'Babilônia': noveleiros desistem da trama, mas novo público a assiste como ''gesto político''

Alvo das críticas de conservadores, trama das 21h na Rede Globo sofre com baixa audiência; público se divide entre os que elogiam a obra de Gilberto Braga e os que preferem abrir mão do entretenimento

por Mariana Peixoto 29/03/2015 14:14

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Cristina Horta/EM/D.A Press
Admiradora de Gilberto Braga, a professora universitária Regina Helena Alves da Silva tenta acompanhar 'Babilônia' e afirma: ''a polêmica explicita a imensa hipocrisia que as pessoas têm'' (foto: Cristina Horta/EM/D.A Press)
Quem não assiste novela passou a assisti-la. E há noveleiras que não perdem um novo folhetim que estão desligando a TV na hora em que Mart’nália começa a cantar 'Pra que chorar' (Vinicius de Morais e Baden Powell). Diretor do badalado 'Hoje eu quero voltar sozinho' (2014), sobre um garoto cego que descobre a sexualidade ao apaixonar-se por um colega, Daniel Ribeiro afirma que “assistir à 'Babilônia' tornou-se um ato político”.

Longe de ser um telespectador assíduo de folhetins, o cineasta comenta que foi a partir do beijo lésbico que passou a se interessar pela trama. “O boicote é um mecanismo da sociedade em defender seus interesses. Mas não acredito em boicote como negação do direito dos outros. E no caso da novela, estão boicotando o amor. Isso revela o momento crítico que estamos vivendo”, afirma ele, acrescentando que religiões, quaisquer que sejam, “pregam o amor”.

Daniel Ribeiro ainda elogia 'Babilônia' enquanto produto de massa. “Ela tem planos-sequência interessantes, até ousados, para uma novela. Mas o que mais me chamou a atenção é a quantidade de atores incríveis. Toda cena é muito boa, já que os intérpretes seguram bem as cenas.”

Um lado

Professora de história e comunicação social na UFMG, Regina Helena Alves da Silva afirma que mais recentemente vem assistido aos folhetins antigos de Gilberto Braga. Graças a reprises do canal pago Viva, acompanhou, há pouco, 'Dancin’ days' (1978) e 'Água viva' (1980). E, na medida do possível, tem assistido à 'Babilônia'.

“Como estou com essa mania de ver novelas antigas, ando vendo como ‘encaretamos’ em termos de costumes. O Brasil está mais conservador, moralista, na pior acepção da palavra. O fato de estar na novela (o casal lésbico de terceira idade) é porque ele existe na sociedade. A polêmica explicita a imensa hipocrisia que as pessoas têm. Também explicita o fato de elas se acharem capazes de impor regras autoritárias.” Para além da polêmica, Regina Helena acredita que, a exemplo de novelas anteriores, Gilberto Braga consegue expor bem as mazelas brasileiras: “Ele mostra com maestria a disputa entre casa-grande e senzala”.
Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press
''Fiquei enojada de ver aquilo'', diz Joana Maria de Mesquita Santos sobre o beijo de Teresa (Fernanda Montenegro) e Estela (Nathália Thimberg); avó de quatro netos agora mantém TV desligada às 21h (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Outro lado

Sem entrar em discussões de redes sociais, telespectadoras que adoram uma novela e regulam em idade com as personagens de Fernanda Montenegro e Nathália Timberg se dizem insatisfeitas com a produção. “Quando soube que ótimas atrizes iam fazer papel de lésbicas, eu vi que não ia dar certo”, afirma Joana Maria de Mesquita Santos, avó de quatro netos. “Fiquei enojada de ver aquilo. Mas não só. A Glória Pires matar o motorista a sangue-frio (também no primeiro capítulo de 'Babilônia'), mostra muita violência. 'Império' terminou agora com o filho matando o pai. É muito mau exemplo. Novela tinha que ser coisa mais alegre e simples”, diz ela, que agora, na faixa das nove da noite, mantém a TV desligada.

A dona de casa Helenice Tavares França também não está satisfeita. “Para a gente, de mais idade, ver isso é chato. Já vi duas mocinhas na rua, de mãozinha dada e tudo, mas duas senhoras de mais de 80 anos me deixou chateada. Não achei um absurdo, mas não gostei. Acho que estão exagerando nas novelas.” Já Silene Zuquim só viu o primeiro capítulo. “As novelas atuais estão dando exemplo muito ruim para os jovens. Tudo é normal”, diz ela, que na hora da trama noturna prefere se dedicar a um livro. Novela, por ora, só 'Alto astral', às sete da noite.

Evellyn Pacheco/Gshow
Nos próximos capítulos de 'Babilônia', Teresa e Estela vão oficializar casamento (foto: Evellyn Pacheco/Gshow)

Com seis netos, Silnêz Viotti acha 'Babilônia' “meio pra frente”, mas só vai desligar a televisão se um dos netos estiver por perto. “São crimes, traições, cenas de sexo demais.” A despeito disso, Silnêz boicotou o boicote. Pelo menos em seu grupo no WhatsApp. “Até escrevi para as minhas amigas que queriam o boicote. Que bobagem! Deixar de assistir a uma novela não vai mudar a vida de ninguém”, conclui.

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