Saiba tudo da Semana Ideia de Artes Negras que vai agitar BH em setembro

Juçara Marçal, Sérgio Pererê, Mateus Aleluia e Maurício Tizumba são destaques da Sian, que acontece na Idea Casa de Cultura

por Ângela Faria 29/08/2017 08:30
Leandro Couri/EM/D.A Press
O compositor Sérgio Pererê diz que há pouquíssimos negros nas plateias dos teatros de Belo Horizonte. (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

Quando sobe ao palco de teatros em Belo Horizonte, o cantor e compositor Sérgio Pererê repara: quase sempre, há raros negros na plateia. E isso não se deve ao preço dos ingressos, pois as apresentações ou são gratuitas ou têm entradas a preços populares. ''Há um apartheid cultural em BH, e a gente tem de pôr um fim nisso'', diz Pererê, lembrando que a maioria da população de Minas Gerais é negra – de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 53,5% dos mineiros se declaram pretos ou pardos. Por outro lado, a cena artística da capital está repleta de músicos, escritores, grafiteiros, atores, diretores, cineastas e produtores negros cujos trabalhos apresentam forte marca autoral, voltada para os desafios da contemporaneidade.

A Semana Idea de Artes Negras (Sian), que começa nesta terça-feira, 29, em BH, propõe-se a discutir essa produção e dar visibilidade a ela. Outro intuito é quebrar paradigmas que alimentam o apartheid detectado por Pererê, um dos curadores do evento. ''Muitos negros como eu gastam R$ 100 tomando cerveja com os amigos no bar, onde se sentem em casa. Não pagam o ingresso de um show, por exemplo, porque se sentem constrangidos em entrar num teatro, temendo não ser bem recebidos. Como se ali não fosse também o lugar deles'', comenta.

Sérgio Pererê afirma que paradigmas devem ser quebrados em diversas frentes, todas elas temas da Sian: discriminação ao negro na escola; perseguição às religiões afro-brasileiras; a apropriação predatória da cultura negra; e, claro, o racismo – incrustado no DNA da sociedade brasileira. O músico chama a atenção para o fato de o evento ser realizado em setembro – fora das tradicionais programações de maio, ligadas à abolição da escravatura, e de novembro, celebração da consciência negra. A ideia é ampliar a agenda e o calendário, não há por que limitá-los àqueles meses.

Luan Nobat, um dos organizadores da Sian, ressalta a importância de aprofundar questões relativas à contribuição dos negros à arte brasileira. E chama a atenção para o fato de que essa produção extrapola – e muito – a escravidão. ''Queremos deslocar a discussão para outros horizontes, mostrar que a nossa arte não se limita ao viés do racismo, evidenciando a autoralidade dos negros na produção contemporânea. Ela está também em outros ambientes'', diz.

CINEMA AUTORAL Nobat cita a mostra de cinema com trabalhos da produtora Filmes de Plástico, criada em Contagem. Os filmes abordam questões da juventude contemporânea, além de temas ligados à família e questões urbanas. O cinema autoral dos diretores André Novais Oliveira, Gabriel Martins, Maurílio Martins e Thiago Macedo Correia tem chamado a atenção do mundo. O curta Pouco mais de um mês (2013), de André, ganhou menção especial do júri no Festival de Cannes, na França. Em maio, Nada, de Gabriel Martins, estreou na Quinzena dos Realizadores de Cannes. Estrelado pela jovem rapper mineira Clara Lima, o curta fala da inquietação de uma jovem diante do desafio de se tornar adulta.

Não se trata de minimizar questões como o racismo, desafio a ser vencido por toda a sociedade brasileira, independentemente da cor da pele. Porém, Sérgio Pererê afirma que a arte criada pelos negros vai além ''do ranço da escravatura''. O multi-instrumentista e compositor deixa claro: ele não descende de escravos, mas de africanos, donos de rica cultura, trazidos à força para o Brasil.

Embora destaque a assinatura ancestral africana como uma das matrizes da cultura brasileira, Pererê enfatiza que o negro brasileiro criou algo próprio, que não se limita à mera reprodução do que veio da África. A programação da Sian vai ressaltar esse aspecto. ''O próprio candomblé não é a transposição dos rituais africanos pra cá. Aqui no Brasil, os orixás dançam juntos, diferentemente de lá'', observa. Tambores brasileiros têm forte influência da África, mas também diferem dos de lá, reforça.

A abertura e o encerramento da Sian terão atrações musicais que evidenciam esse rico processo. Nesta terça, a cantora paulista Juçara Marçal faz o show Anganga, parceria dela com o músico Cadu Tenório (RJ). O disco da dupla se inspira nos vissungos – cânticos de escravos que trabalhavam na mineração em Diamantina, recolhidos pelo filólogo e pesquisador mineiro Ayres da Matta Machado. Àquela sonoridade ancestral, também registrada por Clementina de Jesus, somam-se bateria eletrônica e sintetizadores, em diálogo instigante entre os séculos 18 e 21.

Sábado, 02/09, Sérgio Pererê se apresenta com o baiano Mateus Aleluia, fundador do grupo Os Tincoãs, que nas décadas de 1960 e 1970 mesclou samba de roda, candomblé e cantos sacros católicos. Aleluia morou muitos anos em Angola, seu trabalho é aclamado como joia afrobarroca da música brasileira. De acordo com ele, a fusão cultural se dava já dentro das caravelas, mesclando cânticos africanos e jesuítas.

Luan Nobat destaca a presença de especialistas mineiros e de outros estados na Sian, convidados para mesas de discussão sobre o racismo na educação básica; o ''eu negro afirmativo'' na poesia; a força da literatura produzida por mulheres negras; apropriação cultural; e a autoralidade negra na dramaturgia.

VERGONHA Apesar de mais da metade de seu povo se assumir preto e pardo, Minas tem vergonha de sua negritude, diz Pererê. Por outro lado, a cultura negra é cartão de visitas da Bahia e do Rio de Janeiro, por exemplo. ''Todo mundo quer conhecer o Olodum quando vai a Salvador, ou a escola de samba no Rio. Criado nas favelas, o funk carioca, há muito tempo, conquistou outros espaços, sobretudo na burguesia'', diz o curador da Sian.

Para ele, isso se deve à eficácia do marketing baiano e carioca. ''Em Minas, temos forte tradição – tambores, congado, etc. –, mas ela se liga ao sagrado e à religiosidade, sem dialogar com o marketing'', diz Pererê.

Porém, o ''apartheid mineiro'' tem sido enfrentado pelas novas gerações, destaca o curador da Sian. Jovens empoderados, orgulhosos de sua negritude, vêm conquistando espaço nas artes, nas escolas, na mídia, na militância e, sobretudo, nas ruas.

''Vivemos um novo momento, temos essa juventude antenada. O momento é agora, se quisermos, realmente, construir uma nova sociedade, realmente democrática'', defende Sérgio Pererê. E enfatiza: pôr fim ao racismo não é missão só dos negros. Cabe também aos brancos e eles estão convidados a se somar à Sian

SEMANA IDEA DE ARTES NEGRAS

TERÇA-FEIRA (29/8)

• 18h – Abertura da exposição Das favelas, inventário imagético-afetivo. Com Simone Moura, André Cavaleiro, Alexsandro Trigger, Bianca de Sá, Dea Vieira, Débora Costa, Gabriela Matos, Marcos Paulo de Jesus, Marcus Vieira, Rafael Freire e Ronald Nascimento. Feira de livros das editoras Nandyala e Mazza
• 18h – Painel coletivo de grafite. Com Wanata Elissiane Rodrigues Melo, Suellen Ribeiro Coutinho e Ana Cristina Assunção Leite
• 19h – Mesa ''A resistência das mulheres negras na produção literária''. Com Cidinha Silva, Jussara Santos, Madú Costa e Luana Tolentino
• 21h – Show Anganga, de Juçara Marçal e Cadu Tenório

QUARTA-FEIRA (30/8)

• 14h às 17h – Oficina ''Dramaturgia e autoralidade negra''. Com Maurício Tizumba
• 19h – Mostra de Cinema Negro de BH. Produções da Filmes de Plástico: Rapsódia para o homem negro, de Gabriel Martins; Quintal, de André Novais Oliveira; Constelações, de Maurílio Martins. Roda de conversa com os atores e Sérgio Pererê.

QUINTA-FEIRA (31/8)

• 14h às 17h – Oficina de literatura ''O ‘eu’ negro afirmativo na poesia brasileira''. Com Cuti 18h – Feira Ébano
• 20h30 – Mesa ''A cultura negra e a apropriação cultural''. Com Cuti, Maurício Tizumba, Stephanie Ribeiro, Cristal Lopez e Eduardo de Assis Duarte

SEXTA-FEIRA (1º/9)

• 14h às 17h – Cine de rolê. Exibição de Deixa na régua, filme de Emílio Domingos
• 18h – Feira Ébano
• 19h – Mesa de debates ''Combate e enfrentamento ao racismo na educação básica''. Com Luana Tolentino, Patrícia Santana e Cláudio Neto
• 21h – Show de Maíra Baldaia

SÁBADO (2/9)

• 14h – Oficina de leitura de portfólio de fotografia. Com Bianca de Sá, Dea Vieira, Débora Costa e Ronald Nascimento
• 18h – Feira Ébano
• 19h – Inauguração do painel de grafite criado por Wanata Elissiane Rodrigues Melo, Suellen Ribeiro Coutinho e Ana Cristina Assunção Leite
• 20h – Show de Sérgio Pererê e Mateus Aleluia

Idea Casa de Cultura. Rua Bernardo Guimarães, 1.200, Funcionários. Entrada franca. Ingressos disponíveis uma hora antes de cada evento. Informações: (31) 3309-1518

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