Mal dimensionado, belo show de Capinan, Roberto Mendes e Jards Macalé teve pouco público

O trio de músicos merecia espaço bem mais intimista

por Eduardo Tristão Girão 10/08/2013 06:00

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Ramon Lisboa/EM/D.A Press
Apresentação de 'Conta, poeta', quinta-feira, em BH, deixou claro que a produção deve rever espaços dos próximos shows (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)
Foi um tanto incômoda a visão do Grande Teatro do Sesc Palladium praticamente vazio, na quinta-feira à noite. Não mais do que 200 lugares (de 1.321) foram ocupados para conferir a única apresentação em Belo Horizonte de três nomes de peso da composição brasileira: os baianos Capinan e Roberto Mendes e o carioca Jards Macalé. Apesar do bom som e do conforto, o espaço sem dúvida não foi o melhor para a proposta do espetáculo, intitulado 'Conta, poeta'.


Não foi um show qualquer. Aliás, não foi exatamente um show. Centro das atenções, Capinan, que não é frontman (mas poeta e letrista), não se preocupou em cantar com os dois convidados, dos quais é parceiro. Recostado na cadeira, observou “de camarote” o desfile de canções que coleciona com ambos e entremeou as duas horas do espetáculo com histórias sobre as composições. Por esse motivo, teria sido melhor atmosfera mais intimista.

Bastante à vontade, Capinan permaneceu no palco o tempo todo e, na primeira metade do espetáculo, teve a companhia de Macalé – e seu violão, bonito na “sujeira” e nas oscilações de volume com que é tocado. 'Farinha do desprezo', 'Movimento dos barcos' e 'Gotham City' (todas escritas pelos dois) foram incluídas no repertório da noite, sendo que antes de começar a tocar essa última, Macalé pediu que fosse vaiado ao final (e foi). A ideia foi relembrar a vaia que levou com essa música em 1969, durante uma das edições do Festival Internacional da Canção.

Diante da plateia, Macalé diz não ser tropicalista e Capinan afirma que quase não é. Os dois riem e se lembram de como a canção 'Gotham City' marca o início da influência do pop e do rock na produção deles. “Nossa parceria sinaliza momento em que se encerra uma fase do meu trabalho, com Gilberto Gil, Paulinho da Viola e Edu Lobo. Acreditava que a palavra poderia mudar o mundo e, nesse momento, houve uma perda de confiança nisso. Encerro essa fase com 'Movimento dos barcos'”, explica Capinan.

Recôncavo Macalé deixa o palco na segunda metade, abrindo caminho para Roberto Mendes, que chegou acompanhado por banda praticamente familiar, formada por dois filhos, um sobrinho e um quarto músico “que é como filho” para ele. Enquanto o primeiro convidado mergulhou num universo intimista, urbano e um tanto underground, o segundo trouxe composições mais solares e vibrantes, com grande influência africana.

Das parcerias com Capinan, Mendes cantou composições como 'Yáyá Massemba', 'Demanda' e 'Beira-mar'. O convidado disse que está voltando a ser católico, pois está “apaixonado pelo papa”, e resolveu homenagear outro de seus mais frequentes parceiros musicais, o conterrâneo Jorge Portugal, com 'Canarinho da Alemanha', domínio público que gravou em disco e representa parte de sua importante pesquisa sobre a música do Recôncavo Baiano – e na qual a cantora Maria Bethânia está sempre interessada.

Capinan deixa para juntar Macalé e Mendes ao final, e apenas numa música, 'Viramundo', escrita com Gilberto Gil e incluída no disco de estreia dele, 'Louvação' (1967). Uma versão um pouco desajeitada, com Capinan e Mendes dividindo o microfone (prejudicando a escuta da letra) e Macalé preferindo se recolher ao violão. Um final que não fez jus à relevância do que ali foi dito e cantado, e reforça a necessidade de se encontrar espaço mais adequado para as já programadas reedições do espetáculo em outras cidades.

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