Descubra quem é a mente criativa por trás dos figurinos de Game of Thrones

Figurino da série revela spoilers e vira febre na cena fashion mundial. Estilistas e redes de varejo apostam na temática, que já chegou à badalada Semana de Alta Costura de Paris

por Laura Valente 21/08/2017 14:31
HBO/Dvulgação
Da primeira à sétima temporada, a mãe dos dragões já mudou de estilo pelo menos quatro vezes (foto: HBO/Dvulgação)

Caminhando para a reta final com a exibição de episódios da sétima e penúltima temporada, a supersérie Game of thrones (HBO) arrebata milhares de fãs. Apesar da guerra de spoilers na web, GoT vem batendo sucessivos recordes de audiência aos domingos. Nada menos de 10,7 milhões de espectadores acompanharam o último episódio. Afinal de contas, interessa mesmo a tanta gente saber antes o que vai ocorrer com os personagens da trama de George R. R. Martin? Fã que é fã acha que sim.

Esses aficionados observam os detalhes e fazem a própria leitura dos próximos capítulos, sem depender de vazamentos na internet. Muitas vezes, criam teorias. Para os mais antenados, uma boa ideia do que está por vir pode ser revelada pelo figurino assinado por Michele Clapton, vencedora do prêmio Emmy em 2012, 2014 e 2016. Sim, os looks de Daenerys Targaryen (Emília Clark), Cersei Lannister (Lena Headey), John Snow (Kit Harington) e Sansa Stark (Sophie Turner) revelam a evolução do enredo, indicando o que se pode esperar para breve.

Exemplo disso está no guarda-roupa de Dany. Da primeira à sétima temporada, a mãe dos dragões já mudou de estilo pelo menos quatro vezes. “No começo da série, ela vive a maior parte do tempo com alguém – inicialmente, o irmão – dizendo-lhe como se vestir. A partir do casamento com Drogo, ingressa na sociedade dothraki e o figurino evolui, trazendo um pouco mais de enfeites. Viúva, ela vive o nascimentos dos três “filhos”, compra o que parece ser uma pele de dragão para construir trajes, adota o espartilho como símbolo de poder e passa a criar o próprio visual”, explica Clapton no livro Game of thrones, de Bryan Cogman (Leya, 192 páginas).

Dany já exibiu vestuário em tons de azul, cinza e branco, mas agora adotou tons de carvão e vermelho, assim como acessórios que revelam o símbolo da Casa Targaryen, o dragão de três cabeças. Dá a ideia de que, finalmente, está pronta para lutar pela coroa que pertenceu ao pai, o Rei Louco. “Nessa altura, não é a feminilidade, mas a força que está em jogo”, lembra Michele Clapton.
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Os trajes de Cersei são enriquecidos com bordados em prata e ouro, muitas vezes em forma de spikes ou detalhes 'bélicos' (foto: HBO/Dvulgação)

O estilo de Cersei também mudou. Apesar da nova gravidez, anunciada no último episódio, ela tem se vestido de preto (em luto pela morte dos três filhos). Os trajes são enriquecidos com bordados em prata e ouro, muitas vezes em forma de spikes ou detalhes “bélicos”, digamos. “A roda do vestido foi reduzida para que ela possa se mover com mais agilidade. Os bordados na parte de cima e os muitos leões adotados no lugar dos antigos pássaros aumentam a couraça da personagem, projetando a imagem de força”, revelou a figurinista.

Apesar de não participar da disputa direta pelo Trono de Ferro, Sansa exibe um figurino emblemático. Nascida no Norte e atualmente no cargo de lady de Winterfell, sede da Casa Stark, começa usando trajes em tons cálidos de azul que ela própria costura e borda. Quando parte para viver na corte, assume mais e mais traços de Cersei. Porém, depois de tudo o que passou, volta a exibir roupas mais de acordo com as próprias origens, espelhadas no estilo da mãe.

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A figurinista Michele Clapton é a mente criativa das roupas dos personágens épicos da série (foto: HBO/Dvulgação)
O símbolo que vem chamando a atenção na atual temporada é o cinto, que significa a retomada de controle sobre o próprio corpo depois da morte do algoz Ramsay Bolton (Iwan Rheon). Além do acessório robusto, vestidos justos e bem amarrados indicam que o corpo dela está fechado para Mindinho (Aidan Gillen), enquanto a capa remete à liderança que vem exercendo durante a ausência de John.

“É importante que os trajes espelhem a jornada individual de cada personagem. Sempre gosto de contar uma história por meio das roupas, isso ajuda os atores”, registra a figurinista.

VIDA REAL 
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O clã Stark vive em meio ao frio do Norte. Roupas em couro e peles para compor o figurino (foto: HBO/Dvulgação)

Apesar de, muitas vezes, haver semelhança entre as locações de GoT e a atmosfera de uma cidade medieval, Michele Clapton não se inspirou em nenhuma cultura ou povo específico para criar cerca de 700 figurinos exibidos em cada episódio. “Para vestir Winterfell, por exemplo, usei o Norte da Europa medieval como ponto de partida, mas as saias da vestimenta masculina têm ar japonês. Não nos prendemos a regras de nenhuma época em particular”, explica.

A figurinista misturou referências variadas e pensou também no aspecto não industrial da produção de roupas – obviamente, não houve revolução industrial ou tecnológica em GoT. “Na Muralha, sede da Patrulha da Noite, tudo tem de ser feito com o que conseguem nas proximidades. Então, há peles de animais que o próprio cavaleiro tinge de preto ao fazer o juramento. Outro exemplo vem da diferença entre os trajes dos Stark, mais austeros, e da corte, em Porto Real, cidade portuária de clima quente e ensolarado, onde se tem acesso a tecidos de cores diferentes, sedas e joias”, lembra.
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Jon Snow usa peles de animais que o próprio cavaleiro tingiu de preto ao fazer o juramento (foto: HBO/Dvulgação)



Na passarela e nas vitrines
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Daenerys Targaryen adota o espartilho como símbolo de poder e passa a criar o próprio visual (foto: HBO/Dvulgação)

Inspirado em uma realidade fantástica, o figurino de GoT é fruto da espetacular imaginação de Michele Clapton. O impacto já chegou à moda – real – deste século 21. Um dos exemplos mais badalados vem do estilista libanês Elie Saab, cuja coleção Um conto de reis caídos foi apresentada na última edição da Paris Fashion Week.

Saab admite a referência. “Em algum lugar entre a luz e a escuridão, há espaço para lendas’’, afirma o comunicado da marca. Nos modelos de veludo, musseline e tule, traços de GoT aparecem em bordados minuciosos, camadas de aplicações, acessórios e na exibição de um artesanato ornamental repleto de pérolas e penas, formando desenhos originais.

No quesito beleza, as modelos foram maquiadas com sombra dourada de efeito “natural”. Os cabelos soltos exibiram ondas iluminadas, pequenas tranças e fitas douradas imitando coroas.

TUTORIAL 

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A corte em Porto Real, cidade portuária de clima quente e ensolarado, onde se tem acesso a tecidos de cores diferentes, sedas e joias (foto: HBO/Dvulgação)

Nos últimos dias, a rede sueca Ikea, especializada em artigos para a casa, aproveitou a fama da série para vender um tapete. Inclusive, apresenta tutorial no Facebook ensinando a transformar o produto “em uma capa igual à usada pelo Rei do Norte”.

A marca de beleza The Catch 96 lançou um jogo de pincéis para maquiagem alusivos à série. A própria figurinista Michele Clapton assina uma coleção de joias, em parceria com a grife MEY Designs, inspirada na personagem Daenerys Targgaryen. Com 26 peças, a linha traz a gargantilha em formato de dragão como destaque – vendida por US$ 2.010 no site da marca.

Em entrevista à Harpers Bazaar’s britânica, a figurinista destacou a importância de Denny para os fãs. “A personagem tem apelo entre homens e mulheres. Os dois se sentem atraídos por ela, que é tão linda, mas ao mesmo tempo complicada e dinâmica. Ela simplesmente pareceu ser o veículo perfeito para lançar a coleção”, explicou.
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Michele Clapton afirma não tentar influenciar uma época apenas ao desenhar os figurinos das mulheres fortes da série da HBO (foto: HBO/Dvulgação)

No Brasil, a rede varejista Renner lançou camisetas baseadas na atração, tema também abordado pela estilista Glória Coelho. “Já me inspirei em duas séries, Game of thrones e The crow, ambos os figurinos, coincidentemente, assinados por Michele Clapton. Essa menina, com certeza, tem uma sensibilidade da qual gosto muito”, diz. Veterana da cena fashion, Glória diz que não há dúvida de que o cinema influencia a moda – e vice-versa.

“A moda tem os próprios códigos da época, que inspiram as telas e fazem com que o público entenda aquela mensagem. Assim como a música, a arquitetura e a decoração, a roupa é a fotografia de uma década. Você vê isso claramente em uma produção”, observa.

Ao analisar GoT, Glória aponta como highlights as peles e os looks sobrepostos, “margelas”, como caracteriza, de aspecto selvagem, Essa influência, acredita, vai permanecer por muito tempo. “ Na realidade, o cinema, a imprensa, a moda e a rua são uma máquina só, um estimula o outro”, diz a estilista.

Pelo visto, GoT vai influenciar mais e mais gente por aí.

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