'O guarani', ópera de Carlos Gomes, ganha nova montagem no Palácio das Artes

Heroísmo, traição e redenção fazem parte da história do índio Peri e da filha de portugueses Ceci. Apresentações vão até o dia 20

por Walter Sebastião 08/11/2016 08:14

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Ramon Lisboa/EM/D.A Press
(foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)
Chega aos palcos a ópera O guarani, de Carlos Gomes (1836-1896). Inspirada em romance homônimo de José de Alencar (1829-1877), é considerada um marco da cultura brasileira, tanto pela importância do escritor como do compositor para a cultura nacional. A trama, ambientada no Brasil do século 16, onde os índios aimorés e guaranis estão em guerra, é atravessada por atos de heroísmo, traições e redenções. A montagem, que fica em cartaz de quinta-feira (10) ao dia 20 (em dias intercalados), no Palácio das Artes, conta com a Orquestra Sinfônica e Coral Lirico de Minas Gerais sob a regência do maestro Sílvio Viegas e tem direção cênica de Walter Neiva.

O guarani coloca no palco um dos casais românticos mais famosos do imaginário do Brasil: o índio Peri (Richard Bauer) e a filha de portugueses Ceci (Marina Considera). E o amor dela por ele, já que, para os cantores, a iniciativa da “paquera” foi de Ceci. “É um amor difícil que, na peça, se faz possível. Ceci é uma menina que se descobre uma mulher corajosa”, observa Marina, suspeitando que Ceci viu em Peri um homem bonito e corajoso. “A beleza de Ceci, diferente para um índio, atrai Peri. Existe atração física e eles se apaixonam. Sé é amor não sei”, pondera Richard. A relação tem significado simbólico: “É uma metáfora do que seria o início da cultura brasileira. Somos, apesar de todos os preconceitos, uma mistura de muitas etnias”, recorda Marina.

“Há uma dimensão heroica, no sentido romântico, nesta paixão”, observa Richard. O cantor explica que a peça tem como tema uma consideração sobre o amor (o platônico, o físico e o cristão), posta a serviço de um olhar sobre dramas humanos que fazem parte das grandes obras do período. Richard recorda ainda que a permanência do casal no imaginário brasileiro deve-se ao fato de que, até a primeira metade do século 20, a ópera era um gênero popular. Tanto que Ceci e Peri são evocados na marchinha de sucesso Touradas em Madri, de Braguinha. “É um casal icônico da arte brasileira”, brinca o cantor, acrescentando que se trata da peça mais famosa de Carlos Gomes, “o único compositor das Américas de ópera italiana”, que fez sucesso inclusive no exterior.

Marina considera está fazendo O guarani pela primeira vez. “Estou adorando. É um tema nosso, um compositor nosso. Interpretar uma peça assim dá um orgulho nacional”, explica, dizendo que sempre quis cantar Carlos Gomes. Richard Bauer está interpretando Peri pela segunda vez. Ambos os cantores destacam a beleza das melodias, “que ficam na cabeça do ouvinte”. “É uma música incrível, extremamente criativa, uma ópera que exige muito do intérprete, com vozes maleáveis e densidade da orquestra”, conta Marina. “O guarani não exige só voz, mas inflexões”, observa Richard. “Fazer uma obra de Carlos Gomes, para mim, é sempre uma emoção grande. Sou entusiasta da obra de Carlos Gomes”, diz Richard.

O intérprete recorda que todos os grandes cantores já encenaram peças de Carlos Gomes. E defende a criação de um Festival Carlos Gomes, nos moldes dos que existem  para Wagner, na Alemanha, e para Verdi, na Itália. “Conhecer a obra de Carlos Gomes é dever quase cívico do brasileiro”, afirma, lembrando que, em 2016, são celebrados os 180 anos de nascimento e os 120 de morte do compositor.

SONHOS
“Ópera leva o público ao mundo dos sonhos e. quanto mais ela conseguir isso, melhor”, garante Walter Neiva, o diretor cênico da montagem de O guarani. “Nossa encenação valoriza a música. Quem não conhece a música de Carlos Gomes vai se surpreender”, garante. “Em meio à sonoridade italiana, podemos ouvir serestas, serenatas e até um certo sotaque caipira do Brasil”, conta. Ele avisa que não se trata de uma montagem realista. “O importante desta montagem é apresentar Carlos Gomes, autor que ainda hoje tem o seu valor pouco reconhecido”, afirma o diretor.

Walter Neiva conta que Carlos Gomes foi campineiro humilde, vocacionado para a música que, com apoio de dom Pedro II, estudou na Itália e fez sucesso no (Teatro) Scala, de Milão (Itália). Endividado, o compositor voltou doente para o Brasil e, com a queda da monarquia, ficou desamparado. Por ocasião da Proclamação da República, Marechal Deodoro convidou Carlos Gomes para compor o hino nacional, mas ele recusou, pois considerava traição a seu patrono, dom Pedro II. O compositor termina seus dias como professor do Conservatório de Belém, no Pará, a convite do governador Lauro Sodré.

Durante o período que viveu em terras italianas, o brasileiro ganhou reverência de seus contemporâneos. Puccini (1858-1924) levou uma ópera sua para Carlos Gomes analisar. Diz a lenda que, diante das peças do brasileiro, Verdi (1813-1901) teria dito: “Este jovem começa onde eu termino”. Pietro Mascagni (1863-1945), autor de Cavalleria rusticana, em visita ao Brasil no início do século 20, foi convidado para inaugurar um monumento em homenagem a Carlos Gomes. Ao descerrar o pano que cobria a peça, o italiano não reconheceu a face do brasileiro. Autoridades tinham confundido, após a morte do escultor, a cabeça do general Pinheiro Machado com a do compositor.

“Carlos Gomes merecia ser mais encenado e não só nas efemérides. Está na hora de tirar as partituras dele da estante e tocar”, defende Walter Neiva. Para o diretor, tocar as obras do compositor é o modo mais eficaz de combater o esquecimento dele no Brasil. Walter defende, inclusive, que essa ação é essencial para motivar os intérpretes a estudarem mais a música de Carlos Gomes. “Por que um cantor vai estudar um compositor que cobra muita dedicação quando sabe que vai fazer a peça uma vez só?”, indaga. “Existe um descaso com a obra de Carlos Gomes no Brasil”, critica.

O guarani


Ópera de Carlos Gomes, com Orquestra Sinfônica e Coral Lirico de Minas Gerais. Regência de Sílvio Viegas e direção cênica de Walter Neiva. Quinta-feira (10), às 20h.  Grande Teatro do Palácio das Artes, Av. Afonso Pena 1.537, Centro, (31) 3236-7400. Ingressos: R$ 60. e R$ 30 (meia). A ópera será apresentada nos dias 12, 14, 16 e 18 no mesmo horário e, dia 20, às 19h. Classificação: 10 anos.

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE E-MAIS