já tem discos lançados pela ECM, surgiu a oportunidade de lançar o registro do show que fizeram ano passado na Bélgica pela gravadora, que tem sobretudo discos de estúdio em seu catálogo.

“Ele é um cara muito bem-humorado, praticamente um humorista. Quando morei na França, ganhei um disco dele no qual canta Trem das onze. Virei fã. Pelo ritmo que ele tem, você pensa que é um brasileiro tocando, é impressionante. Ele gosta muito de MPB e choro. Tem a mente aberta, em primeiro lugar. Tem técnica e harmonia do nível dos norte-americanos considerados top do jazz. E tem esse humor, que deixa as coisas leves. Mas com profundidade, como demonstra em Oblivión, peça de Piazzolla que gravamos, cheia de sentimento”, elogia.

Boa companhia

Pouco depois do primeiro show que fizeram, em 2008, o empresário do italiano logo marcou série de apresentações pela Europa. A performance captada em O que será foi das últimas, na Antuérpia (Bélgica), em agosto do ano passado. Bollani resolveu mostrar o material para Manfred Eicher, fundador e produtor de todos os discos da ECM, que não quis lapidar a parceria dos dois músicos em estúdio, mas lançar do jeito que a conheceu, ou seja, ao vivo. Tudo aconteceu tão rápido que Hamilton nem sequer conheceu pessoalmente Eicher.

“Sinto ter chegado a uma gravadora de que gosto muito, de artistas de que gosto demais. Sei o Köln Concert, do Keith Jarrett, de cor. E estou nessa gravadora tocando música brasileira, que é o que me deixa mais feliz. Não estou inventando nada para tocar lá. O que toco aqui e lá é a mesma coisa”, comemora o bandolinista. O repertório dos dois não para de crescer e não são descartadas as possibilidades de novos shows, discos e até um DVD. “E sou eu que fico insistindo para incluirmos músicas italianas”, revela Hamilton.

Música para Portinari

Paralelamente, o bandolinista se desdobra entre muitos outros projetos. Dias antes de estrear com Bollani em Olinda, esteve em Belo Horizonte para lançar outro disco, Mundo de Pixinguinha, no qual revisita a obra do mestre do choro em duos com convidados de diferentes origens, como o trompetista norte-americano Wynton Marsalis, os pianistas cubanos Chucho Valdés e Omar Sosa, o acordeonista francês Richard Galliano, o pianista português Mario Laginha e o próprio Stefano Bollani, além de André Mehmari (piano), Carlos Malta (sax tenor) e Odette Ernest Dias (flauta), esses três últimos residentes no Brasil.

Sosa provavelmente voltará a se reunir com Hamilton, como revela o bandolinista: “Vamos fazer algo juntos, como uma turnê pelos Estados Unidos. Em algum momento vai rolar algo mais profundo com ele, pois me liguei muito a ele. É um cara mais da direção, que sabe dos elementos todos que a música tem e pode ter, e viaja naquilo, pensando em arranjo, enxergando de fora. Sem falar no desenvolvimento rítmico, que te deixa sem chão”.

Também em desenvolvimento está a colaboração com Milton Nascimento, que deverá gravar com o quinteto de Hamilton, formado por Daniel Santiago (violão), Gabriel Grossi (gaita), André Vasconcellos (baixo acústico) e Márcio Bahia (bateria). A aproximação entre os dois começou quando Bituca o convidou para compor temas inspirados nos painéis de Candido Portinari, que compõem a mostra Guerra e paz, de Portinari – que será trazida para Belo Horizonte em breve, marcando a reinauguração do Cine Brasil.

Hamilton quer manter a média de, pelo menos, dois álbuns lançados por ano. Sem descuidar da qualidade em detrimento da quantidade, o artista vem mantendo alto o nível de seus trabalhos e, em relação a isso, relembra com prazer a reclamação (bem-humorada) que ouviu recentemente de um fã: “Não tenho tempo nem dinheiro para comprar todos os seus discos”.

No ritmo dos orixás

Mundo de Pixinguinha, disco de Hamilton de Holanda do qual Omar Sosa participa, não é o único namoro do pianista cubano com a música brasileira. Ele também esteve em Olinda este mês para tocar no festival Mimo e lá conheceu os músicos do terreiro Xambá, com quem imediatamente decidiu gravar um disco ano que vem, já batizado de Dos manos. Será baseado na fusão de elementos da santería cubana com os da música dos pernambucanos.
Beto Figueroa/Divulgação
O pianista cubano Omar Sosa está à vontade entre os músicos brasileiros (foto: Beto Figueroa/Divulgação)

Sosa justifica seu entusiasmo: “Temos os mesmo orixás e os ritmos acabam sendo similares, apesar de os instrumentos serem diferentes. Não é nada novo para mim. Sou santeiro, religioso e é como se estivesse na minha casa de santo, que aqui se chama terreiro. Era como se estivesse no bairro de minha família, em Camaguey. Escutei algo novo em termos melódicos, mas o mesmo em essência. Me impressionei em ver meninos de 8, 9 anos tocando incrivelmente como profissionais, certos de que essa é a verdade, o caminho, a luz”.

Fora isso, o pianista, que mora em Barcelona, na Espanha, viajará ainda este ano para a China, onde gravará com Wu Tong, músico local que toca sheng (instrumento de sopro). É apenas parte dos trabalhos para conceber Águas transparentes, disco que terá também convidados do Mali e representantes das tradições afro-cubana e afro-venezuelana – também é estudada a participação de cantoras, como a norte-americana Cassandra Wilson.

O disco mais recente de Sosa, Eggun, foi a base do repertório de sua apresentação em Olinda. O trabalho é um tributo ao lendário álbum Kind of blue, do trompetista Miles Davis – mas sem releitura de uma música sequer. “Colhi fragmentos de solos de Miles, Cannonball Adderley e John Coltrane para criar as melodias. Todas são novas, mas não são, pois foram criadas a partir de notas que eles já tocaram. Criei harmonias respeitando a essência do disco e também o tempo dos temas, pois é uma música contemplativa”, explica Sosa.

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