'Better call Saul' estreia com estardalhaço nos EUA e movimenta o mercado de séries

Spin off aborda a vida pregressa do advogado de 'Breaking bad'

por Mariana Peixoto Carolina Braga 11/02/2015 08:30

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Ursula Coyote/AMC/Netflix/Divulgação
(foto: Ursula Coyote/AMC/Netflix/Divulgação)
Em um restaurante vagabundo, o responsável organiza a comida, os utensílios, os móveis. A cena é em preto e branco, com uma canção dos anos 1950 ao fundo. Acompanhamos a maneira metódica com que o empregado uniformizado trabalha.

Seu olhar cruza com o de outro homem, parrudo, careca, que o mira sem amizade alguma. O empregado entra em pânico quando ele se levanta e só volta a se acalmar quando o vê indo cumprimentar uma conhecida.

Já em casa, o empregado do restaurante verifica as janelas, fecha as persianas. Agora tranquilo, pois não há ninguém à vista, tira uma velha VHS e coloca no videocassete. Relaxado, e com um ar nostálgico, assiste ao que ele próprio foi num passado não muito remoto.

O telespectador não vê as imagens, mas ouve as propagandas do advogado Saul Goodman que se tornaram célebres no submundo de Albuquerque. Sim, ele está de volta, mas nada parecido com o que conhecemos.

Desde domingo passado, o mundo das séries não tem outro assunto. 'Better call Saul', spin-off de 'Breaking bad' (2008-2013), divisor de águas na produção teledramatúrgica recente, está no ar. O primeiro episódio foi exibido na noite de domingo no canal AMC, tornando-se a estreia de seriado mais vista na história da TV a cabo norte-americana, com 6,9 milhões de telespectadores.

A produção original da Netflix chegou ao Brasil na segunda-feira. Ontem, foi disponibilizado o episódio número 2. A partir da próxima semana, sempre às terças-feiras, vai entrar no ar um novo episódio, até totalizar os 10 da primeira temporada.

Derivada de 'Breaking bad', 'Better call Saul' é centrada no advogado Saul Goodman, que se tornou o defensor de Walter White (Bryan Cranston), a partir da segunda temporada da produção original. Era um alívio cômico para o protagonista.

O prelúdio em preto e branco com que é apresentado Saul no episódio “Uno” acontece no futuro, pouco tempo depois de ele ter se despedido de Walter. Já a narrativa de 'Better call Saul' é centrada na vida do advogado seis anos antes de ele se envolver com o traficante de metanfetamina. E aí a vida é outra. Já em cores, o episódio propriamente dito tem início. Saul é advogado, mas atende pelo seu nome de nascença, Jimmy McGill.

Fracassado, vive de defender quem não tem dinheiro para contratar um bom advogado. O primeiro caso que aparece em cena – que ele obviamente perde – é a defesa de três estudantes que pegaram um cadáver da aula de anatomia e fizeram o diabo com ele (inclusive aquilo).

Cheio de contas vencidas, com um quartinho/escritório nos fundos de um salão de beleza, Jimmy tenta de todas as maneiras conseguir novos clientes. Ainda luta para que seu irmão mais velho, Chuck (Michael McKean), volte à ativa.

Sócio de uma das maiores firmas de advocacia de Albuquerque, Chuck está atualmente recluso. Sofre de uma estranha doença psíquica, que o impede de levar uma vida normal. Jimmy, ainda dentro da lei, vai caminhar rapidamente para sair dela – é o que os dois primeiros episódios parecem dizer.

É nesse ambiente, em que vencidos se sobrepõem aos vencedores, que os personagens criados por Vince Gilligan (que dirige o piloto) transitam. Algo bastante natural para os fãs de 'Breaking bad', que vão encontrar em 'Better call Saul' muitos elementos comuns, além dos personagens. Cenas começam a ser contadas a partir de objetos; trilha sonora que dialoga com a história, quase numa metalinguagem; diálogos absurdos que fazem rir justamente pelo nonsense.

Para quem está chegando agora: não é necessário ter assistido às cinco temporadas da trama centrada em Walter White para entender (e gostar) de 'Better call Saul'.

A volta dos que já foram

AMC/NETFLIX/DIVULGAÇÃO
(foto: AMC/NETFLIX/DIVULGAÇÃO)
Mike Ehrmantraut
(Jonathan Banks) – Um dos mais queridos personagens de 'Breaking bad', braço-direito do supertraficante Gustavo ’ Gus’ Fring (Giancarlo Esposito) e avô exemplar, retorna de maneira absolutamente improvável. É o porteiro do estacionamento do tribunal onde Saul, como defensor público, recebe US$ 700 por caso. Os dois já se esbarram no início da série, quando cobra uns dólares a mais porque falta um carimbo no bilhete. A situação vai ocorrer outras vezes, exasperando o advogado. A participação será maior, pois Mike é personagem fixo da série, presente em todos os 10 episódios.

AMC/NETFLIX/DIVULGAÇÃO
(foto: AMC/NETFLIX/DIVULGAÇÃO)
Tuco Salamanca
(Raymond Cruz) – Morto na segunda temporada de Breaking bad depois do confronto com o agente da DEA Hank Schrader (Dean Norris), o estupidamente burro traficante sociopata está de volta. Aparece nos dois primeiros episódios, depois que um golpe superatrapalhado provocado por Saul coloca dois skatistas a ponto de perder a vida – eles haviam chamado a avó de Tuco de “quenga”. Sua participação é a brecha para que outro criminoso entre em cena, o mexicano Nacho Varga (Michael Mando), que tem a inteligência que falta a Tuco.



Netflix dá passo atrás

A Netflix entrou no mercado defendendo uma máxima que era seu diferencial. No serviço de streaming via internet, não teria essa de esperar uma semana para ver o próximo episódio. A temporada é oferecida de uma só vez, cada um vê como quiser. É esse um dos charmes do negócio e gerou até um termo novo para descrever o afã dos que preferem ver múltiplos episódios em sequência: binge-watching.

No entanto, 'Better call Saul' contraria a lógica que a Netflix tanto enalteceu com 'House of cards' e 'Orange is the new black', por exemplo. Diferentemente dessas últimas, 'Better call Saul' teve apenas os dois primeiros capítulos disponibilizados e, de agora em diante, cada novo episódio poderá ser visto on-line às terças-feiras, às 22h, no horário brasileiro.

Caiu por terra a máxima que subverte os princípios da grade televisiva e apregoa que o espectador decide quando, como e onde quer assistir às suas séries. A justificativa é que 'Better call Saul' é uma parceria com a rede norte-americana de TV AMC (também responsável pelo lançamento de 'Breaking bad', entre outras). Nesse caso, ganhou o modelo antigo de distribuição.

'Better call Saul' é exibido na AMC às segundas-feiras e no dia seguinte fica disponível aos usuários da Netflix. “A Netflix está tentando uma forma gradual de fazer a ruptura com a televisão. Em vez de ser um concorrente, está trabalhando junto”, afirma o diretor Guto Aeraphe, especialista na produção de webséries no Brasil.

Para ele, por mais que o serviço de streaming já tenha dado provas suficientes de sucesso, o lobby das emissoras de TV ainda é imenso. Sem contar que as grandes redes detêm o bolo publicitário. “A gente não pode ignorar isso e romper de maneira drástica”, completa.

O caso de 'Better call Saul' não será uma regra. A terceira temporada de 'House of cards' está anunciada na íntegra para dia 27.

Nova nesse mercado de conteúdo audiovisual via streaming, a Amazon adaptou um pouco a regra de disponibilizar temporadas inteiras. Com 'Transparent', série vencedora do Globo de Ouro de melhor comédia e ator (Jeffrey Tambor), foi assim: o piloto foi para a rede em fevereiro do ano passado e reexibido em 27 de agosto. Somente em 26 de setembro os outros 10 capítulos foram liberados.
 
COMPORTAMENTO Não é de hoje que os criadores da Netflix estão de olho no comportamento do consumidor. O hábito de baixar várias temporadas já é uma pirataria aparentemente incontrolável. O que a distribuidora de conteúdo fez foi institucionalizar um comportamento vigente e apostar que haveria público para consumir esse conteúdo de forma legal, ou seja, pagando por ele.

Como remou no sentido da maré, a Netflix vem se expandindo. A empresa começou a oferecer seu serviço na América Latina em 2011. Hoje, conta com mais de 5 milhões de assinantes. Até os cubanos estão na mira, já que a operação no país de Fidel Castro foi anunciada esta semana.

 “Temos grandes quebras de paradigmas”, comenta Guto Aeraphe. Exemplo disso no Brasil é que a todo-poderosa TV Globo, depois de muito relutar, abriu seu canal no YouTube em agosto do ano passado. Em seis meses, computa mais de quatro milhões de visualizações para vídeos de, no máximo, 30 segundos. A ideia é utilizar o espaço oficial para compartilhar chamadas de programas e conquistar novos assinantes para seu serviço de streaming pago.

Dado o aspecto incontrolável da coisa, atrações na íntegra também estão lá, disponibilizadas por usuários de maneira gratuita. Faz-se vista grossa? Talvez. O fato é que é possível ver de graça pela plataforma de vídeos mais popular da internet (com apenas alguns cortes de trilhas sonoras feitos para escapar da retirada automática do ar por quebra de direito autoral) todos os 10 episódios de Felizes para sempre?, a comentada produção dirigida por Fernando Meirelles.

E eis que o Popcorn Time, programa/aplicativo desenvolvido por geeks no mundo inteiro, ameaça o domínio da Netflix. Assim como o “concorrente” legal, há um catálogo com filmes e séries disponíveis para se assistir pelo computador e/ou smartphones e tablets, gratuitamente. É o anúncio das cenas do próximo capítulo: como lidar com a pirataria dos serviços de streaming?

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