Primeira edição do Sai da Rede em BH apresenta expoentes de geração engajada "da internet"

Jovens têm trabalhos autorais, estilos variados e forte discurso político

por Márcia Maria Cruz 29/03/2017 07:00

Kelvin Yule/Divulgação
(foto: Kelvin Yule/Divulgação)
 “Com quantos gigabytes se faz uma jangada, um barco que veleje?” Os versos de Gilberto Gil na canção Pela internet faz brincadeira com o ambiente digital e com o quanto se pode viajar pelo mundo transformado em código binário. De lá pra cá, a rede se tornou cada vez mais parte da vida das pessoas e não poderia ser diferente para os artistas. Uma safra de novos compositores viu na plataforma digital oportunidade para dar visibilidade ao trabalho, expandindo fronteiras de suas cidades, estado e até país.


E a metáfora de entrar e sair da rede continua valendo para mostrar que, embora o ambiente digital e o off-line sejam mundos indissociáveis, não se pode negar a especificidade de cada um deles. Depois de ser realizado em São Paulo e Brasília, o projeto musical Sai da Rede chega a Belo Horizonte, com shows no Centro Cultural Banco do Brasil. De hoje a domingo,  se apresentam Carne Doce, As Bahias e a Cozinha Mineira, Rubel, Flora Mattos, Tássia Reis e Russo Passapusso. “A internet nos permite chegar às pessoas”, diz Russo, que faz parte da nova geração da música popular brasileira produzida na Bahia.

Quem abre os trabalhos hoje é a banda Carne Doce, que teve seu primeiro disco eleito como um dos melhores da música brasileira em 2014, assim como o álbum Princesa, que também ficou entre os melhores nacionais de 2016. Amanhã, é dia de As Bahias e a Cozinha Mineira. Formada em São Paulo, em 2011, a banda é composta pelos músicos Rafael Acerbi e as intérpretes Raquel Virgínia e Assussena Assussena. O nome da banda faz referência ao fato de as vocalistas, transexuais, terem o mesmo apelido, Bahia. O cozinha mineira vem de Rafael, que é mineiro.
Na sexta, quem se apresenta é o cantor e compositor Rubel, que apresenta músicas do álbum Pearl, lançado em 2013. Suas músicas transitam entre folk e MPB, com influência de Caetano Veloso, Jorge Ben Jor, Bob Dylan, Bon Iver e Fleet Foxes. Sábado é dia da MC Flora Matos. No domingo, Tássia e Russo comandam o palco.

Russo destaca os “mil braços” da internet: abre universo de referência para os músicos, possibilita a divulgação do trabalho e a interação do artista com o público. “São mil possibilidades de composição e divulgação. Por isso é importante saber o que se quer e não mudar com a maré”, pontua. Para não se deixar levar pelos gigabytes, Russo lembra que é preciso olhar atento à internet.

ENERGIA Para o show do Sai da Rede, ele vai apresentar músicas do trabalho solo Paraíso da miragem. Com 10 anos de carreira, Russo faz parte do Baiana System. Flerta com diferentes referências na música e em outras artes. No trabalho solo, em diálogo com Manoel de Barros, fala dos objetos que nos rodeiam. “A curadoria do festival é muito boa. Terá muita energia no palco.”

Tássia destaca a importância da rede para músicos independentes. “Meu primeiro single oficial, Meu rapjazz, foi lançado em 2013, na internet. As pessoas precisam se enxergar de alguma forma. Pode ser uma palavra ou pulsação. Música é energia”, recorda. Tássia se encantou pela cultura hip-hop por meio da dança urbana. Depois começou a compor. A sua música traz influências múltiplas: “Meu pai tinha um grupo de dança como os Jackson Five. Minha mãe gosta muito de samba e meu irmão cantava rap”, diz. A aceitação do single foi imediata e o clipe teve quase meio milhão de visualizações. No primeiro dia, ao chegar a 10 mil views, ela teve certeza de que acertara. Um ano depois saiu seu primeiro EP, batizado com seu próprio nome.

Os músicos convidados trazem à tona questões relacionadas ao combate ao racismo, ao machismo e à transfobia. “Sou feminista negra interseccional. Isso está em tudo o que eu penso e no meu trabalho”, diz, ciente da necessidade de empoderamento feminino. As Bahias e a Cozinha Mineira dá visibilidade às mulheres trans.

FESTIVAL SAI DA REDE
De hoje a domingo, no CCBB BH (Praça da Liberdade, 450, Funcionários,  (31) 3431-9400). Hoje, às 20h30, Carne Doce; amanhã, às 20h30, As Bahias e a Cozinha Mineira; sexta, às 20h30, Rubel; sábado, às 20h30, Flora Mattos; e, domingo, às 20h, Tássia Reis e Russo Passapusso. Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia).


TRÊS PERGUNTAS PARA...
Amanda Menezes, diretora artística do Sai da Rede

Qual é a importância da web para os músicos independentes?
Para os artistas mais jovens, que estão se lançando em carreiras independentes, a internet é fundamental. No mercado, mudou o papel das grandes gravadoras. O rádio e a TV, em comparação aos anos 1980 e 1990, não são mais a mesma coisa. Para os artistas jovens, a internet é o grande portal. Conseguem mostrar o trabalho. Quando gravam um EP, a primeira coisa que fazem é colocar na internet. Também fazem clipes bacanas e colocam no YouTube. A internet é uma grande ferramenta de divulgação do trabalho e alguns se destacam mais pela qualidade artística.

Como foi o processo de curadoria?
Faço o Sai da Rede desde 2011, junto com Pedro Seiler. Ele criou o projeto Queremos, em que se vende o show antes de ele acontecer. As pessoas reservam e possibilitam a vinda do artista, que tem garantia do cachê. Temos critério: tem que ser abrangente, Brasil inteiro. Artistas das cinco regiões do país. Na curadoria, uma de nossas preocupações é não ter um gênero musical preponderante. Buscamos diversidade de estilos. Todos são trabalhos autorais. Este ano, o que chama a atenção é o fato de que todos os artistas estão ligados a uma causa: empoderamento feminino, diversidade de gênero, questões sociais. São assuntos que estão aflorando e sendo debatidos pela juventude. O trabalho desses artistas não deixa de ser uma ação de resistência.

Como o festival tem sido recebido nas cidades por onde passou?
É um fenômeno. Temos ingressos esgotados todos os dias. Esses artistas têm muito público. É legal porque não estão cantando música de outros artistas. É o repertório deles. É só ter chance de mostrar no teatro. Cada um tem o seu público, só precisam de ter a chance de se apresentar em um teatro. E o público é totalmente diferente de um dia para o outro: idade, perfil social. A gente sempre quis trazer o Sai da Rede para BH, mas, quando começou o projeto, não existia o CCBB de BH. É uma chance para o público conhecer o artista que está na internet, mas que nunca o viu ao vivo. É outra experiência assistir ao vivo com boa qualidade de som e luz. É uma experiência mais rica.

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