Confira os principais redutos de "comida ogra" em Belo Horizonte

Cidade tem variadas casas que colocam comida farta e benfeita na mesa

por Eduardo Tristão Girão 28/09/2012 08:29

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Euler Jr/EM/D. A Press
(foto: Euler Jr/EM/D. A Press)
 
A expressão “culinária ogra”, cunhada pelo jornalista André Barcinski e popularizada por adeptos fervorosos pela internet, pode soar como ofensa para quem a come ou a prepara. Entretanto, é um elogio à comida simples, farta e saborosa, alheia a qualquer modismo gastronômico. Nada a ver com falta de capricho, como atestam os 195 endereços selecionados por ele no recém-lançado Guia da culinária ogra (Planeta). São todos em São Paulo, o que inspira a pergunta: onde comem os “ogros” belo-horizontinos?

De acordo com alguns critérios apontados no livro, esses locais não podem ter nome começando por “chez” ou terminando por “bistrô”. A comida deve ocupar ao menos 85% da área total do prato e é proibido o uso de palavras como pupunha, redução e espuma no cardápio. Os garçons, preferencialmente “velhos e feios”, deve passar no “teste da colherinha”: servir arroz com uma só mão, juntando duas colheres e sem derramar um grão sequer. E sem chef; só cozinheiro.

Uma das referências em BH é a Cantina do Lucas, que completou este ano meio século de existência. O cardápio, com pratos de décadas atrás servidos em travessas, ajudou a tornar a casa um dos pontos de encontro mais famosos do Centro. Até hoje, saem da cozinha talharim à parisiense (com frango desfiado, presunto e ervilha; R$ 39,40), filé à parmiggiana (com purê de batata; R$ 52,90) e o filé surprise à moda (R$ 56,70), à milanesa e recheado com presunto e muçarela, servido com arroz, banana, batata frita e dois ovos fritos.

Todos esses pratos pesam mais de um quilo e servem duas pessoas, mas há quem coma um deles sozinho, conta o proprietário da casa, Edmar Roque, que também comanda a Casa dos Contos, outro endereço “ogro” de BH. “Mineiro gosta de fartura e, nas minhas casas, dou muita importância ao bem servir em termos de quantidade. O sujeito chega e sabe que vai comer bem. As cozinhas sofisticadas cansam um pouco. Há coisas que sempre serão boas de comer”, avalia ele.

Batata Levar em conta o clamor da freguesia por fartura é indispensável, mas algumas vezes isso reflete preferência pessoal do proprietário do restaurante, caso de José Maria Rocha, o Bolão, sócio da casa que leva seu apelido, no Santa Tereza. “Não gosto de comida sofisticada, aquela que vem só um pouquinho no prato. Gosto de comer um só prato e farto, sem repetir. PF mesmo. Sempre fui assim. É de família. Minha mãe era gordinha, cozinhava muito bem e adorava comer. Éramos pobres mas comíamos bem”, conta ele.

Ícone dessa vertente culinária na cidade, o rochedão (R$ 15, individual) é o prato mais famoso da casa e beira os 800g (mesmo sendo individual) caso o freguês opte pela versão especial (R$ 19, com uma guarnição extra): arroz, feijão, batatas fritas, macarrão à bolonhesa, ovo frito e bife. Outro clássico “ogro” do local é o mexido com torresmo e batatas fritas (R$ 14,50). Sobre as fritas, ressalta, Bolão, nunca são das industrializadas congeladas, mas sempre preparadas a partir de batatas frescas na cozinha do restaurante.
 
Desafio Atualmente, as hamburguerias gourmet estão em profusão pela cidade, mas isso não resultou na extinção das casas mais tradicionais, que fazem a versão (de trêiler) do sanduíche, com milho, batata palha e frango desfiado (além dos bifes) saindo pelo ladrão – e ficando no fundo do saquinho, pois não é servido em prato. Embora alguns desses trêileres tenham se transformado em lojas, boa parte resistiu à moda anos 1950 ao decorar o ambiente.
 
Andre Hauck/Esp. EM.
Edmar Roque, proprietário da Casa dos Contos e da Cantina do Lucas, conta que há clientes que comem um prato de 1kg sozinhos (foto: Andre Hauck/Esp. EM.)
 
Como harmonização é uma palavra não muito bem-vinda no mundo ogro, a combinação de ingredientes nos sanduíches é algo feito de maneira totalmente livre. No Renato Fine Burger (que não resistiu e inclui “Fine” ao nome há alguns anos), prova disso é x-tudo (R$ 18): no “primeiro andar”, hambúrguer de carne, queijo, abacaxi, frango desfiado e presunto; no segundo, hambúrguer de frango, bacon, ovo frito, milho verde, alface, tomate e batata palha. Meio quilo de sanduíche, fora os possíveis acréscimos.
 
“Tem gente que não consegue comê-lo inteiro. Inclusive homens”, revela Daniel Nápole, proprietário da casa. Os mais gulosos podem tentar a sorte no desafio proposto por ele: quem conseguir comer três x-tudo em uma hora, não paga nada. Em 20 anos, apenas seis pessoas tiveram sucesso, sendo a última delas há dois anos, feito conseguido por um jogador de vôlei que ainda deu conta de beber meio litro de refrigerante. “Toda semana aparecem aqui uns três para tentar”, diverte-se Daniel.

ONDE COMER

» BOLÃO
Praça Duque de Caxias, 288, Santa Tereza, (31) 3463-0719. Seg. a qui., 11h/3h; sex. e sáb., 11h/6h; dom., 11h/17h.

» CANTINA DO LUCAS
Av. Augusto de Lima, 233, loja 18, Centro, (31) 3226-7153. Seg. a qui., 11h30/2h;. sex. e sáb., 11h30/4h; dom., 11h30/1h.

» CASA DOS CONTOS
Rua Rio Grande do Norte, 1.065, Savassi, (31) 3261-5853. Seg. a qui., 11h30/2h;. sex. e sáb., 11h30/4h; dom., 11h30/1h. 

» RENATO FINE BURGUER
Avenida do Contorno, 6.854, Lourdes, (31) . Dom. a qua., 18h/2h; qui., 18h/3h; sex. sáb., 18h/3h.
 
Andre Hauck/Esp. EM.
Filé Olímpio da Cantina do Lucas e X-Tudo do Renato Fine Burger (foto: Andre Hauck/Esp. EM.)
Três perguntas para... 
 
André Barcinski
autor do Guia da culinária ogra 
 
Além da comida boa e farta, o que mais os bares e restaurantes ogros ofertam de interessante ao visitante curioso? Por que visitá-los pode ser um programa especial?
Cada um tem sua particularidade. Pode ser o ambiente, pode ser o inusitado. O Galinhada do Bahia, em São Paulo, por exemplo, fica nos fundos de uma vila e o restaurante se confunde com as casas dos moradores. Gosto muito dessas particularidades.

A clientela pode influenciar o nível de “ogrice” de uma casa? Um restaurante pode deixar de ser ogro se passar a ser ponto de encontro hipster, por exemplo?
Claro que pode. Um grande risco é o lugar ficar famoso e querer “modernizar” o cardápio, por exemplo. Isso ocorre e é muito triste. Nunca tive coragem de ir ao Acrópoles quando abriu nos Jardins.
 
A concepção de comida ogra parece atingir diretamente o coração das pessoas. É possível dizer que essa grande identificação é sinal de que elas querem de volta a simplicidade no prazer da gastronomia?
Acho que é uma questão proustiana, de volta àquela sensação deliciosa de quando você está descobrindo sabores e aromas. Gosto de ir a esses lugares porque, além de boa comida, me passam uma sensação de honestidade e simplicidade.

Outras casas “ogras” de BH

BHAGWAN
Frescura é palavra que, definitivamente, não se aplica a este restaurante indiano. Dos humildes jogos americanos sobre as mesas ao atendimento, geralmente feito por imigrantes que ainda não dominam o português. O ambiente informal e o preço (mais baixo que o da concorrência) faz com que a casa esteja frequentemente lotada. Os pães são assados na hora e funcionam como entrada, bem como a porção de samosa, pastel típico com recheios variados (R$ 11, seis unidades), servido com chutneys caseiros. Pedido com guarnições, o frango ao molho de castanha de caju (R$ 23,90) serve duas pessoas. Rua Conselheiro Lafaiete, 771, Sagrada Família. (31) 3653-3000. Seg. a qui., 19h/23h; sex., 19h/0h; sáb., 12h/16h e 19h/0h; dom. e fer., 12h/17h e 19h/22h. 
 
CAFÉ PALHARES
Casa que já passou dos 70 anos de funcionamento, vive com seu balcão cheio. O motivo quase sempre é o mesmo, o kaol (R$ 11, individual), um dos PFs mais famosos da cidade, ao lado do rochedão do Bolão. Inicialmente, o prato era servido aos funcionários na época em que o bar funcionava 24 horas por dia, composto por cachaça (o k é puro charme), arroz, ovo e linguiça. Mais incrementado, hoje leva arroz, farofa, couve, torresmo, ovo frito e linguiça, que é produzida diariamente no local - a branquinha é vendida à parte. Cada prato é montado enquanto seu respectivo ovo é frito. Rua Tupinambás, 638, Centro. (31) 3201-1841. Seg. a sex., 7h/23h; sáb., 7h/22h.

CHOPP DA FÁBRICA
O mexido da casa (R$ 14,80, individual) é famoso, feito com linguiça caseira, mas algumas criações dos proprietários também chamam a atenção, sem resvalar em modismos. Passam longe deles o parmiggiana de espaguete (R$ 27,90, para duas pessoas), bife empanado coberto com espaguete à bolonhesa e muçarela; e a polenta à mineira (R$ 13,20, individual), espécie de angu à baiana com muçarela e couve fatiada. Para petiscar, variedade é o que não falta nas gamelas, a exemplo da “do ti Paulo”, que reúne pão de queijo frito, bolinho de feijão, batata frita e fraldinha de porco acebolada (R$ 42,80, para quatro pessoas). Avenida do Contorno, 2.736, Santa Efigênia. (31) 3241-1766. Seg., 11h/2h; ter., 11h/3h; qua., 11h/4h; qui. e sex., 11h/5h; sáb., 12h/5h; dom., 12h/3h.

LA TRAVIATTA
É outro santuário de pratos tradicionais, especialmente de massas (lasanha, canelone, ravióli), como o fettuccine com paillard (R$ 29, individual), a popular massa ao molho cremoso coberta por bife batido até ficar bem fino. Outras pedidas do gênero são o brochete de filé com arroz à grega e batatas fritas (R$ 36, individual) e o turnedô ao molho de pimenta com batata sauté e arroz (R$ 36, individual). Também serve pizzas (R$ 27, em média; 25cm, cada). Aberto em 1987, fica num casarão histórico. Avenida Cristóvão Colombo, 282, Savassi. (31) 3261-6392. Seg. a sex., 12h/15h e 18h/0h; sáb., dom. e fer., 12h/0h30.

MARIA DAS TRANÇAS
Se o serviço em travessa também conta para que um restaurante seja ogro, a casa segue a regra à risca. O frango ao molho pardo, especialidade da casa, é vendido sempre completo (com todas as partes da ave) numa vasilha de inox, cercada por travessinhas rústicas de alumínio, arroz, quiabo e angu - este último é sempre frio, atendido a pedidos dos próprios fregueses (já tentaram servi-lo quente, mas não deu certo). Os preços do pratos variam entre R$ 56,40 e R$ 287,50), dependendo de quantas pessoas vão comer. Pelos mesmos valores, é possível comer o frango nas versões com quiabo; ensopado; com fubá à moda caipira; e frito com cebola e farofa. Rua Professor Morais, 158, Funcionários. (31) 3261-4802. Seg. a sáb., 11h/1h; dom., 11h/22h.
 
MERCEARIA MELLO
Apesar de ser relativamente novo, o restaurante ocupa antiga mercearia do bairro, aberta em 1963, e tem no cardápio muitos pratos clássicos, servidos à moda antiga. Um dos melhores exemplos é o filé à parmiggiana, gratinado com molho de tomate e queijo na própria travessa até o purê de batata que o envolve começar a dourar (R$ 49,90, para duas pessoas). Outra pedida do tipo é o filé à Oswaldo Aranha, servido pelo mesmo preço. Também serve pizzas (cerca de 40 sabores), além de petiscos e, na hora do almoço, pratos executivos. Rua do Ouro, 331, Serra. (31) 3221-4022. Seg. a sáb., 9h/0h; dom. e fer., 9h/23h.

NINO
As pizzas da casa, aberta há 30 anos, são estilo velha escola: massa mais grossa e recheio abundante. A mais generosa é a Nino especial (R$ 52,50, 35cm), feita com muçarela, lombo canadense, cogumelo, bacon, palmito, tomate, milho e azeitona. Além das redondas, o cardápio lista muitos pratos (sempre em travessas) de antigamente, como medalhão de filé com bacon, molho madeira, purê de batata e arroz à piemontesa (R$ 82,90, para três pessoas) e outros que não saem de moda, caso da picanha à moda (850g de carne) fatiada com arroz, batata frita, farofa e vinagrete (R$ 91, para três ou quatro pessoas). Tem estacionamento e playground. Rua Coronel José Benjamin, 824, Padre Eustáquio. (31) 3464-8085. Seg. a qui., 11h/14h30 e 17h/0h; sex. e sáb., 11h/1h; dom., 11h/0h.

REI DO TORRESMO
Não é um pequeno balcão qualquer. Quem encosta ali vai comer exclusivamente torresmo. De um lado da estufa fica o torresmo tradicional, em pequenos bocados (R$ 13, porção), e do outro, o torresmo de barriga, carnudo e inteiro (R$ 6,50). Geraldo Magela Campos, um dos proprietários do bar, chega de manhã cedo para começar a fritá-los. Praticamente tudo o que será vendido no dia é frito neste momento. Cada panelada demora cerca de duas horas no óleo quente para ficar no ponto ideal. Todo o torresmo é comprado no próprio mercado. Avenida Augusto de Lima, 744, Centro. (31) 9302-9552. Seg. a sáb., 8h/18h; dom., 8h/12h30.

 

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