Cresce público que dispensa emissoras de TV tradicionais

Telespectador tem dado atenção a produções feitas para a internet. Serviços de vídeo sob demanda oferecem liberdade ao espectador

por Mariana Peixoto 19/12/2013 08:20

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Ben Leuner/AMC Network
Em cinco temporadas, a série norte-americana 'Breaking bad' mudou o jeito de ver TV (foto: Ben Leuner/AMC Network)

Em 2005, o diretor de arte André Toledo, de 33 anos, resolveu que não mais teria aparelho de TV em casa. A decisão foi tão radical que recentemente sua mulher ganhou uma televisão e o casal decidiu devolver o presente. Na mesma época, o designer gráfico Pedro Guedes Amaral, de 27, parou de assistir à programação convencional dos canais abertos e fechados. Só recentemente resolveu comprar um aparelho de 32 polegadas. Entretanto, ele não tem antena em casa – ou seja, não consegue assistir a nenhum canal convencional. Nada disso impediu André e Pedro de acompanharem alguns dos produtos televisivos mais comentados de 2013, como as séries norte-americanas 'Breaking bad' e 'House of cards'.

Os dois fazem parte de uma audiência que vem crescendo no mundo: o público que vê TV sem ter uma TV. Trocando em miúdos: o telespectador monta sua própria programação, sem ficar à mercê dos horários determinados pelas emissoras. É o caso de consumidores do YouTube, Netflix, Netmovies, Crackle, Muu e do Kalista, entre outros. Estes últimos, os chamados serviços de vídeo sob demanda, permitem ao assinante ter acesso ao conteúdo (filmes, séries, documentários, novelas) por meio de banda larga. “Já rompi a sequência, pois faço a minha hora. Tenho todos os episódios da série que quiser na minha máquina. Então escolho quando quero vê-los”, afirma André Toledo.

Muita gente que não consumia séries passou a assisti-las com o crescimento dos serviços de banda larga, pois a internet é o principal canal propagador desses produtos, que se expandem pela rede por meio dos próprios usuários. “Toda narrativa transmídia que se preze começa com um cânone, ou seja, uma série de textos oficiais, e se expande para alcançar o mundo do fandom, o conteúdo gerado pelo usuário”, explica o argentino Carlos Scolari, professor da Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona, especialista em narrativas transmídia.

Analisando 'Breaking bad', hoje a maior referência de um produto que extrapolou a TV convencional, Scolari acrescenta: “São os fãs os principais responsáveis por alimentar o mundo narrativo de Walter White (o protagonista) com novos textos e levá-lo à conquista de novos territórios.”

Botequim
Kent Smith/Reuters
Domingo, 'Homeland' encerrou sua terceira temporada e bateu recorde de público nos EUA, com 2,9 milhões de espectadores (foto: Kent Smith/Reuters)
Vistas sob esse ângulo, as redes sociais atuam como o boteco onde antes se debatiam os rumos da novela das oito. “Já fui de discutir mais, mas se gosto de uma coisa, recomendo na rede social. Sou também muito interessado em teorias bizarras”, comenta Pedro Guedes Amaral, que passa de três a quatro horas por dia imerso em séries transmitidas on-line. A primeira experiência de André Toledo com um produto serial se deu com a finada 'Lost', para muitos o divisor de águas na cultura pop, pois gerou fenômeno que se expandiu para outros meios que não a TV, principalmente a internet.

“Numa série, tenho muito mais conteúdo do que dentro de um filme. Várias são muito mais benfeitas. 'House of cards' traz um milhão de panoramas do governo dos Estados Unidos”, afirma André Toledo, que vem se viciando nessas narrativas. “Nunca assisti a uma série em que os cinco primeiros episódios são realmente bons. Mas insisto em vê-los.”

Mesmo que o perfil do novo telespectador cresça a cada temporada, a TV convencional ainda terá vida longa, opina Lorena Tárcia, professora de jornalismo on-line do Uni-BH. “Acho arriscado fazer previsões sobre o consumo de mídia. A história tem mostrado que o ser humano retoma hábitos abandonados quando se sente sobrecarregado. Na Inglaterra, por exemplo, a BBC tem avançado com cautela para não deixar de lado sua audiência tradicional, aquela que gosta de simplesmente assentar e assistir aos programas preferidos sem precisar fazer mais nada. Porém, podemos, sim, pensar na personalização cada vez maior dessa parcela de usuários multitelas.”

• BREAKING BAD

» TV paga – O AXN exibe às sextas-feiras, às 22h, a última temporada (amanhã, o 12º episódio vai ao ar)
» TV aberta
– A série estreia na Record em 14 de janeiro
» Netflix – O site de streaming traz as cinco temporadas, com exceção dos oito últimos episódios

SOB DEMANDA
 Melinda Sue Gordon/Netflix/Divulgação
Produzida diretamente para a internet, 'House of cards' não teve a chancela de uma rede de TV (foto: Melinda Sue Gordon/Netflix/Divulgação)
O Netflix é a principal referência em vídeo sob demanda. Criado em 1997, nos Estados Unidos, ele chegou ao Brasil em setembro de 2011. A empresa não divulga números, mas em relatório anual enviado aos investidores, no fim de outubro, confirmou 40 milhões de assinantes nos EUA – na América Latina, eles superariam 1 milhão. O crescimento desse modelo de negócio fez com que o investimento em produções próprias crescesse. O grande sucesso produzido pela Netflix é 'House of cards', estrelado por Kevin Space e Robin Wright, que recebeu quatro indicações ao Globo de Ouro na categoria Série de TV. Não se trata de uma série de TV ao pé da letra, pois ela foi produzida para um site de streaming.

Campeão de audiência
LEANDRO COURI/EM/D.A PRESS
Criador do site Breaking Bad Brasil, Fábio Lins (foto: LEANDRO COURI/EM/D.A PRESS)
Nesta semana, o gerente comercial Fábio Lins, de Belo Horizonte, postou em sua página no Facebook um número que beira o absurdo: 2,003 milhões – registro da quantidade de visualizações obtidas pelo Breaking Bad Brasil, site criado por Lins em julho de 2010.

“O site evoluiu na mesma proporção que a série”, explica Lins, que faz todo o trabalho sozinho, cuidando da página virtual e suas atualizações no Facebook e Twitter. “Se quisesse um blog para ter muitos comentários e acessos, nunca escolheria Breaking bad (BB). Seria Fringe ou Dexter, pois naquela época BB era tida como a melhor série a que ninguém assistia.”

Para Lins, foi a partir do anúncio de que a série terminaria este ano que parte do público decidiu acompanhá-la. “BB tirou muito público da TV justamente por conta das coisas por trás da história, que atiçam a curiosidade. Há imagens escondidas dentro da cena. As pessoas iam para a internet comentá-las.”

Para manter a audiência, Lins teve de trabalhar bastante. “A partir da quarta temporada, passei a publicar, além da review (resenha de cada episódio), posts com curiosidades”, informa. As postagens sobre curiosidades eram diárias. Na última temporada, algumas chegaram a ter 20 mil visualizações e 150 comentários. Boa parte dos seguidores do site assistiu à série paralelamente ao calendário norte-americano, por meio de downloads.

Com a chegada do Netflix, esse público só aumentou: somado às pessoas que assistem a BB pela TV paga, mantém-se o interesse pelo site mesmo depois do fim da atração. “A repercussão ainda é grande, maior que no passado. O post anunciando que a série iria para a Record (a partir de janeiro) foi uma loucura”, acrescenta ele.

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