Dona do bufê Catharina dá lição de vida no Dia da Mulher: ''É preciso muita garra''

Aos 83 anos, Catharina Assis Matos é ícone do setor em Belo Horizonte; para chegar lá, enfrentou desafios sociais que a fazem enxergar a mulher como ''um sexo forte''

por Laura Valente 08/03/2015 15:11

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Para lidar com as dificuldades da vida, dá-lhe produção de doces, salgados, pratos requintados, gostosuras em geral. Muito resumidamente, foi assim que Catharina Assis Matos, hoje proprietária do bufê que leva seu primeiro nome, um dos mais tradicionais de Belo Horizonte, driblou problemas financeiros, criou os quatro filhos, deu a volta por cima. Do alto dos 83 anos, orgulha-se de oferecer para as festas da cidade o que há de mais especial e profissional quando o assunto é bufê.
Basta uma olhadela para trás e ela se lembra da história de luta que marcou sua vida. “Guardo lembranças de muita luta... De defrontarmos com uma condição financeira muito diferente da que tínhamos quando nascemos em uma fazenda enorme, com muita fartura e muitos empregados. De repente, havíamos perdido tudo e precisaríamos recomeçar.”

Astuta na cozinha, a menina aprendeu cedo, com 14, 15 anos, mexendo os tachos de doces para a mãe. “Por pura necessidade.” A precisão, no entanto, nunca foi empecilho ou motivo para chororô. “Também tenho lembranças maravilhosas da nossa família, sempre muito unida e muito religiosa. Vendia doces nas ruas de Itaúna ainda menina”, conta. A produção desses doces, aliás, deu início a toda a história de vida dessa mulher e de sua família. “Adorava fazer festas de criança, vendi muitos bichinhos para aniversários de pessoas que hoje já passam dos 50 anos: modelava pintinhos, ratinhos, borboletas, pinguins, tudo em doces... Quando ainda morava em Itaúna e pegava encomendas de bombons de uva para casamentos, tomava o ônibus lá, vinha para BH comprar as uvas e voltava no mesmo dia para fazer os bombons”, recorda.
Beto Magalhães/EM/D.A Press
Acostumada à cozinha desde criança, ''por pura necessidade'', Catharina tornou-se uma das cozinheiras mais requisitadas de Belo Horizonte e chegou a recusar a chefia no Palácio da Liberdade (foto: Beto Magalhães/EM/D.A Press)
Mais tarde, Catharina se mudou de vez para a capital e ficou conhecida como uma cozinheira de mão cheia, sempre comprometida com a clientela. Tanto que deixou de aceitar um convite tentador para não abandoná-las. Ela revela que trabalhou no Palácio da Liberdade por dois anos. Muito interessada, lia tudo o que podia sobre culinária francesa na biblioteca, também fonte de pesquisa para a produção de receitas novas para as festas do então governador Magalhães Pinto. “Um dia, a primeira dama, dona Berenice, me chamou para assumir o cargo de chefe de cozinha do Palácio. Mas não quis aceitar, pois já tinha feito freguesia. Saí de lá e continuei com minhas encomendas e trabalhando por dia nas casa das clientes.”

Determinação

Entre receitas doces e salgadas, Catharina não se faz de rogada para caracterizar a culinária que faz como “muito boa”. E justifica: “Acredito que, como sempre trabalhei com matérias-primas de boa qualidade, meus produtos são muito bons”, avisa. Doceira de mão cheia, costumava abrir mão das sobremesas para preparar pratos salgados no período do Natal, quando gostava mesmo é de incrementar as aves. “Minhas receitas prediletas são os pratos natalinos. Já assei tantos perus nas madrugadas que acho que peguei gosto.”

A força de vontade para construir um caminho tão bonito, acredita ela, pode estar no DNA. “Acho que herdei essa garra da minha mãe. Na época difícil, meu pai ficou muito triste, muito sentido com os fatos. E foi ela quem nos mostrou que éramos fortes, capazes e poderíamos superar tudo aquilo”, lembra.

Catharina é uma das precursoras na abertura de um bufê na cidade, numa história iniciada ainda na década de 1950. “Naquela época, não era comum as mulheres trabalharem fora, mas acho que pela necessidade e pelo sangue italiano nunca gostei de ficar parada. Sempre trabalhei muito e consegui conciliar a criação de quatro filhos com as atividades na empresa. Mérito do meu marido também.” Ao longo da carreira, criou um portfólio com centenas de opções. Só na temática doces há pelo menos 100 diferentes, como os tradicionais bombons de nozes, tâmara em flor, brigadeiro de pistache e concha de damasco recheada de trufa branca (veja receita na página), entre muitos outros.

Ainda para a empresária, alguns desafios para as mulheres daquela geração repetem-se nos dias atuais, mas há mais facilidade em alguns aspectos. “Manter uma empresa é por si só um trabalho enorme, mesmo naquela época. Mas difícil mesmo era a preparação dos pratos num tempo em que não existia nada processado, abatido, pré-pronto. Comprávamos as aves e matávamos no bufê: codornas, perus, patos... Não existia o coco ralado como tem hoje. Nesse sentido, tudo era muito mais difícil.”

Hoje, no Dia Internacional da Mulher, a cozinheira e empresária é taxativa ao dar dicas para o sucesso de mulheres independentes como ela. “É preciso muita garra, determinação e ânimo. Acredito que, realmente, a mulher é um sexo forte. Agora, receita para a felicidade é esbanjar alegria de viver, ter comprometimento e fé. Com isso se vai longe.”

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