Guardiãs dos tesouros de Minas: Maria do Freguesia e Maria do Sindicato contam seus segredos

Confira as receitas de pé de porco com molho de tomate e de doce de jiló

por Marianna Rios 31/07/2012 15:09

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Carlos Oliveira/divulgação
(foto: Carlos Oliveira/divulgação)

Duas Marias que nasceram, cresceram e se casaram em Igarapé, Região Metropolitana de BH. Uma pequena cidadezinha próxima à capital, famosa por sua culinária rica em pratos típicos da gastronomia mineira. Curiosamente, o lugar tem significado de “caminho de canoa”. Mas que ninguém pense que essa “passagem estreita” seja irrelevante. Mesmo que o tamanho seja pequeno, igarapé é via importante, serve de ponte entre ilha e terra firme. Não é à toa que o festival gastronômico, que encerra sua programação hoje, com uma “oficininha de culinária” para crianças, depois de quatro dias de intensa agenda gastronômica, escolheu como protagonistas essas senhorinhas respeitosamente chamadas “mestras de culinária”.

Segundo seu idealizador, Carlos Oliveira, é uma forma de homenagear as guardiãs da cultura mineira de beira de fogão, que colhem a matéria-prima em seus próprios quintais e preparam os alimentos no fogão a lenha. “O objetivo do festival não é somente o resgate, pois a cultura dos quintais e esses pratos fazem parte do dia a dia dessas senhoras. A força dessa cultura sobrevive mesmo com a grande oferta dos supermercados e com os prédios sendo construídos em volta. O que queremos é que isso não se perca”, explica Oliveira.

Maria José dos Santos, o Maria do Freguesia, como é conhecida, de 82 anos, nasceu e sempre morou em Igarapé, teve 12 filhos, vivos hoje só 10. É avó de 24 netos e quatro bisnetos. Essa Maria participa do festival com o famoso pé de porco com molho de tomate. Maria conta que sua vida inteira está ligada à cozinha. “Comecei com 8 anos a acender o fogo, colocava a lenha, a palha, usava um pouco de gordura, não tinha papel nem álcool”, rememora.

Na época de Maria, ajudar em casa era normal. Era dela a tarefa de limpar o arroz, bater o feijão, debulhar o milho e a fava para fazer doce. Com isso, foi observando e aprendendo. Depois, só de memória, fazia biscoito, canudinho, bolo de fubá, bolinho de feijão miúdo para vender. “Vendia no campo de futebol”, comenta. Hoje, o cotidiano de Maria é cozinhar, preparar quitandas e cuidar do seu quintal. O que adora fazer na companhia de um dos netos. Orgulhosa, diz que cozinha, com prazer, para a família toda e que suas filhas aprenderam com ela o ofício – que também desempenham com amor. O que a mestra mais gosta de preparar são os guisadinhos, misturas com cansanção, engrossadinho (caldo feito com farinha, de mandioca ou de milho), carne de porco ou frango. Para ela, o Igarapé Bem Temperado é um sonho que se tornou realidade, por isso adora participar, sem competir, deixa claro. “No início, o festival tinha um concurso, eu ganhei, mas pedi para não ter mais, se fosse ter competição eu não participaria mais, não me senti bem em saber que tinha ganhado porque penso que todas as mestras são vitoriosas”, explica.

Uma vida Maria Nunes da Silva, a Maria do Sindicato, de 79, também nasceu e sempre morou em Igarapé, tem seis filhos, 10 netos e dois bisnetos. No festival, seu doce de jiló é atração à parte. Como a colega xará, vive a culinária a vida inteira. Diz ter mais de 60 anos de cozinha. Subia no caixote para aprender, já que não tinha tamanho e nem idade para alcançar o fogão. “Eu gritava a mãe para poder tirar a panela do fogo de arroz, feijão, mamão verde refogado, tinha uns 7, 8 anos”. Essa mestra Maria aprendeu a matar frango cedo, lembra de ir à bica d'água para lavar e picar o bicho. No tempo dela, as moças tinham de saber cozinhar para arrumar casamento. Ou era assim, ou ficava “no caritó”. Desse infortúnio ela ficou livre, assim como uma das filhas casadas que mora com ela.

Aliás, a casa de Maria é o lugar preferido dos filhos – ainda mais quando faz fava, gororoba, salada de beldroega, caruru de porco. Aí, diz, vêm todos! Maria não tem preferência de nada. Para falar a verdade, gosta de cozinhar de tudo. Mas não esconde o prazer de fazer biscoito no forno a lenha, que ela mesma construiu. Lá também prepara quiabo, mostarda, muitos dos guisadinhos que faz, sem contar as folhas com as carnes. E é com o mesmo entusiasmo que fala do Igarapé bem Temperado, na sua opinião, fundamental para a cidade, “tanto para nós que cozinhamos, como para as outras pessoas. É a nossa cultura”, elogia, sem esconder o apreço pela fonte de renda que o festival acende e que faz do seu doce de jiló, a cada edição, objeto de desejo entre os visitantes.

Para ela, é uma maneira de unir as pessoas e reforçar a cultura de família. “Espero que os mais jovens que estão entrando possam valorizar as nossas raízes”, reforça. E que ‘dona Maria’ e os leitores do Degusta possam continuar provando por muito tempo os sabores de Minas.

Pé de porco com molho de tomate
(Receita da mestra Maria do Freguesia)


Ingredientes
6 pés de porco picadinhos;
6 tomates bem maduros;
2 pimentas malaguetas;
3 colheres (sopa) de fubá; 3 dentes de alho; 1 pitada de açafrão; sal, cebolinha e salsinha a gosto;
2 galhinhos de alecrim

Modo de fazer
Coloque o tempero de alho e sal na gordura de porco bem quente, refogue os pés de porco até dourarem. Tire o excesso de gordura e coloque água quente até cobrir. Deixe cozinhar bem. Acrescente o molho de tomate, coloque os galhinhos de alecrim e pimenta a gosto e uma pitada de açafrão. Em ½ litro de água, dissolva o fubá e misture na panela para engrossar um pouco o caldo. Coloque em uma travessa funda e salpique cheiro verde picadinho. Sirva com angu,
feijão e arroz.


Doce de Jiló
(Receita da Mestra Maria do Sindicato)


Ingredientes
24 jilós (graúdos); 3 xícaras (chá) de açúcar; 3 xícaras (chá) de água; 6 cravos-da- índia; 2 lascas
de canela

Modo de fazer
Tire as pontinhas dos jilós, descasque-os e rale em ralo grosso. Coloque em uma vasilha com água e esfregue bem para soltar todas as sementes. Deixe o jiló ralado em uma vasilha com água durante pelo menos 24 horas, vá trocando a água de duas em duas horas até sumir o amargo. Depois disso, afervente o jiló e escorra. Coloque em uma panela o açúcar e a água e ferva mexendo sem parar. Acrescente o jiló ralado, os cravos, a canela e vá mexendo até cozinhar bem. Sirva gelado com
queijo de minas.

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