Morte de Cora em 'Império' põe fim à novela paralela da troca de vilãs

Mudança ousada no roteiro substituiu Drica Moraes por Marjorie Estiano em novembro; agora, megera ganha fim com toque de realismo fantástico

por Ana Clara Brant 22/02/2015 12:00

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Gshow/TV Globo/Divulgação
Marjorie assumiu personagem após saída de Drica e expandiu personalidade da vilã, caindo nas graças do público e comovendo o autor Aguinaldo Silva: ''quero para sempre em minhas novelas'' (foto: Gshow/TV Globo/Divulgação)
Falta menos de um mês para que 'Império', folhetim das 21h da TV Globo, chegue ao fim, porém, uma novela à parte terá seu desfecho previsto para esta segunda-feira, 23: a história de Cora. Deve ir ao ar a cena em que a personagem interpretada por Marjorie Estiano, depois por Drica Moraes e em seguida novamente por Marjorie Estiano, morre após ter se colocado na trajetória de um disparo em plena Marquês de Sapucaí, num trágico gesto para proteger seu grande amor, o Comendador (Alexandre Nero).

 

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Com o fim de Cora, termina também uma das tramas paralelas mais bizarras e surreais da teledramaturgia brasileira. A "novela" de Cora bem poderia se chamar 'Duas caras', trama assinada por Aguinaldo Silva e protagonizada por Marjorie Estiano em 2007.

 

A saga da vilã

Recapitulemos. Em novembro do ano passado, no auge de 'Império', Drica Moraes precisou se afastar das gravações. Labirintite foi a causa anunciada para seu afastamento. Drica chegou a retornar aos estúdios, mas, afônica, não conseguiu trabalhar. Repentinamente sem a intérprete da vilã, a poucos dias do momento da trama em que ela teria sua primeira noite com o Comendador, a Globo tomou a ousada decisão de escalar para o papel a intérprete da vilã na primeira fase da novela, sendo que a trama já havia dado um salto temporal de 30 anos. A troca de Drica, de 45 anos, por Marjorie, de 32, foi explicada com um sumiço misterioso no qual a megera ‘repaginou’ seu visual.

Quinho/EM/D.A Press
(foto: Quinho/EM/D.A Press)
No capítulo que marcou o retorno de Cora, as primeiras cenas mostravam apenas detalhes de Marjorie. Aguardando ansiosamente pelo personagem de Nero num quarto de hotel para sua sonhada noite de amor, a vilã usou um véu sobre o rosto para aumentar o mistério. Quando chegou ao local marcado, o próprio Zé Alfredo se assustou e pensou se tratar de uma brincadeira: “O que está acontecendo? Foi alguma viagem no tempo? Passei por aquela porta e voltei aos meus 22 anos? Que truque é esse?”, questionou o empresário. E Cora rebateu: “Rejuvenesci por você”.

A solução encontrada por Aguinaldo parecia típica de suas novelas de realismo fantástico como 'Tieta', 'Pedra sobre pedra' ou 'A indomada', retratadas em cidades fictícias, onde tudo era possível com direito a cadeirudo, mulheres que comiam uma flor para que um retratista morto ‘ressuscitasse’ ou até uma viúva que guardava o órgão sexual do falecido marido numa caixa.

No entanto, para uma história que se passa em pleno século 21 e no Rio de Janeiro, mesmo se tratando de ficção, não foi tão fácil para os telespectadores engolirem a mudança. Em seu blog oficial, o novelista comentou que ficou sem dormir por dois dias para solucionar a volta da vilã.

 

O jornalista e pesquisador Nilson Xavier, autor do 'Almanaque da telenovela brasileira', achou a solução do autor bastante criativa e condizente com o universo fantasioso de Aguinaldo. Xavier elogia o desempenho de Marjorie. “Gosto mais da Cora dela; é mais engraçada, mais louca. Acho que ela está excelente”, afirma.

Não deve ter sido nada fácil tomar uma decisão arriscada como aquela. Marjorie foi corajosa. Se mal recebida pelo público, a volta da atriz poderia grudar em sua carreira um selo negativo. No entanto, mesmo tendo a mesma idade na vida real de sua sobrinha, vivida por Leandra Leal – a principal queixa do público – Marjorie tornou crível a sua Cora.

Nas redes sociais, as brincadeiras pipocaram: ‘Quero o creme rejuvenescedor da Cora’ ou ‘Cora deve ter participado do filme 'Interespacial', já que, enquanto o mundo envelhece, os protagonistas do longa continuam jovens, à medida que viajam pelos planetas’. Inicialmente, o dramaturgo justificaria a troca por uma cirurgia plástica, mas desistiu dessa explicação, optando posteriormente por uma solução à la Aguinaldo Silva. A justificativa dada para o rejuvenescimento foi o uso de urina de jacaré.

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Apaixonada pelo Comendador (Alexandre Nero), Cora morre protegendo vida do protagonista (foto: Gshow/TV Globo/Divulgação)
O novelista não segurou a emoção quando Marjorie Estiano topou a empreitada. “Obrigado, Marjorie! Perdi a voz. Quero agradecê-la por aceitar o desafio de substituir a divina Drica, gravar a cena em menos de 24h... E arrasar! Sim, não dá para desmentir isso: Cora está viva!”, escreveu em seu Twitter.

Drica Moraes acabou não voltando mais à trama, apesar de ter declarado o contrário no Domingão do Faustão. Em mais um aval ao trabalho de Marjorie, Silva afirmou que em time que está dando certo não se mexe. “A troca, não por nossa vontade, mas por impossibilidade da atriz, já foi um risco altíssimo, um lance ousado que, graças a Deus, acabou dando certo. Mas eu concordo plenamente com o provérbio grego segundo o qual não se deve desafiar os deuses. A destroca é um desafio que não me sinto em condições de bancar. Portanto, Cora é Marjorie Estiano até o fim de 'Império' e o assunto está encerrado”, declarou na época.

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Marjorie conferiu dualidade à vilã e gostou da experiência: ''Cora ficou marcada na minha vida'' (foto: Gshow/TV Globo/Divulgação)
A decisão do autor foi interpretada por alguns como uma declaração de preferência por Marjorie. O especialista em TV Nilson Xavier não vê as coisas assim. “Não acho que o autor ‘desdenhou’ a Drica. Acho que trocá-la pela Marjorie Estiano já deu trabalho. Imagina trocar de novo. Só não concordei muito com o desfecho da Cora. Ela tem um pé na loucura. Acho que seria mais interessante se enlouquecesse de vez e terminasse seus dias numa instituição psiquiátrica”, opina.

A personagem foi crescendo, Marjorie mostrou cada vez mais o seu talento e conseguiu conquistar respeito da crítica, do público e dos colegas. Assim que terminou de escrever a cena da morte de Cora, com direito a um líquido verde (veneno) escorrendo de sua boca feito cobra, depois de lhe proporcionar a tão sonhada noite de amor com o Comendador, o novelista exaltou mais uma vez a atriz curitibana e deu um bilhete a ela: “Querida Marjorie Estiano: fico lhe devendo esta para o resto da minha vida. Não só porque você aceitou sem hesitar e sem pensar duas vezes uma missão impossível… Mas também porque mostrou, já na primeira cena que gravou nesta segunda fase de Cora, a grande atriz que é – enorme, generosa e totalmente entregue ao que faz. Quero você para sempre em minhas novelas. E lhe beijo as mãos. Obrigado mil vezes”.

E a intérprete de Cora retribuiu o agradecimento. “A novela foi muito marcante pra mim, desde o início. A gente se envolve muito com as questões da personagem e acho que a Cora ficou muito marcada na minha vida. Ele (Aguinaldo Silva) falou de estar agradecido, mas acho que na verdade é algo astral, que tinha que acontecer. Existe uma sincronia, uma combinação, sei lá de onde vem, que faz com que as coisas deem certo. Aguinaldo é um autor incrível, super-respeitado. Adoro o trabalho dele, fico muito feliz e me disponibilizo também para estar sempre trabalhando com ele”, devolveu.

 

Troca-troca na telinha

Não é de hoje que imprevistos acontecem em uma novela. Exemplos de atores que deixaram o elenco em razão de doença, desentendimentos e até morte são mais comuns do que se pensa, como lembra o jornalista e pesquisador Nilson Xavier, autor do 'Almanaque da telenovela brasileira'.

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Débora Falabella (direita) foi substituída pela irmã, Cynthia, em alguns capítulos de 'O clone' (foto: Youtube/Reprodução)
Em 'Brega e chique' (1987), o personagem de Jorge Dória dava um golpe envolvendo muito dinheiro e ressurgia com outra identidade, após uma plástica, no corpo de… Raul Cortez. Já durante a novela 'Passo dos ventos' (Globo, 1968), o ator Mário Lago foi preso por motivos políticos. Seu personagem era importante na trama, e não se podia aguardar pelo retorno dele. Para dar continuidade à novela, o próprio diretor, Régis Cardoso, substituiu Mário – aparecendo de costas!

A atriz Djenane Machado viveu Bebel no primeiro ano do seriado 'A grande família' (a primeira versão, dos anos 1970), mas não quis continuar no programa. Foi substituída por Maria Cristina Nunes. Durante o episódio, a única alusão à substituição foi a fala irônica de um personagem que achou Bebel “um pouco diferente“.

Em 'O clone' (2001-2002), Débora Falabella ficou doente e sua irmã, Cynthia, também atriz e parecida com ela, entrou em seu lugar por alguns capítulos. Um dos casos mais traumáticos aconteceu na novela 'O primeiro amor', da Globo, em 1972, por conta do falecimento do ator Sérgio Cardoso, que vivia o protagonista da trama. Faltavam apenas 28 capítulos para a novela terminar, e ele acabou sendo substituído por Leonardo Villar. A troca foi feita com todo o elenco reunido no estúdio. Sérgio Cardoso aparecia saindo por uma porta em sua última aparição na novela. Depois, com a cena congelada no vídeo, um texto lido por Paulo José explicava o que acontecera e relembrava a trajetória do ator. Por fim, batia-se à porta e, quando a cena recomeçava, entrava Leonardo Villar, sendo recebido pelo elenco.

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