Atuante no teatro, no cinema e na TV ao longo de seis décadas, Nelson Xavier foi a cara do Brasil

Ator cogitou deixar o país na época da ditadura, mas ficou e viveu personagens que vão de Lampião a Chico Xavier

por Márcia Maria Cruz 10/05/2017 20:03

Ao longo de quase seis décadas de carreira, o ator Nelson Xavier acumulou papéis marcantes no teatro, no cinema e na televisão. Na manhã de ontem, ele morreu em Uberlândia, aos 75 anos. Há 14 ele se tratava de um câncer, e a morte foi causada por uma insuficiência respiratória, de acordo com nota divulgada pela Rede Globo, emissora em que trabalhou por 49 anos. O corpo de Nelson Xavier será cremado hoje, em cerimônia no Rio de Janeiro. Atualmente, ele está no ar como Sebastião, na reprise da novela Senhora do Destino (2004).

GLOBO/DIVULGAÇÃO
Nelson interpretou o médium Chico Xavier, um dos papeis mais marcantes de sua carreira (foto: GLOBO/DIVULGAÇÃO)

Nelson Xavier estava de mudança para Uberlândia, de acordo com informações do jornal Folha de S.Paulo, porque vinha se submetendo a um tratamento numa clínica de medicina integrativa na cidade mineira havia aproximadamente quatro meses. De acordo com declarações da médica responsável pelo tratamento ao jornal paulista, o ator vinha escrevendo suas memórias, que devem ser editadas por sua viúva, a atriz Via Negromonte.

Na TV, um de seus momentos mais memoráveis foi a interpretação de Lampião na minissérie Lampião e Maria Bonita (1982), quando contracenou com Tânia Alves. A carreira de Nelson Xavier começou no Grupo de Teatro Arena, em São Paulo, na década de 1960. Dirigida por Augusto Boal, a trupe propunha teatro político, engajado e democrático, conforme lembra o amigo com quem contracenou no teatro e no cinema Milton Gonçalves.

 

“Emociono-me ao recordar que Nelson veio enriquecer o grupo com sua sabedoria, inteligência e pelo carinho e amor que tinha pela profissão”, disse. Sobre o período no Teatro de Arena, Nelson afirmou que foi um dos momentos mais decisivos de sua vida, quando pensou em se mudar do país devido ao golpe de 1964, por sentir que não tinha “estrutura cultural e psicológica” para lidar com a perseguição política, ainda segundo informa a nota da TV Globo.

 

 

 

Socialista

 “Ele foi um homem culto, bacana, fiel e firme naquilo que achava correto. Fomos e seguimos socialistas, cada um com sua necessidade”, disse Milton Gonçalves por telefone ao Estado de Minas ontem. Com ele, Nelson Xavier estrelou o longa-metragem Rainha Diaba, de Antônio Carlos da Fontoura. “Nelson foi um ator extraordinário. Já o admirava no Teatro de Arena. Fantástico ator de teatro, também colocou o nome na história da TV e do cinema. Sou muito feliz de ter podido contar com ele no Rainha Diaba junto com o Milton Gonçalves. Os dois interpretavam papéis antagônicos que deram um resultado fantástico”, disse Fontoura à reportagem.

O diretor se recorda de homenagem que o ator recebeu em sessão comentada do longa, em 2014, na Sala Humberto Mauro, dentro do projeto Curta Circuito. Na época, em entrevista ao EM, destacou o fato de ter dado vida ao personagem central na trama, que era homossexual e pertencente ao mundo marginal. Nelson interpretou Catitu, homem de confiança do traficante gay Rainha Diaba, vivido por Milton.

A estreia no cinema foi em Fronteiras do inferno (1959), de Walter Hugo Khouri, uma aventura ambientada num garimpo entre o Brasil e a Bolívia. A partir de então, atuou em mais de 50 filmes. Entre seus diversos papéis, interpretou o médium mais famoso do Brasil em Chico Xavier (2010), longa dirigido por Daniel Filho. Em 2014, ganhou o Kikito de melhor ator no Festival de Gramado pela atuação no longa A despedida, de Marcelo Galvão. No filme, Nelson é Almirante, homem de 92 anos que passa por um processo de despedida diante da iminência da morte. A atuação como o protagonista Mário em A queda (1978), de Ruy Guerra, também foi reconhecida no Festival de Brasília.

Em 2000, Nelson participou do documentário A negação do Brasil, de Joel Zito Araújo. “A primeira coisa que, do meu ponto de vista, cabe a mim ressaltar, é que Nelson foi o ator que mais encarnou o negro mestiço brasileiro. Um ator excelente; está no panteão com Milton Gonçalves. A atuação dele como operário em A queda me marcou muito”, recorda. Joel destaca que Nelson deu vida a personagens emblemáticos. “Foi o malandro carioca e do morro, foi o pequeno comerciante ressentido e sem lugar (por não ser negro ou branco), foi o delegado bundão, foi o empresário, foi o operário com consciência de classe e foi o herói popular rebelde encarnando Lampião. E, acima de tudo, fez isso com uma aguda consciência racial, como pode ser constatado em sua entrevista para o meu filme A negação do Brasil.”

Amigo do ator, Joel Zito Araújo lembra o quão marcante foi para Nelson Xavier viver Chico, “um papel de muita intensidade, que lhe permitiu a descoberta da espiritualidade”.

O último longa-metragem em que atuou tem estreia prevista para o próximo dia 25. Em Comeback, de Erico Rassi, ele dá vida ao protagonista. “Nelson dignificava a profissão de ator. Avesso a qualquer tipo de oba-oba, extremamente comprometido com o trabalho, e sempre contribuindo artisticamente com sua visão de mundo e mais especificamente do Brasil na hora de compor seus personagens. No caso do Comeback, sua contribuição foi tão grande e tão precisa que o enxergo como mais do que um ator, um coautor do filme. Espero que de algum modo o lançamento do filme, tão próximo de sua morte, ajude a perpetuar e iluminar todo o restante de sua obra”, afirma Erico.

Nelson Xavier deixa a mulher, a atriz Via Negromonte, e quatro filhos.


PRINCIPAIS TRABALHOS

TELEVISÃO
A história de Ana Raio e Zé Trovão (1990)
Lampião e Maria Bonita (1982)



Renascer (1993)
Senhora do destino (2004)
Joia rara (2013)

CINEMA
Rainha Diaba (1975), de Antonio Carlos da Fontoura



A queda (1977)
A negação do Brasil (2000), de Joel Zito Araújo
Os narradores de Javé (2003), de Eliane Caffé
Comeback (2016), de Erico Rossi
A despedida (2014), de Marcelo Galvão. Prêmio de melhor ator no Festival de Gramado 2014.
Chico Xavier – O filme (2010), de Daniel Filho

TEATRO
Eles não usam black-tie (1958), de Gianfrancesco Guarnieri
Chapetuba Futebol Clube (1959), de Oduvaldo Vianna Filho
Gente como a gente (1959), de Roberto Freire
Julgamento em Novo Sol (1962), de Augusto Boal

DIREÇÃO
Vam pra Disneylândia (1986). Curta-metragem
A queda (1977). Codirigido com Ruy Guerra

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