Conheça a confeiteira que transforma bolos em admiráveis jardins floridos

A partir de pesquisas sobre técnica difundida na Coreia, a goiana Amélia Lino imita a beleza das flores na decoração de bolos. Entre amanhã e quarta-feira ela estará na cidade

por Laura Valente 02/07/2017 07:00
Amélia Lino/Divulgação
(foto: Amélia Lino/Divulgação)
Nascida e criada no interior de Goiás, Amélia Lino não fazia ideia de que alguns anos após o casamento ficaria internacionalmente conhecida como especialista em flower cake, técnica difundida principalmente na Coréia e que consiste na confecção de flores de creme de manteiga translúcido ou de chantili de leite em pó para decoração culinária. Para começo de conversa, nunca havia feito um curso de confeitaria. Antes, trabalhou como professora e bancária, formou-se advogada, atuou nas varas Cível e Criminal. A mudança de vida começou depois das bodas e do nascimento dos filhos. Devido a profissão do marido, engenheiro, a família mudou de cidade e de estado várias vezes. Nisso, ela começou a fabricar bolos por hobby. Primeiro, empreendeu testes e mais testes para criar uma massa de pão de ló de caráter excelente (veja receita na página), base para bolos de sabores e recheios diversos. “Venho de família que gosta muito de culinária. Na minha terra, divisa de Goiás com Minas, recebemos influências da culinária mineira como pão de queijo, pamonha, bolo de milho, e da goiana, com o mané pelado (bolo de mandioca, aipim ou macaxeira), um dos principais quitutes à mesa. Cresci vendo minha mãe, avó e tias fazendo bolos com glacê real, mas tudo muito caseiro, artesanal. Tanto na família paterna quanto na materna, sou a primeira e trabalhar profissionalmente com confeitaria”, discorre.
Amélia Lino/Divulgação
Amélia Lino ministra cursos em todo o país (foto: Amélia Lino/Divulgação)

Craque na massa, Amélia adquiriu o costume de presentear amigos com os bolos. “Meu laboratório era doméstico. Não havia conhecimento técnico formal. Apenas comecei a desenvolver uma receita autoral, um falso pão de ló, a base de farinha, ovos, leite, e um pouquinho de gordura (margarina ou manteiga). Receita simples, porém bastante trabalhada, tanto na composição quanto na mistura e no forno. Minha contra partida ao presentear era pedir uma fatia para que pudesse avaliar o meu trabalho. Com isso, fazia alterações, fui aperfeiçoando a massa”. Com a ideia de incrementar as receitas, ela começou a buscar recheios e coberturas diferenciadas e assim descobriu, via web, a técnica flower cake. “Aqui, no Brasil, as pessoas confeitavam flores em pasta americana, mas vi na técnica à base de chantili de leite em pó ou de buttercream (creme de manteiga translúcida) a oportunidade de criar um produto novo”.

Autodidata, ela pesquisou muito, principalmente observando imagens. “Ficava horas contemplando as flores, a profundidade das peças, e aprendi a reproduzir as formas. Nisso levei um bolo confeitado para a academia, era uma quinta-feira, e todos ficaram encantados. Tanto que, para o sábado seguinte, recebi a encomenda de dez bolos. E isso em Novo Progresso, cidade do interior paraense, com população de apenas 20 mil habitantes. Dali o negócio só cresceu, comecei a atender aniversários, batizados, casamentos e a fornecer para uma confeitaria.”
Amélia Lino/Divulgação
(foto: Amélia Lino/Divulgação)

Com o boca a boca em torno da habilidade e a exposição dos produtos em redes sociais, Amélia ficou mais e mais conhecida. Logo, buscou especialização na Europa, em cursos na cidade de Barcelona, Espanha, e tornou-se especialista na técnica que usa creme de manteiga translúcido para confeitaria. Nessa altura, já reproduzia rosas, crisântemos, folhagens, botões, pequenas esculturas comestíveis. “O preparo é clássico, mas há peculiaridades nas técnica coreana e europeia. Misturo um pouco das duas e, hoje, faço mais de 20 tipos de flores”, conta.

De volta à terra natal, surgiu a demanda para que ensinasse a técnica. “ Em março do ano passado, comecei a dar aulas. A primeira, em Goiânia, contou com 12 alunos. De lá para cá não parei mais. No curso, ensino o percurso para desenvolver jardins florais, a partir de um método próprio. Sem falsa modéstia, atualmente no Brasil não existe nenhum trabalho que tenha a qualidade técnica do meu, minhas flores já são conhecidas por diversos confeiteiros coreanos”, registra.
 
 
Uma Doce virada
Amélia Lino/Divulgação
(foto: Amélia Lino/Divulgação)
 
 
Mestre na arte de modelar orquídeas, peônias e outras flores de creme comestível, Amélia ganhou fama ministrando cursos no Brasil e no exterior. Amanhã, ela desembarca em BH para ensinar a técnica no Espaço Cupfit, nos cursos Flower cakes em chantininho e em new glossy. Daqui, percorre o país para compromisso da agenda, já fechada até outubro. “Estou vivendo disso. Meu marido deixou a engenharia para ser meu sócio na empresa de treinamento que fundamos. Principalmente nessa crise que o país atravessa, o design de flores pode significar uma mudança de vida”, acena.

Apesar da trajetória ainda recente, Amélia acredita que já formou cerca de 5 mil pessoas, incluindo novatos na área. “Recebemos iniciantes, pessoas que estão pela primeira vez em uma bancada de cozinha. E mesmo estes já conseguem fazer um bolo floral inteiro com duas aulas, pois ensino atalhos que facilitam o processo”. A professora explica ainda que o curso que ministra é de padrão internacional, em módulo único, e baseado em técnicas básicas de confecção de flores com bico de confeitaria.

No mais, se diz realizada com a descoberta da doce habilidade. “Aprendi duas coisas importantes nessa virada: nunca podemos achar que a vida está saturada, que já deu. A partir da curiosidade e do desejo de ocupar um tempo ocioso em casa, encontrei um caminho profissional no qual sou plenamente feliz, pois sempre quis criar, gostei de arte, do trabalho manual. Hoje, penso que a vida é mesmo uma caixinha de surpresas, sempre existe a possibilidade de mudar. O mundo floriu pra mim”.
 
 

Mané pelado goiano



Ingredientes

800g  de mandioca ralada e espremida (comprimir para retirar o líquido, deixar ainda úmida), 5 ovos em temperatura ambiente, 2 colheres de sopa de manteiga, 1 xícara de queijo “curado” ralado, 1 xícara de óleo de soja, 1 xícara de açúcar refinado, 1 colher de sopa de fermento em pó químico, 1 xícara de suco de laranja, canela em pó a gosto. Pode-se adicionar também, opcionalmente, 50g de coco ralado.


Modo de fazer

Bata as claras em neve na batedeira e reserve separadamente. Coloque na batedeira limpa as gemas, o açúcar, o óleo e bata vigorosamente; adicione em seguida a mandioca, a manteiga, o queijo ralado e o suco de laranja (bater menos, apenas para incorporar). Por último, insera as claras em neve e o fermento. Distribua a massa em um tabuleiro retangular de 30X23cm (comprimento e largura) e 5cm de altura e leve ao forno a 180° até ficar levemente douradinho. Depois de assado, polvilhe canela ou açúcar refinado, conforme desejar. Pode ser decorado com lascas de cocada de coco queimado.

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