Professora, tradutora, modelo e atriz, Elke Maravilha foi de tudo um pouco

De personalidade forte e presença exuberante, a artista atuou no cinema e combateu a ditadura

por Mariana Peixoto 17/08/2016 08:19

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Certa vez, perguntaram a Elke Maravilha: “Por que tanto?”. Ao que ela respondeu: “Por que tão pouco?”.


Morta ontem aos 71 anos, no Rio de Janeiro, depois de quase um mês de internação após cirurgia para tratar de uma úlcera, Elke Georgievna Grunnupp foi muito tudo.

Wander Malagrine/TV Globo
Durante anos foi jurada do programa do Chacrinha, que considerava um pai (foto: Wander Malagrine/TV Globo)

Nascida em Leningrado (atual São Petersburgo), em 22 de fevereiro de 1945, filha de um russo e de uma alemã, chegou ao Brasil aos 6 anos. Perseguidos por Josef Stalin, os Grunnupp instalaram-se na mineira Itabira no início da década de 1950.


Chegou a ouvir do mais ilustre dos itabiranos: “Que coisa surreal você ser de Itabira!”, teria lhe dito Carlos Drummond de Andrade.

Pois há coisas muito mais fora do comum em sua trajetória. Elke foi apátrida por duas vezes: primeiro, perdeu a nacionalidade russa; mais tarde, manifestando-se contra a ditadura militar (protestou em defesa da memória de Stuart Angel Jones, filho da grande amiga Zuzu Angel, morto pela repressão), perdeu a brasileira. Foi detida pelo Dops, quando foi torturada.


“Meu pai viveu sob a ditadura de Stalin. Fui preparada para a guerra. O que são seis dias no Dops?” Viveu as duas últimas décadas com cidadania alemã.

Alemão, por sinal, era uma das nove línguas que ela falava. Também fluente em russo, português, italiano, espanhol, francês, inglês, grego e latim, foi professora, tradutora, secretária e bibliotecária.

Oito foi ainda o número de maridos que teve. Filhos, nenhum. Abortos, três. “Sempre soube que não saberia educar uma criança. Sou completamente consciente do passo que posso dar.”

No mundo das maravilhas, Elke foi igualmente múltipla. Seu caminho no meio artístico teve início na virada dos anos 1960 para os 1970. Das passarelas, o mulherão de 1,80m chegou aos cinemas.

Nos primeiros papéis, foi um pouco de si mesma. Modelo em Salário mínimo, de 1970, secretária em O Barão Otelo no barato dos bilhões (1971). Ela teve algum destaque como Hortência, a oponente de Xica da Silva (1976).

Elke virou Maravilha por obra do jornalista Daniel Más. Foi desta maneira que chegou ao Cassino do Chacrinha, já nos anos 1980. Como a jurada do “Painho” ela teve seu maior papel. Foram 14 anos com Chacrinha, e a popularidade disparou.

Do Velho Guerreiro foi trabalhar com Silvio Santos, de quem não guardava boas lembranças. Continuou na TV, ora em participações em séries e novelas, ora em pequenas aparições, que foram se tornando menos frequentes nos últimos anos.

Em Elke, nada era gratuito, e tudo era fora do comum. “Sempre fui assim, não sei ser de outro jeito.” Ser político, mas apartidário, definia-se anarquista.

Abraçou e foi abraçada pelas minorias. Foi madrinha dos presidiários, militou na causa dos hansenianos, virou musa gay. “Meu pai me mostrava porco gay, pato gay... Quando vi gente gay achei normal. Não ficava com aqueles ranços de conceitos e preconceitos. Graças a Deus, tive uma boa educação.”

Soube levar sua vida incomum para os palcos. Nos últimos tempos, rodava o país com o show Elke canta e conta, apresentado em setembro de 2015, no Sesc Palladium. No palco, sem papas na língua, reviu sua trajetória.

Não tinha medo da morte, tampouco da idade. “Ficar velho é bom, caralho! A gente só não pode ficar ultrapassada.”

Andre Usagi/ Divulgação
Elke foi celebrante do casamento de Diego Assunção e Lucas Braga em Minas (foto: Andre Usagi/ Divulgação)
 

BENÇÃO CARINHOSA
A moral não está no meio das pernas, como muita gente pensa.” Essa foi uma das tantas frases inesquecíveis que Elke Maravilha disse na celebração do casamento de Diego Assunção e Lucas Braga, em agosto do ano passado, em Belo Horizonte. Mais que uma celebrante irreverente, a presença dela foi iluminada.

Com a experiência de oito casamentos, a artista repetiu aos noivos a máxima de que não “nascemos para viver e, sim, para conviver”. Foi também uma carinhosa conselheira: “Aprendi que um tem que amar mais e o outro amar melhor. Aí vocês decidem quem vai fazer o quê”.
Como Diego lembra, foi uma bênção sem dogmas.

“Só com amor e isso é para sempre e inesquecível”, diz. Para o casal, a voz de Elke seria capaz de atingir todas as gerações trazendo uma mensagem de luta e libertação. Ela foi além e emocionou todos os presentes. “Elke, sua sabedoria e coragem farão muita falta nesses tempos tão tenebrosos, mas sua marca fica, sem sombra de dúvida! Obrigado pelo privilégio do nosso ótimo encontro e por me ensinar que ‘o amor é invencível nas batalhas’”, agradece Lucas. (CAROLINA BRAGA


ALÉM DAS TOLICES

Conheci Elke nos tempos que Eduardo Couri promovia o seu prestigiado concurso para a escolha da glamour girl da cidade. Era uma noite prestigiadíssima, as moças que aceitavam disputar o título se transformavam, da noite para o dia, em sucesso social.

Eram bajuladas, convidadas, badaladas. Numa dessas seleções de nomes que disputavam o título, Eduardo convidou uma moça linda, simples, pouco conhecida, sem nenhum trânsito em coluna social.

Na lista das candidatas, só mocinhas vaidosas, orgulhosas, bem society. E no corpo dos jurados, só figurões de fino trato. A candidata mais cotada era uma socialite carioca, que passava temporadas por aqui, sobrenome conhecido, essas coisas que encantavam a cidade.

Terminado o desfile, em 1962, contados os votos dos jurados, quem foi que venceu? A pouco conhecida Elke Grunnupp, que morava com os pais numa casa de classe média no Alto Barroca. Ela tinha cara de jovem, bem de acordo com a idade, menina nascida na Rússia e criada no Brasil desde os 6 anos.

A provinciana sociedade mineira não conseguiu engolir a derrota de suas filhas, produzidas e bombadas, por uma garota de cara angelical e, ainda por cima, russa!

A campanha que foi feita contra sua eleição chegou a ser cômica, de tão sem sentido, até anular a eleição chegou-se a cogitar. Passei a elogiá-la e defendê-la sempre. Às vezes, nos encontrávamos, e ela me contou as pressões que estava sofrendo a troco de uma tolice, que ela não levava tão em consideração como as outras moças de sua idade.

Já se podia entrever ali uma jovem que estava além das tolices de seu tempo e que acabou sendo a mulher inteligente, culta, gloriosa em que Elke Maravilha se transformou. E como ela neutralizou ao longo de sua vida a cândida figura que se candidatou num impulso a ser glamour girl. Tão vitoriosa sempre, ninguém se lembra das outras candidatas, ela se tornou um ídolo nacional.

Graças à simpatia mútua, devo a ela um fato único em minha vida, que jamais se repetiu. Fui jantar em sua casa, tradicional cardápio russo, delicioso. No fim de tudo, seu pai me apresentou um dos pratos mais raros do jantar: filé de cobra, que ele preparava como ninguém. (ANNA MARINA)

 

 

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