Bossa 50+5 conta com clássicos da bossa nova adaptados ao sambalanço nos anos 1960

Caixa do selo Discobertas resgata grupos dos anos 1960 que gravaram clássicos da bossa nova em ritmo de sambalanço. O trabalho desses músicos de estúdio é cultuado por colecionadores

por Eduardo Tristão Girão 07/09/2013 00:13

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Discobertas/divulgação
Gravados em estúdios cariocas na década de 1960, discos reafirmam espaço do sambalanço na MPB (foto: Discobertas/divulgação)

Com 10 LPs reeditados em cinco CDs, a recém-lançada caixa Bossa 50+5 merece ser minuciosamente degustada pelo ouvinte que aprecia a sonoridade brasileira dos anos 1960, especificamente dos grupos que se alimentaram da bossa nova para consolidar o estilo que ficou conhecido como sambalanço. Trata-se de álbuns não muito conhecidos, mas nem por isso menos interessantes, com ótimos registros de clássicos bossa-novísticos feitos por experientes músicos de estúdio do Rio de Janeiro, logo depois do estouro de Tom Jobim, João Gilberto e companhia.

À frente da iniciativa está o pesquisador musical carioca Marcelo Fróes, criador do selo Discobertas, pelo qual foram lançadas relevantes caixas de CDs, como as dedicadas a Moreira da Silva, Ed Lincoln, Pery Ribeiro, Cauby Peixoto, Marcos Valle, Celly Campello e Zimbo Trio. No caso de Bossa 50+5, os encartes reproduzem capas e contracapas originais de cada título contemplado, bem como textos internos e rótulos dos LPs.

São eles: Balanço e bossa nova (Ritmistas da Bossa Nova, 1963), Sambas em duas bossas (Os Azes da Bossa, 1964); Sambalanço (Orquestra Moderna de Samba, 1963), Isto é bossa nova mesmo (Conjunto Sambossa, 1963), Saxsambando (Os Saxambistas Brasileiros, 1960), Bossa nova espetacular! (Os Saxambistas Brasileiros, 1963), O balanço é a bossa (Conjunto Masterplay, 1962), Samba do bom (Conjunto Samba de Balanço, 1962), Bossa Brass apresenta a música maravilhosa de Antonio Carlos Jobim (Bossa Brass, 1966) e Samba pra frente (Samba Trio, 1966).

“Venho colecionando discos há décadas. Verifiquei que o universo de repertório do início dos anos 1960 contava uma história: efetivamente, é o sambalanço tocado por grande músicos de estúdio que permaneceram no Rio de Janeiro quando outros foram embora depois do estouro da bossa nova. Eles faziam um som extraordinário, independentemente de ser famosos”, analisa Marcelo Fróes. O projeto lhe tomou “alguns anos” de trabalho. O critério de seleção dos títulos foi a “sonoridade de produção”, informa.

O barquinho (Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli) e Só danço samba (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) lideram as inserções nos 10 álbuns, cada uma com quatro aparições. Também estão lá clássicos como Samba de uma nota só e Desafinado (ambas de Jobim e Newton Mendonça), Lá vem a baiana (Dorival Caymmi), Oba la la (João Gilberto), Maria Ninguém (Carlos Lyra), É luxo só (Ary Barroso e Luiz Peixoto), Samba triste (Baden Powell e Billy Blanco) e Preciso aprender a ser só (Marcos e Paulo Sérgio Valle).

Alguns discos citam os nomes dos músicos participantes. Em outros, como Samba do bom, o encarte se limita a informar que foi gravado pelo Conjunto Samba de Balanço. “Cada qual tinha seu motivo, mas em certos casos alguns poderiam estar presos contratualmente a outra gravadora. Ou a empresa preferia pagar um xis pela gravação e ter total controle sobre a matriz. Isso era muito comum numa época em que canções eram mais importantes que seus intérpretes”, explica o pesquisador.

Entusiasmo

Como de costume nos lançamentos da Discobertas, a tiragem inicial de Bossa 50+5 é de 1 mil exemplares. “Não é barato, mas fruto do entusiasmo de todos os envolvidos – dos artistas às gravadoras, além de quem remasterizou ou fez a adaptação gráfica. E, claro, da fábrica com a qual Discobertas trabalha”, garante Marcelo. O projeto do selo é motivado tanto por seu gosto pessoal quanto pela satisfação de oferecer títulos difíceis de encontrar. O próximo lançamento, aliás, será um box do cantor Agostinho dos Santos (1932 – 1973).

“Temos trazido alegria aos consumidores de reedições. Nos últimos anos, houve cada vez menos resgates por parte das grandes gravadoras. Algumas preferem reeditar material de artistas que já tiveram caixas lançadas, outras acham que investir em novas reedições não vale a pena. A Discobertas faz os CDs que eu, como consumidor, gostaria de encontrar para comprar. Nós nos orgulhamos de todos os projetos”, resume.

 

Escute canções do box Bossa 50+5:

 

 

 

três perguntas para...


Marcelo Fróes
criador do selo Discobertas

Qual é a relevância musical das interpretações desses grupos? É possível identificar alguma influência deles na bossa nova?

Eles registram ali muito do que tocavam nas boates e bares da época, pois iam para o estúdio com tudo na ponta da língua. Alguns discos eram gravados em apenas uma ou duas sessões. Há muita vitalidade, muita música feita por músicos de verdade, praticamente ao vivo no estúdio. Não é à toa que esses discos são cultuados até por colecionadores estrangeiros.


Nas fichas, percebe-se a presença dos maestros. Quem eram eles? Que referências usavam para escrever os arranjos?

Eram maestros de estúdio: comandavam músicos numa época em que os discos nem tinham produtores, apenas técnicos de gravação. Muitas vezes, esses maestros nem eram efetivamente autores dos arranjos, mas produtores disfarçados de diretores musicais.


Que relação os grupos tinham entre si? O clima era de camaradagem ou rivalidade?

Muitos tinham nomes de fantasia, para creditar álbum gravado anonimamente por músicos das melhores boates do Rio. Ou eram nomes conhecidos querendo apenas fazer hora extra por uns trocados. Não havia relação entre eles. Vários deles não existiam fora do estúdio, não havia show desses nomes artísticos. Eram usados apenas para assinar discos.

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