Italiano Carlo Petrini, fundador do Slow Food, inclui BH em visita ao Brasil para divulgar suas ideias

Defendendo o alimento 'bom, limpo e justo', ele passou por outras quatro capitais para lançar um aplicativo com dicas gastronômicas de 22 países, incluindo o Brasil

por Eduardo Tristão Girão 05/08/2015 08:30

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GIUSEPPE CACACE/AFP
A partir da luta que se realizou aqui em Minas Gerais pelo queijo feito com leite cru, ficou claro que outros estados têm bons queijos também. Comi um ótimo queijo em Goiás, por exemplo. Isso significa que as boas ideias se difundem%u201D, Carlo Petrini, fundador do Slow Food (foto: GIUSEPPE CACACE/AFP)
“Maldito é quem pensa que gastronomia se resume a um chef cozinhando. Sem os produtores, ninguém pode realizar suas atividades”, esbraveja em portunhol Carlo Petrini, presidente do movimento Slow Food, fundado por ele na Itália, em 1986. As pessoas que assistiam à sua palestra em Belo Horizonte, na semana passada, responderam com palmas e gritos entusiasmados, como num comício. Sem qualquer cerimônia, Petrini reagiu prontamente com uma bronca: mandou parar o barulho, deixando para bater palmas depois. E seguiu o roteiro de sua fala.

 

Conheça produtor de queijo minas adepto do Slow Food que vende o produto pelo correio

 

A visita de Petrini ao país começou em 21 de julho e terminou esta semana. Defendendo o alimento “bom, limpo e justo”, ele passou por outras quatro capitais para lançar um aplicativo com dicas gastronômicas de 22 países, incluindo o Brasil. Por “bom, limpo e justo” entenda-se comida que tenha não só bom sabor e qualidade, mas cuja produção não prejudique o meio ambiente, envolva boas condições de trabalho e garanta remuneração honesta do produtor. Essa é a filosofia principal do movimento, que tem simpatizantes em 150 países.


Assim, o italiano vai contra a exploração da mão de obra, o sistema agrícola dominante e a mercantilização da terra. Por isso, sua fala facilmente ganha contornos utópicos, messiânicos. Entretanto, seu entusiasmo pela causa da agricultura familiar e a clareza com que articula as ideias tornam atraente o convite para que cada pessoa ajude a mudar o mundo ao adotar determinados hábitos de consumo. Simplista, claro, mas faz sentido.

Motor Como proceder? “Comprar diretamente dos produtores, organizar mercados locais, lutar contra o desperdício, pagar bem os produtores. Isso merece o respaldo dos consumidores. Individualmente, eles fazem diferença e podem ser o motor principal da mudança. A forma como comemos pode definir a política agrícola do país”, responde Petrini, que também é jornalista.


Entre outros compromissos de seu giro pelo Brasil, esteve a assinatura de acordo de cooperação técnica entre o Slow Food e o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), em Brasília, para promover e apoiar a produção e o consumo de alimentos da agricultura familiar e de assentamentos rurais no país.


É uma aproximação importante, visto que o braço brasileiro do movimento desenvolve ações significativas nesse sentido, mas que não resolve a relação entre os dois lados. Uma das pedras no sapato, por exemplo, é a questão do cultivo e comercialização de sementes de alimentos transgênicos, criticada pelo Slow Food. No momento, o Senado analisa projeto que retiraria símbolo de transgenia de rótulos de produtos geneticamente modificados.


“Há diferentes posições dentro do governo. O MDA precisa fortalecer a pequena indústria familiar e, ao mesmo tempo, há ministérios com pensamento muito próximo ao da agricultura industrial. É a grande contradição desse governo e que perdura há muito tempo. Agricultura industrial e familiar não são compatíveis. Entretanto, a partir do governo Lula implementou-se fortemente a agricultura familiar e os direitos das comunidades rurais. Muita coisa mudou em 10 anos, penso que são conquistas que merecem ser mantidas”, analisa Petrini.


Nos últimos anos, o Slow Food Brasil tem atuado por meio de projetos que relacionam biodiversidade e agricultura familiar, sendo dois dos mais importantes a Arca do Gosto e as Fortalezas. No caso do primeiro, trata-se de catálogo mundial de produtos ameaçados de extinção e potencialmente comerciais (no Brasil, são exemplos o mel de abelhas nativas, o umbu, o arroz vermelho e o guaraná Sateré-Mawé). Já as Fortalezas são programas de desenvolvimento da qualidade de alguns desses produtos nos seus territórios.

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Visitante observa queijos no Salão do Gosto TerraMadre, do Slow Food, em Turim (foto: GIUSEPPE CACACE/AFP)


Braço do movimento em BH apoia queijo e mira cerveja

Associados ao Slow Food no Brasil reúnem-se em 46 grupos, chamados de convívios. Seis deles estão em Minas Gerais. O de Belo Horizonte, com aproximadamente 15 membros, tem como líder Marcelo de Podestá, de 31 anos. Aqui, são promovidos eventos abertos ao público (como degustações temáticas e jantares), viagens para conhecer produtores e campanhas contra alimentos transgênicos e em prol do consumo de peixes oriundos de pesca sustentável.


“Ainda é um convívio muito urbano. A ideia é multiplicar. É interessante que haja convívios em cidades vizinhas, por exemplo. Temos muito contato com produtores da região metropolitana. Nosso foco atual é nos queijos e em agricultura urbana, mas também estamos discutindo sobre cervejas com sabores locais, ajudando a desenvolver insumos para produtores daqui”, afirma Podestá.


As ações do convívio são divulgadas pelo Facebook (www.facebook.com/slowfoodbh) e pelo site www.slowfoodbh.org. Entre as próximas está uma oficina de degustação de queijos brasileiros de leite cru no Festival Cultura e Gastronomia Tiradentes, neste mês, com aproximadamente 10 variedades mineiras, paulistas e nordestinas. Publicitário e mestre em história e cultura da alimentação pela Universidade de Bolonha (Itália), Podestá é quem ministrará a atividade.

 

 

MUTAMBA
EM MILÃO
Ramon Melo, de 22 anos, é produtor de frutos como coco-macaúba, jatobá, cagaita e mutamba em Jaboticatubas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Um dos integrantes da associação Amanu – Educação, Ecologia e Solidariedade, ele foi um dos selecionados para participar, em outubro, do Terra Madre Giovani – We Feed the Planet, congresso de jovens e pequenos produtores organizado pelo Slow Food em Milão, na Itália. “Nossa região é muito rica em saberes populares e artesanais. Vamos apresentar um pouco do nosso trabalho, que é de agricultura familiar e envolve agroecologia e economia solidária”, diz ele.

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