TV Globo experimenta cansaço da fórmula de programas longevos

No ano de seu cinquentenário, emissora tem dificuldade de encontrar uma saída para recuperar sua audiência

por Simone de Castro 21/02/2015 08:00

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João Cotta/TV Globo
O apresentador Zeca Camargo, que migrou do 'Fantástico' para o 'Vídeo Show'. Troca não deu certo e ele acabou ofuscado por Otaviano Costa (foto: João Cotta/TV Globo )
O que 'Vídeo show', 'Zorra total' e 'Malhação' têm em comum, além de ser alguns dos programas mais longevos da TV Globo? O trio vive uma crise de identidade. E o sinal vermelho se acendeu, pois, nos últimos anos, foi constatada uma expressiva fuga da audiência. Das três atrações, o 'Vídeo show' é a que tem a pior performance. Mas o humorístico e a novelinha também já deram mostras de total desgaste.

Há quase dois anos, uma reestruturação no 'Vídeo show' causou estranheza ao telespectador, acostumado há mais de 30 anos com o formato da revista, que foca as atrações do canal e seu elenco. Lançado em 20 de março de 1983, com mudanças certeiras no percurso, na verdade, o ponto fraco atualmente tem a ver com o conteúdo. Os quadros já não têm o apelo de antigamente.

Outro senão é a troca de apresentadores. Em outubro de 2013, depois de 13 anos no posto, André Marques deixou a atração. No mês seguinte, com o novo formato, Zeca Camargo assumiu o comando e foi um desastre. Mesmo com direito a plateia e visitas das principais estrelas da casa, que ganharam até uma “calçada da fama”, o programa desceu ladeira.

A coisa ficou tão feia que a primeira providência foi tirar Zeca Camargo – anteriormente no Fantástico – da linha de frente. Especulou-se para ocupar a vaga os nomes de Fernanda Lima e até de Grazi Massafera, mas nenhuma foi confirmada na empreitada. Segundo informações de bastidores, ambas preferiram não aceitar a missão. Assim, o 'Vídeo show', que já teve Miguel Falabella e Cissa Guimarães como apresentadores, só para citar dois dos mais famosos e mais lembrados pelo público, estava sendo esnobado. Quem diria! Otaviano Costa passou a dividir a bancada com Zeca Camargo. Nada mudou. Ao contrário, um tanto frenético, Otaviano mais cansa do que diverte.

A reedição de quadros, como o 8 ou 800, game de perguntas e respostas que fez sucesso em 1976, não funcionou. Desde o final do ano passado, a atração passou a exibir 'A escolinha do professor Raimundo' como forma de atrair a audiência perdida. O que não deixa de ser curioso. Pior: constrangedor. É que a emissora limou Chico Anysio de sua programação. O humorista ficou na geladeira até sua morte, em 2012.

A família de Chico Anysio não viu com bons olhos a “estratégia” da emissora. A Escolinha saiu de cena em 2001, quando ainda fazia grande sucesso. Hoje, chega a ocupar de 10 a 20 minutos do programa.

Ficou claro que, sob a direção de núcleo de Ricardo Waddington, o “novo” 'Vídeo show' não emplacou. Embora nem mesmo a clássica vinheta e a batida da música de Michael Jackson 'Don’t stop till you get enough', que a embalava desde sempre, tenham escapado de uma repaginada, a tentativa de reinventar o Vídeo Show e reconquistar a audiência se mostrou frustrada. Procurada, a Globo não respondeu ao pedido de entrevista da reportagem.

Waddington perdeu a direção do programa. No mês passado, assumiu em seu lugar José Bonifácio de Oliveira, o Boninho, tido como “salvador da pátria”, fama que nem sempre faz jus à realidade. Exemplo disso é o surrado 'Big brother Brasil', do qual é diretor e cuja edição 2015 vem apresentando a pior audiência da história do reality show. À frente do 'Vídeo show', Boninho não descartou “voltar ao antigo formato” nem “manter o que está no ar” ou “trazer coisas novas ou surpreendentes”, segundo disse ao portal UOL. O que se sabe é que está previsto o retorno de Cissa Guimarães com o quadro 'Gente como a gente', em que artistas revelam como é sua rotina cotidiana. A volta de Miguel Falabella também está acertada, embora não se saiba exatamente em que papel. O ator declarou que estava “sem graça” de recusar o convite de Boninho e que participará ao menos da bancada de encerramento do programa.

Até agora, pelo que se viu, só se conseguiu reinventar a roda.

ALEX CARVALHO/TV GLOBO - ELLENSOARES/TV GLOBO
'Zorra Total' tem reformulação completa prevista para o mês de maio. Já 'Malhação', se distanciou da abordagem de temas polêmicos e perdeu impacto (foto: ALEX CARVALHO/TV GLOBO - ELLENSOARES/TV GLOBO)


'Zorra total' pode mudar até de nome


Outro programa em crise na grade da TV Globo é o 'Zorra total'. Em março, ele completa 16 anos no ar. Com tão longa estrada, não surpreende que desse mostras de desgate. Mas a emissora demorou a reconhecer que o modelão do humor fácil e muitas vezes apelativo, com linguagem chula e chacota com homossexuais, por exemplo, já não fazia a cabeça do telespectador.

A despeito de nomes como Fabiana Karla, Rodrigo Sant’anna, Katiuscia Canoro, Thalita Carauta, revelações dos últimos tempos, é inegável que nem eles nem veteranos como Paulo Silvino, Nelson Freitas ou Luís Salém conseguiram tirar a agonizante atração do CTI.

O 'Zorra total' já teve boas fases em termos de audiência. Em 2006, foi o programa humorístico da TV brasileira com o maior público, atrás apenas de 'A grande família', também da Globo. Os tempos eram outros. Vale lembrar que, do seu início até o começo desta década, tiveram passagens pela atração gente do quilate de Cláudia Jimenez, Andréa Beltrão, Denise Fraga, Pedro Cardoso, Cláudia Rodrigues e Chico Anysio.

Agora, o programa encara uma reformulação na tentativa de assumir outra identidade. Para começar, depois de 15 anos, Maurício Sherman, responsável pelo estilo mais popularesco, saiu de cena para a entrada de Maurício Farias, também diretor de 'Tapas & beijos' (Globo), e do humorista Marcius Melhem, supervisor de texto. A intenção é que o Zorra total, que pode inclusive mudar de nome, ressurja com outra cara e com humor mais fino. Parte do elenco foi dispensada. Em compensação, Dani Calabresa, ex-CQC e ex-MTV, está confirmada. Maio é o mês da estreia, quando o telespectador poderá conferir se o programa ainda tem fôlego.

'Malhação' tem fim sempre cogitado


A cada temporada, 'Malhação' tenta se reinventar. Não é tarefa fácil para um programa dedicado ao público adolescente. Ainda assim, comemora 20 anos no próximo mês de abril, numa trajetória ininterrupta, mas com muitos altos e baixos. Dos áureos tempos em que tratava de temas polêmicos e que levavam ao debate, como prevenção à Aids, racismo, gravidez precoce, pais separados, hoje não passa de um mero arremedo.

É verdade que a atual temporada, 'Malhação – sonhos', conseguiu mostrar um frescor em relação às antecessoras dos últimos anos. Longe de ser uma renovação, sacudiu a mesmice. Menos pelos assuntos e mais pelo carisma de uma dupla que nem protagonista é, mas roubou a cena: os jovens atores Rafael Vitti (Pedro) e Karina (Isabella Santoni). A empatia com o público também migrou para as redes sociais, em que se tornaram o casal #Perina com grande torcida.

Vira e mexe especula-se o fim da novelinha. No início do ano, a proposta de substituição apontava para um projeto da escritora Thalita Rebouças destinado ao público pré-adolescente. Não vingou. Mesmo sem números expressivos na audiência como antigamente, 'Malhação' segue rumo à próxima temporada.

O que não se pode negar é a vocação da atração para lançar caras novas, algumas com talento na bagagem. Cauã Reymond, Marjorie Estiano, Bianca Bin, Sophie Charlotte, Nathalia Dill, Priscila Fantin, Daniel de Oliveira, André Marques, Carolina Dieckmann, Juliana Paiva e Alice Wegman são alguns dos atores que estrearam em 'Malhação'. E se deram bem. O que falta é somar essa qualidade com novidade no conteúdo. Uma mistura que já não se vê há muito tempo.

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