Companheira de Cássia Eller fala sobre maternidade e vida ao lado de Chicão

Em entrevista ao Correio Braziliense, Maria Eugênia Martins afirma que o filho sempre foi prioridade e conta sobre gravações inéditas

por Diego Ponce de Leon 11/05/2015 09:28

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Daniella Goulart/Divulgação
(foto: Daniella Goulart/Divulgação)
Eugênia nunca gostou de exposição. Caseira, sempre preferiu evitar a imprensa. Achava que não tinha nada a dizer. Felizmente, estava errada, como demonstra nesta entrevista exclusiva ao Correio.  

Enquanto a companheira Cássia Eller rodava o país em apresentações, ela ficava em casa, cuidando do filho, Francisco, hoje com 21 anos. Chicão, como passou a ser chamado carinhosamente, sempre foi prioridade.

Essa harmonia foi ameaçada uma única vez. Depois da morte da cantora por infarto, em 2001, o avô da criança pediu pela guarda, já que Eugênia não é a mãe biológica. “Tive muito medo de perdê-lo”, ela conta. Não aconteceu. O avô desistiu do litígio.

 Embora o filho seja fruto de uma relação eventual de Cássia com o músico Tavinho Fialho (morto em 1993), Eugênia celebrou a chegada de Chicão desde o início. “Isso nunca atingiu nossa intimidade. Fiquei muito feliz quando soube. Foi só amor”, recorda a mineira de Ponta Nova, que desembarcou na capital federal aos 15 anos, ao lado da tia que a criou.

Alguns anos depois, conheceria Cássia, na efervescente Brasília dos anos 1980, e o mundo ficaria completo, principalmente após a chegada do filho. Estudante de geografia, Chico resolveu encarar a carreira de músico e anda flertando com o meio, para desespero da mãe: “Queria que ele fosse professor. Mas ele quer ser músico, então tudo bem. Talento tem. Teve a quem puxar”.

A Cássia nunca gostou de entrevistas. Você também sempre preferiu se manter mais discreta…
Olha só, a Cássia era uma figura pública. Eu não. Eu sempre achei que não tinha o que falar e quase não me pronunciei enquanto ela esteve viva. A artista era ela. Tenho uma certa dificuldade com a exposição, sou tímida. Hoje, alguns temas me interessam, como a questão da homossexualidade. E aí, talvez, eu tenha algo a acrescentar.

Você acabou se tornando referência no tema, principalmente após a disputa pela guarda do Chicão, que ficou contigo…
Foi um caso significativo, sem dúvida, mas há um equívoco que prefiro esclarecer: não houve uma decisão judicial a meu favor, que tenha gerado jurisprudência. O que aconteceu foi um acordo. Duas pessoas entraram com o pedido. Uma delas (o avô da criança) desistiu durante a audiência de conciliação. Eu acabei com a guarda. Isso em termos jurídicos. A importância do caso se deu na esfera social. Naquele momento, o que ficou evidente para toda a sociedade, foi a questão da maternidade. Ficou muito claro que eu era mãe dele, a partir das fotos, vídeos, depoimentos de professores, psicólogos, amigos, que atestaram que eu estava na vida do Chicão desde o nascimento, como mãe. De alguma forma, o afeto e o amor vieram em primeiro lugar. Aquela criança foi amada e não pesou o fato de ter sido por duas mulheres. A opinião pública nos acolheu, inclusive.     

A adoção por homossexuais ainda esbarra em muita resistência…
Estamos atravessando um período estranho. Há uma onda conservadora que também saiu do armário. Eu tenho a sensação de que depois que a Cássia morreu, o país encaretou. Se nossa história acontecesse hoje, não sei se teríamos a mesma receptividade.

Divulgação
Maria Eugênia e o pequeno Chicão (foto: Divulgação)
E você compreende que tanto o Chicão quanto você podem auxiliar nesse processo da tolerância?

Sim, claro. Sem fazer esforço, o próprio Chicão desmascara um pouco esse discurso hipócrita, que acaba engolido por ignorância. Ele foi criado por um casal de homossexuais e é completamente hétero.

Completamente?
Ah, sim. Porque hoje já rolam umas gradações. (risos)

Conta uma coisa: você escuta Cássia?
Hoje em dia, sim. Mas passei um tempo longe da música. Eu redescobri algumas coisas com o Francisco. Ele me mostrou vários gêneros, novos e antigos. Inclusive o próprio som da Cássia, que acho gostoso ouvir atualmente.

Gravações inéditas dela devem sair em disco por agora…
Eu tinha algumas ressalvas quanto a esse material. Isso foi uma fita cassete que a Cássia gravou quando tinha 19 anos. Inclusive, uma gentileza de uma ex-namorada da Cássia, a Elisa, que cedeu a gravação ao Chicão. Foi ela quem gravou, em casa. Mas se trata de um material muito bruto. Então, tinha lá minhas dúvidas. Mas a verdade é que adorei escutar. O Francisco mencionou a questão emocional, a importância para os fãs… E me convenceu.

Os direitos autorais ainda rendem bem?
Até hoje, rendem algo para o Chico. Entra um troco. Tanto pelos direitos conexos, das entidades arrecadadoras, como pela (gravadora) Universal.

Você se recorda do primeiro encontro com Cássia?
Sou péssima para datas e coisas assim. (risos) Eu tenho algumas cenas na memória. Não vou conseguir te dizer as primeiras palavras que trocamos, mas lembro-me de vê-la passando pelo Beirute, por exemplo. Antes mesmo de conhecê-la! Já me chamou a atenção… Depois, o próprio Beirute virou nossa segunda casa. Também adorávamos comer aquela pizza da Dom Bosco.

No palco, Cássia era considerada rebelde, geniosa… Em casa, a história era outra?
O oposto. Um doce. Tudo estava bem o tempo todo. Nada era ruim. Bem-humorada, adorava fazer todo mundo rir. Incapaz de tratar alguém mal.

Você se incomodaria em falar sobre a questão das drogas? Sobre a maneira que você e Cássia tratavam o assunto?
Esse é um tema muito delicado. Era uma batalha na vida dela. Uma parte difícil para ela. Essa vida artística da estrada, da noite, está sempre chamando para esse lado… Embora ela tivesse a consciência de que não estava fazendo bem e de que era importante dar um tempo, era muito difícil. Eventualmente, tinha recaídas. E Cássia se sentia muito mal por isso. Doía… Eu nunca fui santa. Fizemos muita farra juntas. Mas depois que o Chico nasceu, eu cortei por completo. Drogas e uma criança pequena não se misturam. E a própria Cássia respeitava isso. Em casa, ela sempre evitou. Se voltou a acontecer, foi nas viagens. Muito difícil… Essa parte foi triste.
 
Cássia e Eugênia
(foto: Cássia e Eugênia)
Vocês tinham uma relação aberta?

Isso é uma escolha de cada casal. Ninguém passa por uma relação de 15, 20 anos, sem sentir tesão por outra pessoa. A maneira que se lida com isso é que muda. A gente resolveu lidar de uma forma sincera. Óbvio que é algo difícil. Teoricamente, soa bacana, mas, na prática, não é nada fácil. O ser humano é possessivo. É um exercício. Por outro lado, tem suas delícias. Claro, teve momentos de encrenca (risos), mas as coisas funcionaram.

Algum arrependimento em relação à Cássia?
Quando uma pessoa que você ama morre, sempre vem um sentimento de culpa. Uma sensação de que você nâo percebeu, não viu, que poderia ter feito alguma coisa. Senti muito isso. Depois, entendi que é um sentimento recorrente. Não temos muito como interferir.

Isso se desfaz um pouco quando escutamos a Cássia falando de você…
A gente teve uma coisa muito linda sim. Não tenho palavras para descrever o amor que ainda sinto por ela. Não que eu sentia, mas que ainda sinto! A maneira que ela transformou a minha vida para muito melhor. O privilégio que foi ter convivido com ela por tantos anos. E o privilégio que é ser mãe do Chicão.

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