"Mercearias-botecos" misturam venda de produtos e atendimento à moda dos bares

Clientela fiel é formada quase sempre por moradores da região

por Luiz Fernando Motta 12/02/2016 08:00

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Cristina Horta/EM/D.A.Press
Dono da Mercearia Katanga, no Bairro Nova Floresta, Neivaldo Isidorio vende ovo caipira e cachaça (foto: Cristina Horta/EM/D.A.Press)

Nas prateleiras, arroz, feijão, fubá e itens “da roça”, como ovo caipira e linguiça caseira. No balcão e nas poucas mesas, por vezes improvisadas, copos de cerveja e tira-gostos. Mercearias espalhadas por Belo Horizonte não só oferecem produtos para repor as despensas, mas também funcionam como ponto de encontro. Elas estão praticamente fora do mundo on-line. As páginas no Facebook não somam milhares de curtidas e não há muitas referências sobre elas em aplicativos como Foursquare, Kekanto e outros guias de entretenimento. Algumas mal aparecem nos sites de busca e até a simples tarefa de encontrar o telefone de contato pode ser complicada. No entanto, tudo isso ajuda a construir aquela ideia de estabelecimento tipicamente de bairro, com jeito de venda do interior.


Assim como outros bairros da Região Nordeste que se desenvolveram no entorno da Companhia Renascença Industrial – fábrica têxtil onde trabalhou a cantora Clara Nunes –, o Nova Floresta surgiu como vila operária. Até hoje, 20 anos depois da desativação do empreendimento, conserva o clima tranquilo. Há 25 anos, o comerciante Neivaldo Isidorio montou um sacolão na Rua Helium, 392, mas o estabelecimento foi se modificando à medida em que os clientes pediam novos produtos. Hoje, funciona como Mercearia Katanga (apelido de Neivaldo) e oferece de tudo, de cachaça a analgésico.

“O pessoal vinha procurando algum produto e, se não tinha aqui, dava um jeito de conseguir. Tudo foi se misturando a ponto de os próprios clientes montarem um espaço para tomar cerveja”, conta o comerciante, referindo-se ao pequeno balcão na porta, onde a turma de amigos já estava a postos, às 13h de sexta-feira. Além de botar a conversa em dia, eles aproveitam para levar para casa o tempero caseiro que Neivaldo faz, a linguiça ou o ovo caipira trazido da fazenda.

No cantinho improvisado e na área externa – onde há algumas mesas e troncos de madeira usados para apoiar os copos –, o papo é afiado. Edson Martins conta que eles se reúnem quase diariamente para a “resenha”, na qual vêm à tona histórias curiosas semeadas ao longo das décadas. Uma delas é a da cadeira maldita. “Ninguém gosta de se sentar ali”, diz, apontando para o assento escorado na porta. “Já reparamos que quem fica ali é o próximo da turma a morrer. É a ‘cadeira do já morreu’”, brinca Martins, provocando risadas e a reação assustada (mas não menos bem-humorada) do amigo que ocupa o tal “assento maldito”.

Além de ponto para a cervejinha diária, a mercearia serve como espaço de comemorações do bairro. O cliente Marco Lima conta que tudo é motivo de festa. “Além do churrascão de fim de ano, todos os meses a gente homenageia um aniversariante e faz um evento maior. Nesses dias, a rua fica praticamente fechada”, explica.


Cristina Horta/EM/D.A.Press
"Passo vassoura no chão, sou de casa mesmo"- Alexandre Barbosa, frequentador do empório Hubert, em Santa Tereza (foto: Cristina Horta/EM/D.A.Press)
CLIENTE-FUNCIONÁRIO A mercearia da Rua Mármore, 170, no Bairro Santa Tereza, mudou de nome algumas vezes, mas a clientela é praticamente a mesma. Atualmente, chama-se Empório e Distribuidora Hubert. A venda é ponto diário “pós-expediente” dos moradores. Muitos passam só para comprar o que está faltando em casa, outros aparecem para pôr o papo em dia. “Por volta das 18h30, aqui fora vira uma ‘panelinha’. São sempre os mesmos comprando cerveja e fazendo a roda na calçada”, diz o proprietário Hubert Lacerda.

O bar tem uma bancadinha improvisada, onde alguns se sentam para comer bolinho de carne (R$ 4 a unidade), costelinha com linguiça (R$ 20, para três pessoas) ou moela (R$ 8, para duas pessoas). “Não temos cardápio. Tudo isso foi virando tradição depois dos pedidos dos clientes. Alguns trazem os ingredientes de casa e nós preparamos aqui”, explica Lacerda.

Um dos fregueses já nem é mais chamado de cliente. O taxista Alexandre Barbosa vai à mercearia há pelo menos 18 anos e ajuda até na limpeza. “Lavo copos, passo vassoura no chão, sou de casa mesmo. Aqui, cada um se serve e depois acerta a conta com o Hubert”, revela. Alexandre é vizinho da mercearia e tem hora marcada para visitar o amigo. “Trabalho durante a madrugada e passo aqui sempre de manhã para tomar uma cerveja antes de descansar. Mas, às vezes, estou em casa descansando e o Hubert me chama para ajudar na venda. Sempre venho com o maior prazer”, conta o taxista.

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