Especialistas alertam para o exagero das populares 'selfies'

Com o advento desse tipo de fotografia, qualquer anônimo pode se tornar celebridade por alguns instantes

por Gabriel de Sá Luiz Prisco 10/03/2014 09:07

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Reprodução da internet
(foto: Reprodução da internet)
“No futuro, todo mundo terá seus 15 minutos de fama”, decretou o artista plástico norte-americano Andy Warhol no fim dos anos 1960. A profecia nunca fez tanto sentido quanto nos dias de hoje. Com o advento em massa da população às redes sociais na última década, ver e ser visto virou coisa corriqueira, ao alcance de um clique. Viramos todos celebridades?

Uma nova modalidade do exibicionismo virtual, a selfie (auto-retrato feito por celular ou webcam com o objetivo de ser postado na internet) foi considerada a “palavra do ano”, em 2013, pelo dicionário britânico Oxford. Políticos, artistas, esportistas e anônimos: todos aderiram à tendência. No último dia 2 de março, a história ganhou um novo capítulo. Ellen DeGeneres apresentava o Oscar quando reuniu alguns dos atores do primeiro escalão de Hollywood para uma foto coletiva. Resultado: 3 milhões de usuários compartilharam a imagem. Um recorde.

O blogueiro Hugo Gloss acompanha de perto a rotina das celebridades. Nascido em Brasília e morador do Rio, o jovem ganhou fama na internet ao comentar a vida dos famosos. Em entrevista ao Correio, após a cerimônia de Hollywood, ele afirmou que a selfie foi uma grande sacada dos produtores. “A Ellen conseguiu trazer as redes sociais para dentro do Oscar de uma forma orgânica e natural”, opinou.

Existem várias possíveis explicações para o fenômeno das selfies. Há quem entenda que a categoria é apenas mais um dos tantos modismos virtuais e que a febre dos autorretratos está com os dias contados. “Essa ‘era’ vai durar determinado tempo e logo será engolida por outra coisa. A internet e as mídias sociais funcionam assim”, acredita o antropólogo e professor de comunicação social da Universidade de Brasília (UnB) Gustavo de Castro.

Segundo Castro, há várias teorias que explicam o apreço das pessoas comuns pelas selfies dos famosos. Uma delas é a de que o público gosta de ver aquilo que já conhece, e não o desconhecido. “Não é qualquer fotografia que vai gerar um índice de compartilhamento e visualizações tão grande. Eu, por exemplo, olho para a imagem e me volto para o Kevin Spacey e a Angelina Jolie, os quais admiro bastante”, explica, citando a tal foto do Oscar.

Castro recorre ao filósofo Edgar Morin para levantar outra questão. O termo “olimpianos”, cunhado pelo autor francês, diz que figuras como as da selfie de Ellen DeGeneres estão em um patamar de celebrização tão alto que são consideradas semideuses pelos mortais. Logo, não é difícil que os autorretratos postados em redes sociais se tornem tão populares. “Estamos na era da imagem. Essa plataforma é um elemento maravilhoso de autopromoção também”, completa.

É possível identificar várias razões para o sucesso das selfies de famosos, algumas delas se aplicam também ao desejo dos anônimos de aparecerem nas redes. De acordo com a psicologia, os principais motivos para a exposição desenfreada estão ligados aos conceitos de narcisismo, baixa autoestima e autoafirmação. “Os adolescentes, por exemplo, precisam se mostrar mais para o mundo, serem aceitos nos grupos. Por isso, as selfies fazem tanto sucesso entre eles”, explica o mestre em psicologia pela UnB Thiago Cardoso.

“Todo mundo tem um lado narcisista. Um pouco não faz mal, é importante se valorizar. O problema é o excesso”, observa Cardoso. “O excesso está em pessoas que tiram várias fotos próprias ao longo da semana, mudam as imagens dos perfis das redes sociais com frequência, preocupam-se muito com o que vão achar e se focam apenas em si mesmos, em detrimento do grupo”, detalha.

De acordo com dados de 2013, o Brasil conta com 76 milhões de usuários de redes sociais. Um público tão extenso chama a atenção de empresas e, também, das celebridades. O especialista em marketing digital e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Nino Carvalho explica que a internet pode ser um importante termômetro da atuação das organizações. “No caso do Oscar, a Academia (de Artes e Ciências Cinematográficas) pôde avaliar a repercussão da cerimônia e dos filmes concorrentes.”

Para o estudioso, o fato de a famosa selfie do Oscar ter alcançado 3 milhões de compartilhamentos revela fatos importantes. “O volume, por si, não significa muita coisa, tem que ter uma visão qualitativa. Nesse caso, é importante observar se foi compartilhada por pessoas que influenciam outras, como a mídia. Isso gera uma forma de comunicação importante para a organização”, expõe.

O especialista explica que as selfies são também um elemento de marketing importante para as celebridades. “Essas personalidades precisam estar sempre em evidência. Aquelas que têm uma assessoria bem planejada conseguem fazer bom uso dessa ferramenta”, diz Nino.

Thiago Cardoso complementa: “Algumas celebridades chegaram muito novas ao estrelato e não sabem lidar de forma adequada com a exposição e acabam se exibindo demais. Daí o desgaste.”


A síndrome das selfies

Estudo realizado pela Best Computer Science Schools demonstra como o uso das redes sociais tem tornado as pessoas mais narcisistas e expõe algumas consequências preocupantes, como:

- considerar irrelevantes as opiniões alheias;

- agir de forma egoísta;

- sentir que as regras não se aplicam a você;

- maior vulnerabilidade a críticas;

- culpar outros por coisas que deram errado;

- tornar-se facilmente irritável.

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