Catuaba vira febre de consumo na capital mineira

Seja de dia ou na balada, ela faz o maior sucesso, especialmente com os jovens

por Eduardo Tristão Girão 23/09/2015 09:03

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Rodrigo Clemente/EM/D.A Press
O vendedor ambulante Nandão, que ganha a vida vendendo catuaba com açaí, em foto na Praça do Papa (foto: Rodrigo Clemente/EM/D.A Press)
Nandão era metalúrgico e não imaginava, da noite para o dia, viver da catuaba. A universitária Izabela Egídio curte eventos de rua e não abre mão de um copo com gelo e catuaba. Fernando Evangelista confirma que a principal “inimiga” da cerveja no forró que promove n’A Casa é a catuaba. O ilustrador Benício fez fama desenhando pôsteres de filmes nacionais, mas jamais esqueceu do rótulo que desenhou para uma garrafa de catuaba.

Pessoas de perfis diferentes, mas ligadas pela bebida, que nunca teve momento de maior popularidade como o atual. A moda da catuaba não é exatamente uma novidade, mas tomou ares de febre. Exemplo: semana passada, na Virada Cultural de Belo Horizonte, todo mundo parecia bebê-la. Já viu aquela garrafa de plástico com um “Conan cover” segurando uma donzela no rótulo? Passava de mão em mão. Denunciava o esgotamento dos que dormiam pelas calçadas. Repousava sobre o gelo do isopor do ambulante, em meio a latões de cerveja.

Fenômeno Bom termômetro disso é o surgimento de variações em torno do tema. No caso, o catuçaí. A bebida gelada que mistura açaí com catuaba tem feito tamanho sucesso entre a juventude frequentadora de eventos de rua alternativos em BH que fez Nandão largar o emprego de supervisor industrial – e desistir do curso de engenharia mecânica no qual estava prestes a ingressar. Ele jamais pensou que seu sustento viria de uma bicicleta equipada com uma garrafa térmica de 25 litros.

Nandão virou figurinha fácil e chega a vender 150 litros de catuçaí numa noite movimentada – o copo de 300ml custa R$ 5. Ele prepara a bebida em casa e se gaba de conseguir mantê-la com a consistência de um frozen. Não é ele o criador, mas garante ser o dono da ideia de levá-la para fora de eventos fechados, três anos atrás. “Quando fui para a rua, durante o Praia da Estação e o Fica Ficus, ninguém levava nada. Era só gente protestando. Vendemos tudo e tivemos de renovar o estoque mais duas vezes”, conta.

Hoje, além de comparecer a atividades na rua e desfiles (e ensaios) de blocos de carnaval, Nandão atende a eventos fora da cidade, como encontro de cultura indiana em Santo Antônio do Leite e o Festival de Inverno em Milho Verde. Para isso, conta com sua bicicleta e equipe que comanda três carrinhos com garrafões. Há trabalho o ano todo. Para o próximo carnaval, quer ampliar para até 10 o número de pontos de venda.

E por que a catuaba, misturada ao açaí ou não, tem feito tanto sucesso? “Você pode segurar a garrafa a noite inteira. É de plástico, não pesa. Basta ter duas pedras de gelo e um copo. Como tem muita gente vendendo cerveja na rua, gelo não é difícil de achar. O efeito é satisfatório e o preço, barato. Com uma garrafa para duas pessoas já dá para começar a noite e ficar feliz”, explica o vendedor.

Na garganta A estudante Izabela Egídio, de 23 anos, fez da catuaba sua bebida predileta e tem tese parecida para explicar o fenômeno, mas vai além. “Não dá vontade de ir ao banheiro toda hora, como ocorre com a cerveja. Em eventos de rua nunca tem banheiro e a gente tem de pagar R$ 1 para usar os dos barzinhos da Rua Aarão Reis. Catuaba une pessoas. Não sei por que, deve ter um espírito diferente naquela bebida. É muito tranquilo de tomar, mais suave, sem aquele gostão forte da cachaça”, observa.

Izabela começou a beber catuaba com amigos, cinco anos atrás, durante o Duelo de MCs, debaixo do Viaduto de Santa Tereza, no Centro da capital mineira. “Era muito barato, R$ 3 o copo. Éramos falidos e nosso rolê era esse. Tínhamos R$ 10  para ir e voltar de ônibus e tomar uma catu”, lembra. Izabela relata, ainda, que o aumento da procura provocou inflação nas ruas: chega a ver ambulantes querendo R$ 25 na garrafa, que compra por cerca de R$ 10 em supermercados.

Ela prefere tomar a catuaba gelada, pois quente desce “arranhando feito gato na garganta”. Declara-se apaixonada pelo catuçaí e, apesar de acusar queda na qualidade do que os vendedores andam oferecendo (“está ficando ralo”), ainda enxerga uma grande vantagem nele: “Além de tudo alimenta, por ter açaí. É bebida e larica num copo só”. Por fim, a estudante aproveita para dar um conselho: “A catuaba deixa a gente mais bêbado que cerveja, mas pode dar problema. O porre dela só não é pior que o de vinho. Quando tomar um, você vai ver”.
 
LEANDRO COURI/EM/D.A PRESS
A universitária Izabela Egidio adora a bebida, e com muito gelo (foto: LEANDRO COURI/EM/D.A PRESS)
Até tempos atrás, a catuaba era a bebida preferida de forrozeiros. No espaço de shows A Casa, no Bairro Santa Efigênia, há 10 anos a catuaba é consumida com fervor às segundas-feiras, quando são realizadas ali as noites de forró. São consumidos cerca de 150 copos de catuaba por vez, cada um a R$ 5 – mesmo preço da cerveja em lata, que lidera (sem muita margem) a venda de bebidas alcoólicas no local.

“Ela não atrapalha a venda de cerveja porque o cervejeiro não toma catuaba. Quem toma catuaba geralmente não tem uma bebida preferida e às vezes pede xiboquinha (cachaça com canela e raízes em pó) para variar, mas não toma cerveja”, analisa Fernando Evangelista, proprietário d’A Casa. Ele conta que, hoje, as mulheres não são mais maioria entre o público consumidor e que tampouco a bebida está restrita a quem dança o “bate-coxa”.
 
Guache sensual
 
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A bebida da marca Selvagem é a mais tradicional (foto: LEANDRO COURI/EM/D.A PRESS)
“Precisavam de um elemento forte e sensual e chegamos àquele fortão e à aquela fortona que, aliás, não é muito forte, mas muito linda. Na época, o Conan estava na moda, mas não me inspirei nele, apesar de parecer. Lembro-me com muito carinho desse trabalho, me marcou muito”, conta o ilustrador Benício, que criou o rótulo da catuaba Selvagem nos anos 1980.

Gaúcho de 79 anos radicado no Rio de Janeiro, ele é conhecido por ter criado centenas de belos cartazes de filmes brasileiros. Mulheres sensuais caracterizam muitos trabalhos dele e com o rótulo da bebida (o desenho original foi feito em guache) não foi diferente.

“Eu era procurado principalmente por causa disso, por fazer algo sensual sem ser pornográfico”, explica Benício. “Tem que ter muito cuidado para não escorregar nesse trabalho e sempre me dei bem com isso”, continua. O fato de catuabas concorrentes terem adotado rótulos do mesmo estilo não o incomoda: “Se copiaram é porque foi bom”.
 
A receita
 
As velhas garrafadas das vendinhas do interior (que misturam bebidas alcoólicas com ervas) serviram de referência para a formulação da Selvagem, catuaba mais popular do país. Foi criada em 1969 para competir com bebidas como conhaque de alcatrão e a jurubeba, lançada oficialmente em 1990 e com receita que leva vinho tinto, álcool etílico potável, açúcar, suco de maçã, xarope de maçã, caramelo de açúcar e fermentado de maçã composto com extratos de catuaba, guaraná e marapuama – o teor alcoólico é de 14%. Da fábrica, em Teresópolis (RJ), saem as garrafas que abastecem mercado em crescimento: foram vendidos 16 milhões de litros no ano passado, o dobro de 2009, e a projeção para este ano é de 13% de crescimento. Minas Gerais é o estado que mais a consome, depois de São Paulo.

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