Criado há mais de 40 anos, 'Chaves' é sucesso mundial e conquista brasileiros por três décadas

Programa surgiu como esquete curta e ganhou status de audiência globalizada; aventuras do menino órfão falam diretamente com vários tipos de público

por Bossuet Alvim Agência Estado 28/11/2014 19:57

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Televisa/Divulgação
Em seu auge, 'Chaves' chegava a mais de 20 países simultaneamente; no Brasil, a série estreou em 1984, pelo SBT/Alterosa, cerca de três anos após ter chegado ao fim em seu formato original no México (foto: Televisa/Divulgação)
Retratando de forma bem-humorada o cotidiano de um menino órfão e suas relações com vizinhos caricatos, 'El Chavo del Ocho' ('O menino do oito', em livre tradução) estreou em 21 de junho de 1971 no México. Planejado para alcançar o público adulto, transformou-se rapidamente em sucesso entre as crianças. Produzido por dez anos como série, o programa chegou a reunir audiência de 350 milhões de pessoas em seu auge, com transmissões em mais de 20 países latinos durante sua produção. Incluindo-se reprises, a atração foi transmitida em todos os países ibero-americanos do mundo, apesar de ter saído do ar em Cuba após algumas exibições. A última exibição no formato individual foi em 1980; a última aparição dos personagens aconteceu em 1992, como um quadro curto no programa 'Chespirito'.

Foi sem querer querendo que Chaves se consagrou como fenômeno mundial e atemporal. De conteúdo inofensivo, o programa agarrou um sem número de gerações, nos mais variados cantos do planeta, por décadas a fio, com uma linguagem universal e sobretudo passiva. Não é preciso pensar em nada para se deixar hipnotizar por um conjunto de diálogos diretos, sem rodeios e escoltados em uma quase mímica que só endossa o recado dado na tela. Qualquer criança de qualquer faixa social e ambiente há de entender e rir de um roteiro em que o anti-herói, aparentemente vitimado pela falta de recursos, menino crescido que só um barril possui como residência, sempre acaba por se dar bem no final.

Isso, sim, mais que conseguir o afago dos vizinhos com um prato de sopa, consola a plateia, sempre ávida por um final feliz. E, se as crianças apreciam a repetição, como de fato apreciam, ali está um banquete para quem se apoia na segurança de saber o que vai acontecer na próxima cena. A previsibilidade, item condenável em roteiros bem elaborados, é um trunfo em Chaves. Assim, tanto faz se o SBT tinha apenas 30 ou 90 episódios para revezar no ar ao longo de todos esses anos. Todos eles seguem uma única lógica.

A condição de fenômeno é ainda mais exacerbada se considerarmos que muitas das crianças que se deixaram entreter pelo personagem não o abandonaram de sua memória afetiva com o passar dos anos. Formou-se daí uma legião de fãs entre marmanjos barbados, e os meninos, mais que as meninas, trataram de eternizar o ídolo para além de seus 20 e poucos anos.

Mas, se a linguagem direta explica sua universalidade e atemporalidade, como entender o potencial do produto para uma plateia infantil hoje habituada aos mais tecnológicos cortes de edição, às mais clipadas mixagens de cores e sons, do mundo dos games à própria TV? Afinal, Chaves é, com louvor, uma produção de estética tosca, com cenografia e figurino propositalmente fake, com áudio e textura de imagem estagnada nos anos 80. Das bochechas enxertadas do menino mimado Quico, aos suspensórios maltratados de Chaves, tudo é carregado de estereótipos.
Televisa/Divulgação
Os últimos episódios de 'Chaves' foram exibidos como quadros curtos do programa 'Chespirito', transmitido no Brasil sob o nomte 'Turma do Chaves'; a última vez na telinha foi em 12 de junho de 1992 (foto: Televisa/Divulgação)

É o enredo que vem pronto, mastigado e sem necessidade de legenda que explique a piada, para fazer menores e maiores rirem - uns pela graça da situação, outros, pelo ridículo ali encenado. Por um motivo ou por outro, loas a Roberto Bolaños: seu anti-herói é referência inconteste para a TV mundial e já inspirou muitas tentativas frustradas de imitações. Clonar a simplicidade, no entanto, parece obra mais complexa do que copiar enredos repletos de atalhos e pretensões. Chaves, ao contrário, salva sua alma e eleva os ânimos da plateia justamente pela despretensão, o que salta aos olhos nos quesitos de cenografia, já citada aqui, e da linguagem direta, o princípio de tudo.

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