Moda mineira perde brilho e cor: grife Mary Design fecha as portas depois de 34 anos de atividades

Em depoimento emocionado nas redes sociais, a criadora da marca Mary Arantes se despede: "um ciclo se fecha". Saiba as causas que levaram a tradicional grife de bijuterias de Minas Gerais em encerrar as atividades

por Carlos Altman 20/03/2017 10:04
Juliano Figueiredo/Divulgação
A designer atribui a mudança de mercado e a crise no país os motivos da decisão de fechar a marca (foto: Juliano Figueiredo/Divulgação)

No início da noite de ontem, Mary Figueiredo Arantes anunciou em suas contas nas redes sociais a decisão mais difícil de sua vida: o fim da marca Mary Design. Quem a conhece de perto, sabe que a decisão de acabar com uma das grifes mais criativas do Mundo da Moda não seria fácil. As bijus são como ela mesmo diz: " o alimento da alma". Ao longo desses 34 anos, a marca, reconhecida no Brasil e no exterior tinha uma preocupação de poder deixar as mulheres mais confiantes de sua beleza e feminilidade.

As mulheres que usavam as peças da grife mineira, levavam em si um pouco da poesia e do encantamento da mente criativa da designer mineira. Para quem a conhece, sabe que será uma grande perda. Mas, a genialidade de suas criações serão sempre vistas em forma de colares, brincos e anéis por muitas gerações futuras. Para quem nunca ouviu falar dela, leia o depoimento emocionante que traduz quem foi e sempre será Mary Figueiredo Arantes Design



"Aos amigos, clientes, fornecedores, jornalistas, companheiros da Mary Design.
 
Anos atrás, quando ainda se escreviam cartas, recebi com muita tristeza a carta de fechamento da Printemps, da querida Sônia Pinto. O texto dizia dos pássaros que recebem as asas como fardos e aprendem a voar com elas. Guardei esta carta e dizia para mim mesma que, se algum dia isto acontecesse comigo, gostaria de me expressar com a mesma metáfora e com o mesmo afeto do pronunciamento.

O tempo passou, e eis que me vejo aqui, escrevendo, o que na verdade um dia imaginei que aconteceria: uma carta de encerramento da nossa amada marca, a Mary Design.

As histórias para contar são muitas, foram inúmeros os sonhos traçados e realizados, em conjunto com os clientes e fãs da marca. Com muito orgulho, a Mary Design foi, para tantos, uma forma de realizar pequenos e grandes sonhos em forma de produtos. Vivências maravilhosas que ficarão arquivadas, aqui dentro, no mais fundo da alma.

A Mary Design foi criada pela necessidade que sempre tive, de transformar o que estivesse à mão no necessário. Foi criando meu próprio estilo que criei a nossa marca. Desde o início minha intenção foi criar bijus diferenciadas, que fossem a princípio até difíceis de serem produzidas, mas que através deste gesto artesanal pudesse demonstrar todo nosso amor pelo fazer. E esse sempre foi nosso grande segredo, meu e de todos que aqui trabalharam: o amor pelo fazer.

Transformamos pequenos objetos, aparentemente desprezíveis, em produtos preciosos, com significado. Assim como o poeta Manoel de Barros, fazer o desprezível ser prezado é coisa que nos agrada.

As bijus sempre foram nossa forma de conversar com as mulheres. Percebemos que elas poderiam ser mensageiras, falar de sentimentos, carregar memórias, recordações. Gostaríamos que nossas bijus trouxessem encantamento a quem as visse e mais ainda em quem as usasse. Nos últimos anos, quando abrimos o showroom também como loja, estreitamos nosso contato com o consumidor final, o que me deu ainda mais a certeza de que fomos amados e fizemos o melhor que podíamos.

Fiz 60 anos recentemente, e essa idade mexeu muito comigo, não pelo fato de envelhecer, mas pelo aspecto de pensar no quanto de estrada percorri e o quanto ainda tenho à frente. Hoje vejo com clareza o quanto minha história se confunde com a da marca.

Saí do Vale do Jequitinhonha com onze anos de idade. O filósofo Cortella me disse uma vez que, no vale, quando se passa de cinco anos, a pessoa já é considerada imortal… Me disse também que a palavra dom, deveria ser chamada de dado, pois nunca é para quem o tem, é sempre para o outro. E foi assim que me senti este tempo todo, fazendo bijus. Como se carregasse um dom, uma missão, e a ela me dediquei fervorosamente, depositando todo amor do mundo nas coisas mais simples que fazia. Mergulhava fundo, em cada coleção, desfile, catálogo, texto…

Comecei a fazer bijus na adolescência, naquela idade em que ainda estamos nos formando como ser humano. Como uma retirante, sentia que era uma menina jequinha, que as amigas olhavam de forma peculiar. Foi aí que comecei a criar minhas roupas, meus acessórios e minha forma de ser. Foi aí que criei o que hoje chamamos de estilo, e que virou o DNA da nossa marca.

Em busca de materiais diferentes, fazia o que hoje é chamado de bate e volta. Estudava odontologia, e perder aula para mim, que era caxias, sempre foi um crime. Eram duas e as vezes três noites, dormidas em ônibus. Sempre acompanhada de um amigo, irmão, ou meu pai. Não tendo dinheiro pra pagar pensão ou hotel, tomávamos banho na rodoviária e embarcávamos novamente em outro ônibus. No outro dia, voltava direto pra faculdade. Os anos passaram, e vieram os voos internacionais, naquela época em que o estilista ia lá fora ver as tendências do mercado. Sempre odiei a palavra tendência, por acreditar que cabe ao estilista criar e ao mercado usar ou não... Plagiando Guimarães Rosa, sempre me senti à terceira margem do rio, sempre vi a moda de outra forma, como meio, como forma de expressão...

Lembro de uma época em que fiz para a novela das oito um colar de lacinho, usado na filha da Regina Duarte, e também um de boca negra, usado pela Priscila Fantin numa novela das seis. Quando ia às compras de material na 25 de Março, me ofereciam a cópia dos colares de sucesso das novelas... Nunca disse que eram meus, nem iriam acreditar. A ironia é que aos poucos fui assistindo essas mesmas lojas de materiais de bijus irem minguando, até acabarem. Toda vez que ligávamos para um fornecedor e ninguém atendia, meu coração ficava em luto.

Foram 34 anos de mercado, de lutas diárias. Ao lado do Moreco, atravessamos plano real, cruzado e muitos outros. Tempo por demais duradouro, afinal uma pequena empresa familiar conseguir sobreviver tanto tempo em nosso país, é algo louvável. Mas sinto que tudo na vida tem seu ciclo e que este se fechou. Às vezes precisamos sim, colocar um ponto final, para começar de outra forma.

A moda sempre existiu e sempre existirá, como algo indispensável a completar nossa essência e nossa identidade. Sinto que a moda está em meio à uma imensa mudança. Mas chegamos em um ponto em que o modelo da nossa empresa já não conseguia se adaptar às exigências do mercado atual.

O processo de fechamento começou há uns dois anos, com a demissão planejada, das principais funcionárias da empresa. Foram dias de muita dor e muito choro. Eram pessoas que conosco estavam há 20, 27 anos. Houve dias em que precisava de um guincho para me tirar da cama e acreditar que conseguiria seguir em frente. Hoje a dor está mais amena, vamos nos acostumando com tudo, até mesmo com as perdas. Mas as bijus sempre foram meu alimento, sou mulher guerreira, lutadora, vocês podem ter certeza que lutei até o fim.

Sinto que preciso agora, é de um tempo sabático, um tempo para arejar as ideias, oxigenar os pulmões, um tempo de mais prazer. Sei que tudo continua guardado dentro de mim, todas as tramas, todas as cores e toda a poesia da criação.

Agora estão em pauta novos e antigos sonhos, e contamos com o apoio de todos para o que está por vir. Ainda é incerto, mas contamos com vocês.Afinal, precisamos ter fé em algo, e colocamos a nossa em vocês: pessoas que cruzaram nosso caminho, que em nossa empresa trabalharam, clientes, representantes, corretores, que se dedicaram para que o melhor fosse feito. Sem vocês, nem teríamos existido. Deixo aqui meu abraço apertado em cada um e um agradecimento sem tamanho.

Mary, sobrenome Desáine."

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