A Saga das Bactérias - (Capítulo II)

por Eduardo Avelar 28/07/2013 17:45

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Foram milhares de anos de história da civilização e da alimentação onde havia uma convivência até pacífica entre o homem e a bactéria. Na história moderna, não somente as pobrezinhas, mas os vírus e outros maus elementos se tornaram inimigos públicos e a ciência deu conta de frear sua ação devastadora, que inclusive dizimava civilizações. Mas as pobrezinhas das bactérias, de todas as classes sociais e níveis de periculosidade, mesmo depois da penicilina conseguiram sobreviver através de mutações inteligentes.


Como existem maçãs podres, geralmente em todas as caixas, e para evitar a contaminação generalizada, o homem moderno foi começando a separá-las para atenuar seu poder de mutação e de maldade. Assim, foram sobrando somente aquelas bacteriazinhas do bem, entre elas algumas que todos nós conhecemos e que no máximo quando se manifestam em nossos organismos causam uma dorzinha de barriga ou um desarranjo passageiro, que às vezes até viram causos ou
piadas de família.


Mas aí, com a evolução da ciência, surgiram os caçadores de bactérias nos alimentos. Cansados de tentar acabar com as maldosas e invencíveis que vivem nos hospitais, postos de saúde e afins, esses implacáveis combatentes, ao melhor estilo dos heróis americanos, resolveram atacar outro alvo, porém, mais fácil de acertar. Como não estão dando conta dos verdadeiros inimigos, deixaram de cuidar realmente da saúde nos hospitais para atacar a classe dos cozinheiros e demais produtores de alimentos em nome do povo. Mas não atacam todos,


é claro, especialmente e estrategicamente aqueles mais fracos, que não têm grandes corporações por trás ou a proteção do poder econômico.


São milhões de profissionais que trabalham e vivem de produzir alimentos e produtos artesanais, mas na ótica dos Dons Quixotes contemporâneos da vigilância sanitária são terríveis inimigos com a ideia fixa de intoxicar  todos os seres que se alimentam. Esses inimigos profissionais são prioritariamente os pequenos e mais humildes comerciantes, fabricantes ou cozinheiros, que preservam o pouco de nossa história que ainda resiste ao ataque sistemático de portarias e leis para conter as suas malignas intenções. O mais incrível é que esses corajosos e isentos combatentes do mal ainda não perceberam as diferenças e a diversidade cultural do país, se lambuzando de arrogância e truculência, sob a armadura de leis da antiguidade, datadas a partir dos anos 1940, e na hipocrisia da modernidade pasteurizada e sem identidade. Para piorar um pouco, geralmente com a conivência de governantes e legisladores. E nós, a classe de cozinheiros, produtores e afins, de uma maneira geral, temos buscado incessantemente criar meios de preservar as terríveis bactérias maldosas, para dizimar mais essa civilização moderna. Quem dera pudéssemos ter esse poder para direcionar sua força destruidora para alguma dessas parcelas especais da sociedade.


Tô cansado, amigo, pois não existe eco em nossas reivindicações. Nunca encontramos o excomungado do Miguel de Cervantes para o debate, para entender a lógica de seus moinhos bacteriológicos, com os quais os cavaleiros e seus fiéis escudeiros se digladiam. Desculpe, mas vou tentar uma nova estratégia para entender essas inversões de valores e abusos contra nossa classe. Como isto é uma obra de ficção, vou dormir e sonhar com o mundo das bactérias para tentar entender como funcionam as cabeças dessa gente ou as colônias que habitam nelas. Na próxima semana, acompanhe a saga e a vida na ótica de uma bactéria!



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