Com seu 6º personagem na TV, Alexandre Nero alcança sucesso nacional como Comendador

Protagonista da trama que integra o horário nobre global, ator usa o sarcasmo contra o sensacionalismo. Ele faz das redes sociais uma aliada contra a fofoca

por Helvécio Carlos 07/02/2015 07:00

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Rede Globo/Divulgacao
''Não sei trabalhar com diretores que não ouvem o ator. Só sei trabalhar se puder contribuir com as ideias e pensamentos'' (foto: Rede Globo/Divulgacao)

Há pelo menos oito meses, Alexandre Nero não sabe o que é ter um dia tranquilo para sair com os amigos, bater um papo e tomar uma cerveja. A vida do ator, que completa 45 anos na próxima sexta-feira, mudou desde a estreia de Império, novela das 21h da TV Globo, escrita por Aguinaldo Silva.

“Está difícil fazer coisas normais. Me incomoda não poder ir ao supermercado ou não conseguir comer direito. Não tenho um minuto de respiro”, afirma, resignado com o fato de que isso faz parte do sucesso alcançado como José Alfredo de Medeiros, o Comendador, protagonista da trama global.

“Com a novela no ar, as pessoas têm um surto psicótico. É uma coisa quase beatlemaníaca. Às vezes, passa do normal”, conta ele, por telefone, depois de um dia de gravações em um presídio na cidade de Magé, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.  Nero é categoricamente contra colocar o artista em pedestal, distanciando-o do público, mas pondera que muitas vezes o comportamento dos fãs impõe o afastamento. 

“O público não deixa que isso aconteça. Se estou em uma festa e resolvo ir para a pista, as pessoas não vão me deixar dançar. Vão querer dançar comigo o tempo inteiro. Aí você acaba se recolhendo, porque as pessoas não deixam você ser normal”, afirma, sem tom de estrelismo.

O ator é direto e bom de papo, inclusive nas redes sociais. Quem o acompanha no mundo virtual sabe de sua verve. E não são poucos os que se divertem com as tiradas do paranaense nascido em Curitiba. No Instagram, ele tem 748 mil seguidores, no Facebook outros 158 mil.

Nero usa as redes sociais como ferramenta de autodefesa contra o sensacionalismo, algo a que tem aversão. “Como vivemos na era da internet, a todo momento buscam-se cliques e curtidas inventando histórias. A imprensa sensacionalista e o surto psicótico do público são os grandes obstáculos de quem trabalha na televisão”, diz. “Antes da internet, as informações eram oferecidas pelos jornalistas. Hoje, todos nós somos informantes: eu, você, minha vizinha. As redes sociais me defendem contra esse sensacionalismo sempre com bom humor, ironia e sarcasmo.”

Na TV, o Comendador, protagonista de Império, é o sexto personagem de Alexandre Nero. Ele diz ter respeito por todos os papéis e reconhece a importância de cada um em sua carreira. Mas quando o assunto é José Alfredo… “Tenho uma sensação, ainda prematura, de que ele entrou no hall dos grandes personagens da dramaturgia. Vou sentir muito orgulho se isso acontecer. Sempre tive sorte de fazer bons personagens.”

Outro de quem o ator se lembra com carinho é Gilmar Almeida, de Escrito nas estrelas (2010). “Foi meu primeiro antagonista. Era maravilhoso, mas ele é pouco lembrado por ter sido personagem de uma novela das seis”, comenta.

Em 25 anos de carreira, Nero reconhece ter tido a sorte de trabalhar com bons diretores e autores. “Com Papinha (Rogério Gomes, diretor-geral de Império) fecho uma tríade que começou em Escrito nas estrelas. Tenho uma grande afinidade com ele e, acima de tudo, muito respeito. Foi ele quem me deu longevidade na televisão. Ele é um líder, não é um chefe”, elogia.
 
PRONTO Antes de Império, Nero já havia trabalhado com Aguinaldo Silva em Fina estampa. “É um grande autor. Só depois de algum tempo descobri que Aguinaldo quis que eu fizesse o Comendador. Para ele, eu teria a vitalidade e a virilidade do personagem”, diz, apontando Aguinaldo como o grande responsável pelo sucesso do personagem. “O José Alfredo chegou bastante pronto. Era nordestino, vestia preto, tinha uma cabeleira e ‘tocs’, como arrumar a cama e misturar palavras de português com inglês.”

Nero, palpiteiro declarado, não perdeu tempo e deixou suas marcas no Comendador. Cita como interferências próprias o bigode, o andar e o olhar meio de peixe morto, de quem não mostra sentimento algum. “Não sei trabalhar com diretores que não ouvem o ator. Só sei trabalhar se puder contribuir com ideias e pensamentos. Isso é inevitável. Se for um fantoche, meu trabalho será medíocre.”

Para Nero, palpites devem ser oferecidos pelos atores. “O autor tem 100 personagens com quem se preocupar; o diretor, 100 atores. Ninguém entende melhor o personagem do que o ator”, teoriza.

TROCA Império não será lembrada apenas pelo grande sucesso do Comendador. A produção viveu situação inusitada com a substituição de Drica Moraes por Marjorie Estiano. O público ficou assustado, mas Nero garante que a sensação de espanto não foi apenas dos fãs. O elenco e os diretores também sentiram o peso da troca.

“Essa repulsa me fez pensar que a situação era tão absurda, tão surreal, que comecei a achar maravilhoso. Poucos teriam coragem de fazer o que ele fez. Imagine esta situação em um filme: sai uma atriz e entra outra, interpretando a mesma personagem. Se fosse David Lynch, seria genial. Mas como é o Aguinaldo, o pessoal fala que foi apenas uma solução. A Marjorie foi extremamente corajosa em encarar a substituição. Continuo com minha opinião: Drica é gênia, Marjorie também.”

FÉRIAS Apesar do sucesso e da boa repercussão do trabalho, Alexandre Nero não vê a hora de tirar umas boas férias. Desde A favorita (2008) ele emenda um trabalho em outro na TV, no cinema (Muita calma nessa hora 2 é de 2014; Crô, o filme, de 2013; Cilada.com, de 2011) e na música. Ano passado, ele passou por Belo Horizonte para lançar o DVD Revendo amor – com pouco uso, quase na caixa.

Pelo jeito, o descanso merecido e desejado ainda está longe. Um convite para participar da próxima novela de João Emanuel Carneiro mudou os planos do ator, que estava com vários projetos engatilhados, incluindo temporada de shows em Portugal e no Brasil para depois de Império.

“Infelizmente, sou workaholic. Minha cabeça não para. Sofro muito com isso. Fico pensando 24 horas, as ideias vêm, coloco-as no papel, no computador.” Para terminar a entrevista, a pergunta que não quer calar: Merival, personagem de Roberto Pirillo, é o grande vilão da história? “Não!”, diz, com certeza quase absoluta. “Acho que é o Silviano”, diz, referindo-se ao mordomo interpretado por Othon Bastos.

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