'The walking dead' ganha dois capítulos de reflexão

Série mais vista da atualidade chega a momento em que a vida e a paz pedem passagem à selvageria

por Tiago Barbosa 09/11/2015 10:16

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 AMC/divulgação
Eastman e Morgan: filosofia do respeito (foto: AMC/divulgação)
A série mais vista no mundo é digna da audiência conquistada. Afora o enfileiramento de mortes chocantes provocadas por zumbis sanguinários, caracterização impactante e o clima permanente de suspense - três elementos fortes o suficiente para prender a atenção de quem gosta de um instigante thriller -, a construção dos capítulos de The Walking Dead é de uma riqueza dramática afrodisíaca por saber estimular a reflexão em torno da história com doses sob medida de barbárie e delicadeza.

A sucessão de acontecimentos da sexta temporada elucida como a alternância entre momentos de violência ferrenha e de paz ocasional preenchem as facetas possíveis do ser humano pressionado a sobreviver diante de hordas de mortos-vivos carnívoros. Os primeiros episódios do atual arco narrativo da trama foram frenéticos: um plano ousado para manobrar um exército de zumbis até bem longe do abrigo, seguido de um ataque surpresa à base por um bando de saqueadores e a suspeita sobre a morte de um dos personagens centrais da série - por si só uma prova de coragem dos roteiristas.

No capítulo seguinte, a ruptura: em vez de saciar a ansiedade dos espectadores em torno do desfecho fatal de um dos protagonistas, os roteiristas deslocaram o tempo para o passado e forjaram um tributo ao sentido da vida através da narração sobre como - mesmo castigado pelo trauma de perdas trágicas na família e assodado pela necessidade de matar para sobreviver - um indivíduo pode ser conduzido da selvageria à civilização, do instinto animalesco à civilidade, da cultura de morte à preservação da vida. O personagem utilizado para expressar o pêndulo humano foi Morgan, cuja mulher transformada em zumbi assassinou o filho de ambos porque o pai refugou na hora de impedi-la. Desorientado pelas duas mortes, ele é absorvido pela paranoia de “limpar” (erradicar) todos sem distinção.

O genocídio particular estanca quando ele topa com um psiquiatra eremita e morador de uma cabana dividida com uma cabra. Dominado e trancafiado em uma cela, Morgan e o carcereiro Eastman protagonizam o diálogo da humanização através do qual o ímpeto de resolver os problemas pessoais pelo uso da violência é dissipado gradualmente pelo dogma do respeito e valorização da vida até dos inimigos.

Em vez da apregoada Arte da Guerra, cartilha para enfrentar os desafios da era moderna, quase uma bíblia dos executivos atuais, o prisioneiro recebe ensinamentos da arte oriental Aikidô - através da qual é preciso sabedoria para usar de forma pacífica o movimento do mundo em benefício próprio. A metáfora social é eloquente: até em momentos de caos e aparentemente sem saída, é possível alimentar e valorizar a existência. A profundidade da lição é explicitada pela sutileza dos detalhes em cena: o psiquiatra e carcereiro usa a conversa para libertar o preso detido em pensamentos sombrios e em uma cela sem trancas - e a ignorância do trancafiado sobre o fato de a porta estar sempre aberta mostra como o ódio, a raiva e a intolerância têm o poder de cegar os seres humanos.

O aprendizado, o cultivo do luto e o respeito pelo rito da despedida atravessam o capítulo de forma lenta, quase uma contraposição à luta urgente de todos para se manter vivos diante de zumbis e outros agrupamentos humanos. É um recado do tempo de cada um para se mover dentro dos próprios sentimentos, objetivos e formas de lidar com os problemas - um parêntese dentro da série para ressignificar barbárie e civilização.

A reflexão prossegue no capítulo posterior, quando os sobreviventes do ataque a Alexandria começam a refazer a rotina a partir dos escombros deixados por corpos e sangue e pelo vazio legado pelos mortos - ou por aqueles infectados e retornados como neo-zumbis. A discussão em torno do valor da vida é retomada em cada dúvida sobre o instante seguinte. Fragilizados pelas mortes, os moradores questionam a serventia de armazenar comida - "melhor usar agora, pois não existe um amanhã" - e de manter a engenharia da convivência com base nas regras comuns - a líder da comunidade ressalta a Rick Grimes, o protagonista xerife pragmático, o quanto as pessoas precisam dele (ou do estilo dele de ser, prático e brutal). É um rito de passagem da diplomacia para a pragmatismo.

Mas o apreço pela vida permanece através dos símbolos - escrever o nome dos falecidos em um muro e apagar quando julgá-los vivos - e da continuidade natural e irrefreável da humanidade, com a gravidez de Maggie, abalada pela incerteza da sobrevivência do namorado, Glenn. Os bebês, na série, viram sinônimos de esperança, de um futuro insistentemente difícil de dominar - em outro momento, quando o carcereiro e psiquiatra Eastman quer transmitir o sentimento ao aprendiz Morgan, ele sentencia: "Você ainda vai segurar um bebê no colo outra vez".    

E, assim, The Walking Dead dá passagem à vida em meio à selvageria usual no enfrentamento dos dilemas do dia a dia em um mundo devastado pela hecatombe de mortos-vivos. Trunfos do roteiro da série mais vista da atualidade.

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