Xico Sá: A sociedade está mais careta e o Brasil passa por 'miamização'

O escritor e jornalista também conversou, em entrevista, sobre a cara da juventude contemporânea

por José Carlos Vieira 18/05/2015 10:06

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Arte CB
(foto: Arte CB)
Como um balaio de compras da feira de Campina Grande, uma conversa com Xico Sá tem de tudo um pouco. Gente boa e cheio de humor, durante uma hora de bate-papo e muitas risadas (só faltaram umas cervejas), Xico não perdeu o ritmo. Lamentou o encaretamento da sociedade, adiantou o tema do romance que está escrevendo — a história de um goleiro —, comentou o filme dirigido por Cláudio Assis sobre seu livro Big Jato, “minhas memórias delirantes”, e lamentou a “miamização” do litoral brasileiro. O cara não fala fuleiragem. Confira.

Ariano Suassuna e Eduardo Galeano foram homenageados há um ano na Bienal do Livro de Brasília, em que você também participou. Os dois representavam uma casta de intelectuais que servia como referência para debates e discussões políticas. Hoje em dia, pensadores contemporâneos como eles estão em falta. Você acha que o mundo ficou careta, reacionário? Estamos perdendo a utopia?
Estamos perdendo sim. Mas não sou muito apocalíptico, acredito que são fases, ciclos mesmo. As ausências de nomes como Ariano e Galeano e tantos outros pensadores pesam. São caras que não têm um pensamento óbvio em relação a qualquer questão, da cultura ao futebol. Eles faziam um corte muito interessante no conservadorismo. Vivemos hoje um caretismo, uma correção extremada. E o traço comum desses dois pensadores é a questão do humanismo.

Estamos num país careta?
Hoje, o pensamento das pessoas é de uma crueldade tremenda. O que se vê nas redes sociais, por exemplo, é a falta de humanismo, de compaixão. Os valores todos estão indo para o buraco. Eles querem mais é pena de morte, redução da maioridade penal… O que tiver na pauta de crueldade tem um eco muito grande hoje na sociedade.

E você acha que isso vai se reverter?
Não de imediato, mas a história é muito de ciclos. Isso passa. Daqui a pouco, a sociedade desencareta geral. Eu quero acreditar nisso. Não é o fim dos tempos. Mas o preocupante hoje é a pauta dos costumes. Hoje em dia, qualquer coisa que possa melhorar o país, que possa humanizar as relações, sofre um combate muito grande. Veja por exemplo estas bancadas da bala, da Bíblia… no Congresso. A pauta careta vem vencendo tudo. Por isso, é importante resistir nessa questão da liberdade dos costumes.

O que você acha dessa miamização do Brasil? O país não deveria investir mais em educação do que favorecer o parcelamento de viagem para o exterior ou na compra de um carro parcelado, o consumismo?
A esquerda deixou uma herança social, como o Bolsa Família etc., importantíssima. Mas em matéria de costumes, de uma pauta maior, é tão conservadora quanto a direita. O Brasil evoluiu em consumo, mas não em questões fundamentais, como educação e cultura. E essa coisa de Miami, dessa estética Miami, é lamentável, basta pegar o litoral do Brasil inteiro, tudo miamizado.

Por que a política brasileira não se renova? É a sociedade que decide assim na hora do voto?
Ela até ensaia uma certa renovação, mas volta para o mesmo lugar. Quando você acha que o cara vai mudar alguma coisa, ele sempre vem com estse caô de governabilidade, se juntando ao mesmo conservadorismo para manter a mesma história.

Com esse terremoto todo no jornalismo mundial, qual será o perfil do jornalista do futuro?
Hoje, a profissão é completamente diferente do meu começo. E vai mudar mais. Infelizmente, há um esvaziamento da importância da nossa profissão. Mas haverá uma arrumação no setor. Acho que o jornal impresso vai continuar, serão mais específicos, mais qualificados, mas não acabam. Continuaremos gutemberguianos (risos).

O que é ser macho hoje em dia?
Essa foi a pergunta mais difícil que você fez! (risos)… Houve uma confusão na cabeça de muita gente… O papel do macho, o papel da fêmea antigamente era muito óbvio e fixo. A gente ainda tem em nossa cabeça uma lista de “coisa de homem”, “coisa de mulher”… Isso foi desmantelado, para o bem e para o mal, e nós sofremos, como macho jurubeba, um personagem meu, o macho roots, de raiz… Um cara que continua, inclusive, com todos os defeitos de fábrica etc. Toda esta macharia mais antiga, com o avanço irrefreável e legítimo das mulheres, começou a perceber que seu papel está mudando. Tem muito macho aí totalmente avoado porque perdeu o simbolismo, o papel de provedor. Com o avanço da mulher, os papéis não são mais fixos como antigamente. A minha geração está muito perdida nesse cenário. Mas vem uma geração nova por aí.

Disseram-me que, num jogo da Seleção Brasileira no Recife, você levantou uma faixa em que defendia seu nome para Academia Brasileira de Letras, é verdade?
É quase isso aí. Foi um pessoal da torcida do Santa Cruz, a Santamante, grande torcida dos anos 1980, quando estava iniciando no jornalismo esportivo, que levou a faixa. Na época, lancei um livro e tirava onda me candidatando à Academia e ao Prêmio Nobel (risos), tudo junto. Uns amigos aproveitaram e levaram a faixa (risos).

Há outra lenda urbana no Recife sobre o Mamadu Bobó, explique…
Era meu pseudônimo de uma coluna sobre futebol que escrevia no Recife. Um pouco de humor, de informação, mas ligada ao submundo do futebol, do jogador que ia para as baladas… Era uma tiração de onda. Foi um baita exercício, foi a partir de Mamadu Bobó (nome de um jogador africano) que investi no humor, na crônica.

O que é humor pra você?
Gosto muito do humor como um susto, uma surpresa… É você contando alguma coisa dentro de uma lógica e, de repente, você parte para uma fuleiragem, dá um corte nessa realidade. É um tipo de humor de que mais gosto, muito nordestino.

Numa conversa com amigos de bar, concluiu-se que o mundo está mais chato desde o advento da internet. Os relacionamentos, em todos os sentidos, são frágeis e fúteis. Você concorda?
Antigamente, você metia a cara para conquistar uma garota (risos). A dramaturgia era olho no olho, você se arriscava mais, se jogava mais animado pela cachaça — para quebrar a timidez. Era um jogo mais sincero e pra valer. Acho que hoje as pessoas estão mais acovardadas. Os meninos ficam se protegendo demais, têm um pouco de medo de enfrentar uma mulher, já querem ir na certa. Faltam rituais de passagem… Correr riscos. Tá muito chato.

Nossa juventude moderninha anda muito uniformizada, a mesma tatuagem, a mesma roupa… Todo mundo faz a mesma coisa do Oiapoque ao Chuí.
Isso não é arriscado? Manadas com celular na mão...
É f., e olha que estamos falando dos malucos, que são mais difíceis de cair nessa sedução fútil. Mas se você transporta isso para a juventude como um todo, eles são muito parecidos até com os europeus. Torço para que nada disso seja para sempre (risos). Xô, padronização.

Homem feio eu sei que existe, mas existe mulher feia?
Não achei ainda! (risos)… Quando ela fica um pouco feia, já fica bonita de novo. Até as muito lindas têm momentos em que ficam feias… Mas é difícil aparecer uma mulher feia pra mim (risos).

Homem dominante ou homem dominado?
Conheço o falso dominado, o cara que fica fingindo-se dominado, mas é um tremendo cafajeste (risos). É aquele dominado da música brega, folclórico. Um grande canalha romântico (risos). Ele é carinhos com a esposa, dá tudo para a esposa, mas o estrago que esse cara faz na praça é grande (risos). Ah, fulano anda na coleira… Mas vai ver…

A ressaca é fundamental para um pensador moderno?
É uma pausa essencial na vida de um ser humano. É a hora da reflexão, hora mais existencialista. É o momento em que todo homem é bom por completo, acredita em Deus, no amor, na família… Um poço de bondade. Mas depois da primeira cerveja, tudo muda (risos).

O que você tem lido e ouvido ultimamente?
Uma bagaceira de coisas, mas agora mesmo estou relendo os contos de Sérgio Sant’Anna. Comecei a ler porque estou escrevendo um romance cujo personagem principal é um goleiro e o Sérgio tem um conto genial, No último minuto, sobre um goleiro. Tem também o livro Agonia de um padre casado, de Dom Gurgel, é o James Joyce brasileiro! Um maluco beleza que escreve de uma maneira magnífica!

E música?
Estou resgatando meus vinis. Gosto da ideia de um disco contar uma história. Isso de se comprar uma música, não sei não… Tem muita gente que acha isso bacana. Estou comprando discos em sebos do Rio, há muitos por aqui. Nelson Gonçalves, que minha mãe e meu pai ouviam, já tenho vários. De Orlando Silva, do sambista Roberto Silva… Tenho comprado também muitos discos de boleros latinos. Quero resgatar músicas que ouvia em casa no no domingo, quando o meu velho começava os trabalhos, bebendo a primeira cachaça por volta das 11h. Estou recuperando toda essa história.

Cláudio Assis está fazendo um filme sobre o seu livro Big Jato, é uma cinebiografia?
O livro é biográfico no sentido em que peguei uma fase da minha vida, minha memória da região do Cariri, em meados dos anos 1970. É uma biografia de uma região, de um modo de pensar. Uma época em que todo mundo da cidade estava migrando para as capitais, para o sul. Tem um personagem do meu livro que ele diz assim: “Tá todo mundo indo embora, só vai ficar eu” (risos). É uma biografia delirante. Ariano dizia que um escritor passa a vida inteira se vingando contra infância, ou seja, ele passa a vida inteira com a infância. Fica no calcanhar até a gente morrer. O livro é um acerto de contas com esse universo. O livro já é delirante, e cai nas mãos de Cláudio Assis, vira uma esculhambação maior ainda (risos). Ele teve completa liberdade para inventar a forma que ele leu o livro.

Quando o Brasil deixará de ser o Brasil dos 7 a 1?
Eu não consigo esquecer esse negócio. Na semana do baque, eu até tentava consolar dizendo que a dor não seria igual à de 1950 (quando o Brasil perdeu para o Uruguai em pleno Maracanã), porque hoje o mundo é cheio de novas informações, segmentado demais, ninguém vai guardar isso por muito tempo. Cara, mas vai passando o tempo e a gente não esquece.

O futebol brasileiro está perdendo a libido?
Está perdendo a capacidade da brincadeira, do improviso. E para piorar não veio a organização alemã, não veio nada. É um momento complicado.

Eu tenho a sensação de que a Seleção do Dunga a qualquer momento vai levar de 7 a 1…
Também não tenho confiança. Tomara que não esteja enganado. Porque a mentalidade não mudou. É a mesma CBF…

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