'Vamos subir a ladeira', afirma Juca Ferreira, que toma posse amanhã

Em entrevista, novo gestor da Cultura de BH afirma que quer 'estruturar a política pública' para a área, de forma que os eventos não consumam 'toda a energia e o recurso'

por Mariana Peixoto 20/06/2017 08:37
Agência Brasil/Divulgação
Baiano de 68 anos, Ferreira foi Ministro da Cultura nas gestões Lula e Dilma (foto: Agência Brasil/Divulgação)
Ele está chegando sozinho. Mas chega aberto para somar forças. Ex-militante estudantil, sociólogo e ambientalista, o baiano Juca Ferreira, de 68 anos, assume a Cultura de Belo Horizonte trazendo na bagagem dois mandatos como ministro da Cultura (nas gestões Lula e Dilma) e um período como secretário municipal de São Paulo (na administração Fernando Haddad, do PT).

Convidado por Alexandre Kalil (PHS), Ferreira chega a BH num momento determinante para a cena local. Depois da Reforma Administrativa ter sido aprovada na Câmara Municipal na última quarta-feira (14), só falta o prefeito sancionar a recriação da Secretaria Municipal de Cultura. Em 2005, durante a administração de Fernando Pimentel, a SMC foi extinta, dando lugar à Fundação Municipal de Cultura (FMC).

O novo gestor será empossado na presidência da FMC nesta quarta (21), às 11h. Na entrevista a seguir, Ferreira deixa claro que pretende levar a cultura local para outro patamar. “Tenho certeza de que a Secretaria de Cultura de BH vai chamar a atenção por estar no caminho certo. Enquanto outros estão perdidos...”


Quando chegar a Belo Horizonte, como pretende fazer o diagnóstico da situação cultural da cidade?
A primeira coisa que vou fazer é me reunir com os funcionários da Fundação Municipal de Cultura. São eles que, com condições precárias ou não, estão conseguindo segurar a onda da ação pública municipal. Preciso também me reunir com o governo para entender a situação. E ainda com a área cultural. Pretendo fazer muitas reuniões com todos os segmentos da cultura para que a gente possa arrumar o perfil de ação da Secretaria Municipal de Cultura. O momento atual é este. Na medida em que a Secretaria passar a existir, e sua criação agora é muito propícia, haverá um diálogo intenso com a área cultural, com ativistas culturais, investidores, imprensa. Quero trazer todo mundo para colaborar, pois quero fazer um trabalho de fôlego, profundo e amplo. E ainda há a área política. Preciso de apoio para o orçamento. E preciso de todos os segmentos da Câmara de Vereadores. Sem a Câmara, não haveria Secretaria. Quero me inteirar com eles suprapartidariamente, pois acho que a cultura não é questão de esquerda e direita, é de civilização e barbárie.

O senhor ocupou em São Paulo, entre 2013 e 2014, o mesmo cargo que vai ocupar em Belo Horizonte. Que semelhanças vê entre as duas capitais?
Pela formação histórica brasileira, cada cidade tem sua singularidade. No Sudeste, Belo Horizonte é diferente do Rio, é diferente de São Paulo. Cada cidade tem sua própria dinâmica e a diversidade que há em Minas é muito específica. Em relação às duas capitais, acho que há muitas semelhanças. Mas é preciso estruturar a gestão cultural, fazer uma participação responsável do Estado. Com a crise que o Ministério da Cultura está vivendo, depois do afastamento da Dilma, há um retrocesso monstruoso. É um crime. Políticas culturais bem-sucedidas estão regredindo a olhos vistos. O MinC está sendo comido por dentro, destruído. Boa parte do Brasil está destruindo o que se avançou em gestão cultural. E o prefeito Kalil está num movimento contrário, quer fortalecer a gestão cultural do município como uma forma de sinalização para o Brasil. Tenho certeza que a Secretaria de Cultura de BH vai chamar a atenção por estar no caminho certo. Enquanto outros estão perdidos...

Como foi a conversa com o prefeito sobre o aumento de orçamento para a Cultura?
Manifestei a ele que achei pouco, precisamos de um suporte mínimo. Sei que já houve uma aprovação para suplementação, mas ainda não sei de quanto. Ele me sinalizou que no próximo ano haverá uma formulação mais consistente. Agora, não vou me arriscar dizendo um valor mínimo. Cultura é álgebra superior. Na medida em que os setores forem sinalizando, vamos encontrar caminhos para as questões financeiras.

O senhor vai trazer alguém para a sua equipe ou manter a que já existe?
Não sei, estou pensando nisto. Tudo vai depender do diálogo que terei. Mas chego sozinho, não vai haver uma invasão de bárbaros. Minas é um dos centros culturais do Brasil, BH é uma das capitais mais importantes da cultura. Quais são os melhores grupos de dança do Brasil? Se alguém não incluir o Corpo nesta lista, por exemplo, vai demonstrar não estar bem informado. O teatro de Minas também tem importância nacional. O que acho é que falta uma certa organização da cena. Essa estruturação de apoio cabe ao poder público. E em geral, quando não existe uma política pública cultural, os eventos acabam consumindo toda a energia e o recurso.

O que o senhor quer dizer ao falar que “eventos consomem energia e recurso”? O que será dos grandes eventos culturais da cidade, como a Virada, o FIT, o FAN?
Não sou contra evento, sem evento não existe cultura. E cultura não é uma atividade esotérica que é desenvolvida às escondidas. A cultura precisa de palco, de luz, de infraestrutura para brilhar. Só que eventos descolados do processo não somam, não são produtivos. Quando cheguei à secretaria municipal de São Paulo, muita gente acreditou que a Virada fosse acabar. Pois fortalecei a Virada, pois acho que ela tem um papel importante em criar convivência com arte e cultura. Sou absolutamente favorável a ela. Vai ter Virada em BH, vai ter tudo o que tem e mais alguma coisa. Vamos subir a ladeira. O prefeito não criou a Secretaria de Cultura para a gente diminuir...

Como o senhor pretende dar visibilidade nacional para a cultura de Belo Horizonte?
Ela tem estatura para isso. Quando falo em BH falando de Minas, falo porque acho que as capitais brasileiras precisam se articular com a cultura do interior. A cultura urbana tem parte matricial no interior. Quando chegar a BH quero reativar essa relação para dar mais potência para a cultura e, evidentemente, dialogar com o Brasil. Fui convidado (para a pasta da Cultura) quando participava do Fórum Políticas Culturais em Debate, organizado pela Embaixada da França para discutir a gestão cultural (o encontro ocorreu no fim de maio, no Circuito Liberdade). Os franceses ficaram impressionados com a riqueza da cultura de Minas. É importante criar uma relação que gere frutos internacionais. Isto é uma das coisas que vou tentar dinamizar para a cena de BH.

Sua gestão pretende ser próxima da Secretaria de Estado de Cultura, com Angelo Oswaldo?
Temos uma relação excelente, sempre dialogamos, fosse ele prefeito, secretário. Parece-me que ele fez parte da conspiração para que eu fosse chamado para a Secretaria. Sei que artistas também chamaram, assim como pessoas da Câmara que trabalham com a cultura.

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