O crooner da varanda

José Rodrigues usa a varanda de casarão antigo da Zona Sul de BH para soltar a voz. Sonho do aposentado é ser reconhecido como cantor

por Márcia Maria Cruz 17/11/2016 15:00

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A arquitetura eclética do casarão mais antigo do Bairro Funcionários e um dos primeiros de Belo Horizonte testemunha o sonho de José Rodrigues dos Santos, de 66 anos, de ser reconhecido como cantor, fazer artístico que ele aprendeu de maneira autodidata ao ouvir, na infância, os ídolos da era do rádio, como Nelson Rodrigues e Cauby Peixoto. Todos os dias, Juca, como é conhecido, se apronta como se estivesse num teatro e mantém a esperança de ser notado por sua voz e poder assim gravar as dez músicas que compôs ao longo da vida. 

De camisa xadrez e calça de alfaiataria, ele cuidadosamente se apronta. O palco é o alpendre do casarão com janelões, piso em ladrilho preto e branco original e portões de ferro do final do século 19. O ritual se repete nas manhãs, por volta das 9h: ele pega a caixa acústica - que comprou por R$ 1,5 mil -, o microfone sem fio. escolhe a música no pendrive e, como um bom crooner, solta a voz. A lista de interpretações é vasta, de Martinho da Vila a Frank Sinatra, passando por Roberto Carlos, principalmente na fase da jovem guarda – sendo o rei o seu cantor preferido. 

Márcia Cruz/EM
(foto: Márcia Cruz/EM)
Os cabelos brancos em contraste com a pele negra marcam o tempo que se passou sem que o desejo de juventude se realizasse. O ano de 1973 não lhe sai da memória, quando, a convite do então chefe da charanga do Clube Atlético Mineiro, foi se apresentar no Bar do Cacá. Recebeu pela apresentação. “O primeiro dinheiro que ganhei com a música. Foram 30 cruzeiros”, recorda. Cantou em muitos bares atendendo o pedido do público, com sucessos de Paulinho da Viola, Martinho da Viola, Agepê e Roberto Carlos. “Dei um canja nos shows do Marilton Borges”, recorda. Embora não saiba inglês, é fascinado por Frank Sinatra e gosta em especial de Let me try again. “O cantor é o meu professor. Pego a letra, escuto e aprendo com ele”, diz. 

Conta que tentou registrar as músicas no Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), mas foi orientado que só poderia fazê-lo se fossem 40. “Fico sem garantia da autoria das músicas. Se alguém gravá-las, sem minha permissão, não posso fazer nada se não estão registradas no Ecad.” José Rodrigues não se casou, mas teve um filho de um relacionamento na juventude: Sandro Aurélio Fernandes Rodrigues, de 43. Apesar de viverem em cidades diferentes, eles mantêm bom relacionamento. Também tem uma neta, Alice, de 9. “Falo para todos que meu filho é o meu presente. É um menino de ouro.” 

Márcia Cruz/EM
(foto: Márcia Cruz/EM)
Desde que inicio hemodiálise, há 23 anos, se mudou para o bairro Funcionários, se revezando entre o casarão da Rua Aimorés e outro da rua Timbiras onde ajuda a tomar conta do imóvel do médico Lício da Silva, a quem chama de doutor. José Rodrigues conheceu a família quando era jovem, aos 17 anos, e prestava pequenos serviços, como cuidar do jardim. Já morou com diferentes pessoas da família. Os mais de 40 anos fazem com que ele seja visto como um membro da família, como ele diz, e é confirmado por Odília Oberdá, de 88, a proprietária do casarão. “É como um irmão para nós. Olha como a voz dele é linda.” Ela conta que, como José morava no Bairro Ribeiro de Abreu, ficava difícil para fazer as sessões de hemodiálise três vezes na semana. Foi quando foi convidado por Lício para tomar conta. Solteira, Odília vivia no casarão com a irmã Ruth, que faleceu recentemente aos 94 anos. José Roberto é quem lhe faz companhia. “O casarão foi construído por meu avô Antonio Augusto d Souza Paraíso”, diz da casa que possui 10 cômodos e quatro janelões na fachada. 

Foi tombada pelo patrimônio público, mas a família não dispõe de recursos para restaurá-la. Seu sonho é que, com o reconhecimento na música, consiga dinheiro suficiente para comprar um lote e construir uma casa. “Sou muito bem tratado, mas vai que um dia eles vendam o imóvel. Tenho que ter uma coisa minha.” Devido à doença, ele é aposentado e ajuda Olídia na realização de trabalhos, como auxiliá-la no sacolão ou acompanhá-la no supermercado. O arquiteto Mauro Caetano, de 41, para para ouvir José Rodrigues. “Primeiro me encantei com a casa, que é linda, embora pouco conservada. Depois o vi cantar. Que voz maravilhosa”, diz. Para ele, ao vê-lo cantar foi transportado para os tempos áureos da cidade. “Mesmo não estando lá gostaria de ter vivido no tempo de ouro da cidade. É muita nostalgia.”

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