Livro 'Mariana' mostra o que restou de belo em meio à tragédia

Fotógrafo Christian Cravo passou três dias na região do desastre da Samarco em busca de vestígios de beleza. Livro será lançado na próxima quarta-feira

por Pedro Galvão 08/05/2016 10:00

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Christian Cravo/Divulgação
(foto: Christian Cravo/Divulgação)

“Vi uma foto en passant na TV ou na internet, de um retrato pintado, desses antigos em preto e branco, era uma imagem simplória de uma parede muito destruída e esse retrato estava ali, em pé ainda.” Foi assim que Christian Cravo mudou a configuração do seu olhar de só mais um brasileiro estarrecido com a devastação em Bento Rodrigues para a do artista capaz de notar a beleza em meio à extrema tristeza.


Sem planejar muita coisa, o fotógrafo baiano, radicado na capital paulista, juntou suas lentes e a experiência de 25 anos de carreira e seguiu para Mariana, onde 30 dias antes a lama que vazou da barragem de rejeitos de mineração da Samarco havia destruído quase por completo os povoados de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, na maior tragédia ambiental brasileira. Parte do que restou desses lugarejos está sensivelmente registrada no livro que o artista lançará na próxima quarta, em São Paulo.

Acostumado a fotografar paisagens e pessoas pelo interior do Brasil e do mundo, Cravo encontrou um campo de trabalho inédito em Minas Gerais. A lama levou as paisagens, e as pessoas também não estavam mais lá. Restavam as ruínas e memórias contadas por alguns objetos, como o retrato pintado que ele vira. “Tento trazer ao meu trabalho uma memória iconográfica que o tempo congelou. Quando vi aquela imagem na mídia, imediatamente me remeteu a um sítio com que sou fascinado, que é Pompeia, na Itália, onde o vulcão Vesúvio congelou toda uma sociedade de uma hora para outra”, diz Cravo.

Se a maioria das imagens capturadas pelas câmeras de foto ou vídeo da imprensa se preocupava em mostrar e até reforçar a dimensão e a gravidade do desastre, com casas soterradas, carros revirados e famílias desesperadas, as imagens reunidas em Mariana têm um propósito bem diferente. Em suas 80 páginas, o pequeno livro, de 18 por 23 centímetros, conta sobre a tragédia de forma sutil e singela, mostrando objetos, roupas, calçados, retratos, janelas e móveis enlameados.

“Não há gente cavando nem chorando. Na verdade, não há gente. Abordei o drama humano através dessas memórias esquecidas e objetos que remetem diretamente ao sentido de família, união, lar e estabilidade”, observa o fotógrafo.

Um varal com algumas peças de roupas tingidas pelo barro, um armário de banheiro com escovas de dente cheias de lama e uma estante de cozinha parcialmente destruída, mas ainda abrigando alguns utensílios, são exemplos que ele conseguiu captar para mostrar vidas interrompidas não necessariamente pela morte, mas transportadas dali pelas circunstâncias.

“Cada objeto que fotografei em Minas Gerais era uma espécie de relicário, percebi que as pessoas colocam alguns objetos num pedestal, cada foto, cada coisa tem um valor afetivo especial. Em Paracatu de Baixo, por exemplo, havia um gosto específico por futebol, medalhas na parede, camisas do time local. Há uma iconografia que remete a uma religiosidade”, explica.

Cravo passou três dias fazendo seus registros entre Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, distritos de Mariana atingidos pelo rompimento das barragens. A coincidência de ter um primo de sua esposa morando na região, por trabalhar justamente para a Samarco, facilitou seu acesso à área atingida. Todo o trabalho foi realizado sozinho, sem equipe de apoio e, pela primeira vez em sua carreira, as imagens foram feitas em cor.

O preto e branco dos trabalhos anteriores, como Irredentos (2000), fotografado no sertão nordestino, tendo a fé e a paisagem humana locais como norte, deu lugar ao marrom avermelhado, predominante nas imagens de Mariana.

MEMÓRIA
Passados seis meses da tragédia, a sociedade ainda espera respostas do poder público e questiona a ação econômica por trás de todo o incidente. Embora abra mão de opinar sobre esses aspectos, publicar um livro foi a maneira que Christian Cravo encontrou para contribuir com a memória do episódio. “Acho que nada que nós possamos fazer se sobrepõe à importância do fato. Cada um atua de uma forma, enquanto um advogado pode dar um suporte mais objetivo, com um amparo jurídico, por exemplo, o artista atua em outro patamar, mais subjetivo. Por isso decidi pelo livro, que sobrevive a nós, humanos, ficando num lugar entre passado e presente, que é uma memória física sobre um determinado acontecimento”, argumenta.

Sem subsídios ou patrocínio para viabilizar o projeto, Cravo editou o livro de forma independente, bancando todo o processo com seus próprios recursos e utilizando o que classificou como o que tinha de melhor em materiais, técnicas e design para criar um produto que “se sobreponha a qualquer modismo e consiga atravessar o tempo o máximo possível”.

Para complementar o trabalho, o fotógrafo convidou o jornalista brasileiro Patrick Brock, que mora em Nova York, para escrever um relato objetivo sobre o ocorrido. A publicação também inclui algumas linhas poéticas e interpretativas escritas pelo artista plástico e ativista ambiental Bené Fonteles, coordenador do Movimento Artistas Pela Natureza. Os dois textos são apresentados em português e em inglês.

Mariana será lançado na próxima quarta-feira, no Instituto Tomie Othake, em São Paulo. Ainda não há previsão de um evento de lançamento em Minas Gerais, mas o público interessado em adquirir o livro pode fazê-lo no site do fotógrafo ou em sua página no Facebook. A edição acompanhada de uma fotografia assinada custa R$ 299.

BAIANO DO MUNDO


Filho de mãe dinamarquesa, Christian Cravo nasceu em Salvador, há 42 anos, já inserido no meio da arte. Afinal, seu pai é o fotógrafo e escultor baiano Mário Cravo Neto. Depois de dividir a infância entre a Dinamarca e o Brasil, começou a trabalhar com fotografia ainda na adolescência.

Antes de Mariana, já havia lançado outros cinco livros, todos em preto e branco. O primeiro deles foi Irredentos (2000), sobre a vida e a fé no sertão brasileiro. Em seguida vieram Roma noire, ville métisse (2005), coleção de imagens sobre a cultura negra no estado da Bahia; Nos Jardins do Éden (2010), com fotos feitas no Haiti, e Exu iluminado, retrospectiva sobre o seu avô, o escultor Mário Cravo Júnior.

Em 2014, a extinta editora Cosac Naify lançou uma compilação com o nome do artista, reunindo vários de seus trabalhos. Nos últimos anos, Christian Cravo tem se dedicado a um trabalho chamado Luz e sombras, realizado na África, onde fotografa animais e paisagens da natureza do continente.

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