Minas Gerais é tema da edição 2013 do Madrid Fúsion

Diretora-executiva do evento, Lourdes Plana liderou a comitiva que empreendeu a expedição gastronômica e escolheu o estado

por Marianna Rios 20/01/2013 13:37
Divulgação
"A gastronomia tornou-se uma grande oportunidade para o desenvolvimento social, cultural e econômico dos países" - Lourdes Maria, diretor-executiva do Madrid Fusión (foto: Divulgação)
O Brasil está representado no Madrid Fusión por Minas Gerais e essa escolha se deu quando a diretora do evento, Lourdes Plana, teve contato com pessoas que lhe contaram sobre o Festival de Gastronomia de Tiradentes, sobre o Comida di Buteco, o histórico e a tradição da culinária mineira e o esforço que há anos está sendo feito para promover a gastronomia do estado. E, já que o Brasil é muito grande e possui uma variedade imensa de culturas culinárias, ”quase como a Europa inteira”,
eles pensaram: por que não começar com um estado dentro de um país deste tamanho? E assim a gastronomia de Minas Gerais tornou-se tema central da edição de 2013 do Madrid Fusión, considerado o maior festival de gastronomia do mundo. Em entrevista exclusiva ao Degusta, a idealizadora do evento falou sobre a criação do festival, a importância da indústria gastronômica no mundo, seu potencial turístico e a importância de trocar experiências em um mundo globalizado.

Qual o propósito do Madrid Fusión, qual o objetivo dele?
O Madrid Fusión nasceu como um encontro internacional de cozinheiros, em que os chefs mais prestigiados do mundo pudessem ali trocar com seus colegas, profissionais de outros países, as melhores receitas, as novas tecnologias, filosofias e ingredientes – sendo um espaço também para debates de temas da atualidade gastronômica internacional. Desde o primeiro momento, ele se tornou o evento do ano para o mundo da gastronomia internacional. Um lugar para ver, ser visto, inteirar-se, aprender, trocar e conhecer as novas tendências. O intercâmbio, o compartilhamento e a ousadia dão a tônica dele. Nosso objetivo é mexer com a consciência dos cozinheiros.

Como o Madrid Fusión se transformou em um importante catalisador da evolução culinária?
Com seus organizadores viajando pelo mundo, analisando o que se passa em cada país e antecipando a partir dos resultados o que seria tendência. Nestes quase 10 anos, nós viajamos a lugares dos mais diversos, como Hong Kong, Cingapura, Austrália, América do Sul, América do Norte e Europa para fazer pesquisas, conhecer produtos, restaurantes e chefs e, principalmente, trazer estes chefs para cá. Madri virou um ponto de encontro para os gastrônomos.

Explique-nos como funciona esse intercâmbio de experiências dentro do festival.
Cada chef convidado tem algo a contar e que achamos interessante compartilhar com todos os profissionais. Simples assim. Já recebemos chefs do Canadá, Estados Unidos, México, Venezuela, Brasil, Peru, Austrália, Cingapura, China, Japão, Tailândia, Turquia e de quase todos os países europeus. Nós, da organização, pesquisamos, conversamos com amigos, nos informamos e convidamos os chefs que queremos ver no evento. Uma vez viajamos à Coreia do Sul e conhecemos técnicas espetaculares. Então decidimos trazer chefs coreanos e, posteriormente, o governo do país quis participar ativamente. Quando isso acontece, é fantástico. A cozinha coreana entrou para valer no cenário internacional, ganhou presença em restaurantes na Espanha e recebeu uma publicidade muito importante. E assim acontece com outros países.

Qualquer pessoa pode participar do Madrid Fusión ou ele é dirigido a um público específico?
Dado o nível das aulas, das demonstrações e dos debates, o evento se torna mais direcionado a um público iniciado no assunto, mas as pessoas de uma forma geral podem participar sim.

Qual é a importância da gastronomia no mundo de hoje, especialmente do ponto de vista econômico?
A gastronomia se converteu em uma mola propulsora de desenvolvimento para qualquer país. Isso porque as pessoas quando decidem viajar a um determinado país ou cidade, pensam primeiramente em qual restaurante vão comer. A comida faz parte da cultura de cada povo. Dessa forma, a boa gastronomia é um atrativo, sendo às vezes decisiva para eleger um destino turístico. Além do mais ajuda a desenvolver a indústria agroalimentar por divulgar o produto de cada pais. No caso da Espanha, por exemplo, a notoriedade de sua culinária, conquistada por nomes como Ferran Adriá e Andoni Aduriz, vem atraindo turistas e estimulando a compra de produtos e serviços do ramo. Tudo isso aquece a economia e alcança desde os grandes restaurantes até as pequenas pousadas e produtores, as cooperativas de produtos típicos, os órgãos reguladores da qualidade, em uma longa cadeia produtiva.

Por que a cozinha brasileira foi escolhida e através de Minas Gerais?

Viajamos pelo mundo descobrindo cozinhas pouco conhecidas por outros países ocidentais. E o Brasil, como tantas outras nações sul-americanas, tem uma diversidade de matérias-primas incrível. É um país tão grande, com dimensões mesmo continentais, que daí pensamos: por que não começarmos lá por uma região? E ouvimos falar tanto de Minas Gerais, do Festival de Gastronomia de Tiradentes, de sua grande diversidade e qualidade de produtos, que resolvemos viajar para conhecê-la de perto. Percebo que a cozinha brasileira vem subindo de nível há alguns anos nas mãos de chefs como Alex Atala. É uma culinária que vem se afinando, refinando e tornando-se internacional. Em Minas, ainda há muita tradição, mas também há uma geração reinventando essa cozinha. O Brasil é um país com potencial imenso, por sua variedade de produtos, cozinhas e regiões. Creio que Minas também tem este potencial.

Mas como, a partir de quais critérios, Minas foi selecionada pelo Madrid Fusión?
Levamos em conta a tradição da culinária mineira e o esforço que está sendo feito para promover a gastronomia do estado. Visitamos vários restaurantes em Tiradentes, e também de Belo Horizonte, conhecemos o Senac e sua formidável organização, o grupo da Conspiração Gastronômica, os botecos, também conhecemos os mercados, suas frutas , seus queijos, carnes, o café. Da mesma forma, estivemos em São Paulo, visitamos mercados e numerosos restaurantes, mas decidimos que, nesta edição, era a cozinha de Minas Gerais que seria convidada.

Como você qualifica a cozinha espanhola, o que ela pode oferecer ao mundo?
Criatividade, sonho, técnica, tradição. Matérias-primas extraordinárias e uma incrível e formidável diversidade. É, sem dúvida, uma das melhores cozinhas do mundo. A cozinha espanhola sempre se destacou, porque temos uma grande quantidade de matéria-prima, produtos variados, culinárias diferentes em cada região e sempre comemos muito bem. Mas ela não era tão conhecida e entrou na moda com a nova cozinha espanhola, que criou um estilo próprio no mundo, com nomes como Ferran Adriá, Juan Mari Arzak e Andoni Aduriz. A cozinha clássica ainda existe, mas as novas técnicas desenvolvidas na Espanha realmente mudaram a gastronomia mundial.

A senhora conhece a cozinha brasileira?
Conheço um pouco mais a cada dia. E aprecio cada vez mais.

Há quanto tempo a senhora está à frente do Madrid Fusión?
Desde a concepção. Fui a pessoa que juntamente com sócios iniciamos este projeto. Antes de dirigir o Madrid Fusión, trabalhei por 15 anos em uma empresa de gastronomia. Era diretora de uma revista especializada em gastronomia chamada Restauradores. Em visita a um congresso sobre o tema em San Sebastián (Espanha), chamado Lo mejor de la gastronomia, tive a ideia de propor ao meu editor, Manuel Quintanero, e a José Carlos Capel, que era meu amigo e proprietário de uma empresa de comunicação focada em gastronomia, a montar algo parecido. Mas na nossa concepção deveria ser um encontro internacional, porque neste momento do mundo precisávamos continuar olhando não só para o que fazíamos na Espanha, mas também para o que era feito no resto do mundo. O objetivo era unir cozinheiros espanhóis aos nomes internacionais. Não tínhamos noção do quanto o festival cresceria.

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