Bares e restaurantes que funcionam há décadas em BH dão a receita da longevidade

Agradar ao cliente e 'olho do dono' são os principais ingredientes

por Ana Clara Brant 31/03/2017 07:00
Leandro Couri/EM/D.A Press
A varanda do Tip Top, em Lourdes, ficou famosa. O restaurante funcionou no Centro por 42 anos (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Tudo começou há 30 anos, quando o marroquino Paco Pigalle chegou a Belo Horizonte. Em 1989, ele inaugurava seu primeiro bar, que funcionava na Rua Timbiras, no Bairro Funcionários, atrás do Colégio Arnaldo. De lá pra cá, o estabelecimento batizado com o nome do dono ocupou 15 endereços diferentes na cidade. Desde 2000, funciona na Avenida do Contorno, na Floresta.


“A ideia sempre foi ser itinerante, a gente queria essa coisa nômade. Todos os anos, mudávamos de lugar para dar outra cara ao Paco, mas sem perder a essência. A partir de 2000, quando houve o incêndio no extinto Canecão Mineiro e ficou mais complicado conseguir alvará, a gente acabou adotando sede mais fixa”, explica o produtor cultural e empresário Paco Pigalle.

O bar do marroquino é um dos heróis da resistência da noite de BH. Passa ano e entra ano, ele continua firme e forte, mesmo que o público não seja o mesmo. “Casa noturna não tem muito segredo. A cerveja é a mesma, a proposta é parecida, mas o que faz a diferença é a música. Sempre fizemos questão de apresentar os mais variados gêneros de todos os cantos do mundo. Quem frequenta o Paco Pigalle sabe: não vai ouvir nem a música da moda e nem o sucesso no rádio. O repertório é exclusivo. A gente busca canções em vários países: Cuba, França, Itália e Marrocos, por exemplo. Fazemos uma pesquisa própria”, destaca.

Marcos Vieira/EM
Paco Pigalle: 28 anos de serviços prestados à noite da capital mineira (foto: Marcos Vieira/EM)
PIGALLESSAURO
Para lembrar as origens e agradar aos primeiros clientes, o produtor vai lançar, no início de maio, o Pigallessauro, voltado para quem frequentava a casa em seus primórdios. “Ao longo do tempo, a pista de dança invadiu o espaço, que virou um dancing bar. Algumas coisas do início, como os petiscos, ficaram de lado. Com o novo bar, que vai funcionar aqui na Avenida do Contorno mesmo, a gente quer atrair os nossos primeiros frequentadores. Eles estão na faixa dos 50 anos, não têm paciência de ficar em pé, não gostam de muito barulho e querem degustar pratos e tira gostos das cozinhas marroquina, indiana e peruana”, revela.

Paco diz que os estabelecimentos duradouros de BH passaram a receber filhos e até netos dos clientes pioneiros. É o caso do Tip Top. Um dos bares mais antigos da cidade, ele foi fundado em 1929 pela tcheca Paula Huven e seu marido, o romeno Adolfo Huven. Inicialmente, funcionava como mercearia, no Centro (Rua Espírito Santo, quase esquina com Avenida Afonso Pena), vendendo de tudo um pouco.

Depois de passar 42 anos naquele local, o Tip Top se mudou para a Rua Rio de Janeiro, entre Avenida Bias Fortes e Rua Gonçalves Dias, em Lourdes. Atualmente, é administrado pelas sócias Cleusa Silva e Ludmila Carneiro. “O nome Tip Top foi inspirado numa gíria muito usada na Europa dos anos 1920 e 1930, que significa tudo bem, tudo certo. Esse clima sempre norteou a casa. Além de sermos bar e restaurante, organizamos eventos na época do carnaval, festas juninas e aniversários. O fim de semana aqui bomba”, conta Cleusa.

A fiel turma que frequenta o Tip Top foi ampliada com a chegada dos clientes novatos. “Acontece muito de a avó vir com os filhos e netos. É um lugar muito tradicional, temos profissionais que estão aqui há anos, conhecem todo mundo”, comenta Cleusa Silva.

Um dos dias mais disputados é o domingo, sobretudo no almoço. Entre os pratos de sucesso estão o filé à milanesa com salada de batata (R$ 43) e o filé à parmegiana (R$ 46). “Mesmo mudando de direção ao longo de quase 90 anos, a casa só foi administrada por mulheres. Quem sabe o motivo para durar tanto esteja aí?”, brinca ela.

Marcos Vieira/EM
Major Lock, no São Pedro, planeja sua festa de 25 anos para julho (foto: Marcos Vieira/EM)
BODAS DE PRATA
Felipe Marreco, um dos sócios do Bar Major Lock, no Bairro São Pedro, acredita que o belo-horizontino costuma resistir às novidades. Talvez isso explique por que muitas casas abrem e acabam fechando depois de um curto período, pondera.

“Todo mundo gosta de receber tratamento mais pessoal, um cuidado maior, uma confiança. BH é uma cidade difícil de você se manter, mas quem trabalha duro, sabe fazer direito e procura se reinventar acaba resistindo. Não dá pra ficar na zona de conforto”, defende.

O bar vai completar 25 anos em 2017. Para celebrar a data, uma grande festa está planejada para julho, na casa de shows Hangar 677, no Bairro Olhos d’Água.

JOGOS
Quem também está comemorando bodas de prata é o Soho Orbi, que fica na Rua Tomé de Souza, no Funcionários. Assim que voltou de uma temporada de Nova York, o bailarino Fabio Ferreira Pinto criou um espaço que homenageava o famoso bairro nova-iorquino. “No começo, não tinha muito movimento e alguns amigos trouxeram jogos. Começamos a virar um lugar para as pessoas jogarem. Passei a comprar jogos também. Não foi intencional, mas o Soho acabou conhecido como o bar onde você pode disputar jogos de tabuleiro”, relembra.

Outro diferencial é a famosa “montanha” de batatas fritas, com vários temperos. “Queria um prato grande, que tivesse muita coisa e chegasse a despencar. Foi assim que a ideia surgiu”, conta Fabio. Aliás, às quintas-feiras, tem degustação de batatas fritas (chips e palito) e assadas, com direito a refil de refrigerantes e jogos liberados. O pacote custa R$ 38. “Deu certo porque me dedico muito. Estou aqui todos os dias. É como aquele ditado: o olho do dono engorda o gado”, diz o sócio do Soho.

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