Doces portugueses são experiência divina do paladar

Guloseimas que eram preparados em conventos há séculos são uma experiência divina do paladar; para Belo Horizonte foram trazidos pela portuguesa Maria Fernanda Affonso há quase 30 anos

24/03/2013 13:29

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.

Gladyston Rodrigues/EM/D.A PRESS
(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A PRESS)
Papo de anjo, toucinho do céu, jesuítas, pastel de Belém, queijadas de nozes, pastel de Santa Clara, quindim. Em tempos de conclave, os nomes não são uma referência ao novo papa, Francisco, mas é uma alusão direta à cultura dos conventos tão forte em Portugal no século 15. Essas guloseimas fazem parte da doçaria portuguesa e são conhecidas na terra de nossos co-irmãos como doces conventuais, pois eram feitos por religiosas muito antes do Brasil ser descoberto e a iguaria aportar por aqui junto com a coroa portuguesa.


Toda a riqueza de um dos aspectos mais conhecidos da gastronomia portuguesa, tempos depois foi resgatada em Belo Horizonte por Maria Fernanda Affonso, portuguesa que nasceu em Namibe, na Angola, e que veio para o Brasil há quase 40 anos. “Nasci em uma fortaleza, uma região muito linda na ponta do deserto Kalahari. Vim para o Brasil devido à guerra, à disputa que China, Estados Unidos e Rússia travavam para dominar Angola, um país muito rico”, lembra-se. Em breve, ela deverá inaugurar a terceira loja Doces de Portugal no alto da Avenida Afonso Pena, no Bairro Mangabeiras, Região Centro-Sul da capital.


Ao chegar, em 1975, com marido e filhos a Minas, Maria Fernanda mal poderia imaginar que se encantaria pela produção de doces. Formada em engenharia química, foi depois de visitar uma amiga, em Campinas, que descobriu que a cozinha seria o lugar onde faria sua alquimia. “Não sabia fazer nada. Minha amiga portuguesa Ivone Monteiro também não sabia, mas sonhava em abrir um negócio. Ela tinha uma grande banqueteira na família. Quando fui passar alguns dias com Ivone, a banqueteira me ensinou”, lembra. A produção começou caseira, mas há 28 anos ela resolveu abrir a primeira loja no alto da Afonso Pena – para onde está voltando depois de mudar-se de endereço. “Não me esqueço das palavras de Anna Marina, uma das primeiras a reconhecer o meu trabalho. Ela escreveu que quem comesse os doces com os olhos fechados teria a nítida sensação de estar em Lisboa.”


Os doces portugueses são feitos à base de gemas de ovos, mas o grande segredo é que o sabor do ingrediente não apareça. “Em o todo mundo, são doces muito apreciados. Visualmente não são tão elaborados quanto a doçaria francesa, mas não tem iguais em termos de sabor.” Nos conventos, as claras eram usadas para engomar os hábitos e clarificar os vinhos, deixando as gemas para serem usadas de forma mais doce e criativa.


Em Portugal os doces são conhecidos como pastéis, portanto as pastelarias por lá são bem diferentes das brasileiras. “O doce é muito apreciado em Portugal, faz parte da cultura. Come-se muito por lá.” No lugar das frituras, uma infinidade de doces e o mais conhecido deles é o pastel de Belém, feito de massa folhada, creme de gemas e natas. Uma dica valiosa ao comer a iguaria é salpicar um pouco de canela sobre ele, que deve ser acompanhado de um bom café expresso. Outro bastante apreciado é o jesuíta, feito com massa folhada, creme e com uma cobertura de suspiro.


Para Maria Fernanda, o símbolo da união das culturas portuguesa e brasileira deveria ser o quindim. O doce não foge à tradição de ser preparado com gemas e recebe o coco, fruto tão popularizado na cultura brasileira. “Minas Gerais é um estado muito português, na arquitetura, na gastronomia, no jeito do mineiro. Os doces portugueses tinham que estar mais presentes nas cidades mineiras, porque fazem parte dessa história”, pontua.


O quindim preparado por Maria Fernanda levanta suspiros dos apreciadores. O segredo é fazê-lo cremoso e sem nenhum gosto de gema, conforme revela. Outro doce que merece destaque é o papo de anjo, um bolinho que não leva farinha, açúcar e é feito somente com as gemas. “O doce dele está na calda em que fica submerso.” O nome é inspirado nas papadas dos anjos barrocos, tão presentes nas igrejas dos séculos 17 e 18.

 

 

PAPO-DE-ANJO
40 unidades

 

::Ingredientes

1 kg de açúcar cristal (de preferência), 1 litro de água, 1 fava de baunilha, 24 gemas e 1 colher (chá) de fermento em pó

::Modo de fazer

Numa panela coloque o açúcar, a água e a baunilha. Leve ao fogo e mexa até dissolver o açúcar. Deixe ferver por 20 minutos até formar uma calda rala. Reserve. Bata as gemas com o fermento durante 30 minutos até ficarem fofas e claras. Coloque em forminhas pequenas de empada de 5 centímetros de diâmetro, bem untadas com manteiga, enchendo até a borda. Asse os papos de anjo em forno médio (180°C), preaquecido, até dobrarem de volume e ficarem ligeiramente dourados. Desenforme um por um, faça furos com um palito e junte-os à calda. Deixe esfriar. Coloque-os numa compoteira e leve para gelar.

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE GASTRONOMIA