Paulo Schmidt lança o Guia politicamente incorreto dos presidentes da República

Livro tem o "objetivo descarado de resgatar o Henrique VIII, o Don Juan, o Napoleão, o Frankenstein ou o Jeca Tatu porventura existentes nos chefes de Estado"

por Ana Clara Brant 07/05/2016 09:00

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De Manuel Mendes da Fonseca Galvão, o Deodoro da Fonseca, nosso primeiro presidente, a Dilma Vana Rousseff, a atual mandatária, são quase 130 anos de autoritarismo, corrupção e incompetência. É o que acredita o escritor Paulo Schmidt, autor do Guia politicamente incorreto dos presidentes da República (Leya), que destrincha a trajetória e os pormenores das 31 figuras que passaram pelo cargo mais poderoso do país. “Quase todos foram muito ruins. Acho que houve uma progressão na piora da qualidade dos nossos mandatários ao longo das décadas. O que estamos vivendo hoje é uma espécie de somatório de tudo de pior que já tivemos na história do presidencialismo nacional”, opina Schmidt.

O livro dá continuidade à série de guias politicamente incorreto – como o do sexo, da filosofia e da economia – que já venderam mais de 1 milhão de exemplares. Inicialmente, a obra teria outro nome, Monarcas sem coroa, que, segundo o autor, é como a maioria dos nossos líderes se considera. Para o escritor paulista, até Dom Pedro II era mais republicano que os presidentes. “O que tivemos no decorrer da história foi uma sucessão de monarcas sem coroa. Toda a pompa e privilégios que circundam a presidência faz com que o mais democrata deles se sinta um pouco um rei. Alguns chegaram até a manter aquela coisa do ‘beija mão’, que é uma tradição do Império. Infelizmente, não é um cargo visto em prol do povo, mas como uma mina inesgotável de poder e regalias”, afirma.

TIPOS
Desde 1889, quando a República foi instaurada, ocuparam a Presidência, segundo a descrição de Schmidt tipos como um doido de pedra, um notório por sua burrice, um que fazia macumba para atingir adversários, um que proibiu até o uso de biquínis e um mulherengo até o último fio de cabelo. O enfoque do autor foi nas características humanas (ou na falta delas) – as paixões, os complexos, as idiossincrasias e as ocasionais qualidades dos homens e da mulher no comando do Brasil.

“Muito mais do que falar que fulano inaugurou isso ou decretou aquilo, quis explorar o lado humano e revelar aspectos que muita gente nem sabia. Meu objetivo descarado foi resgatar o Henrique VIII, o Don Juan, o Napoleão, o Frankenstein ou o Jeca Tatu porventura existentes em nossos chefes de Estado. O que é interessante e pitoresco para o leitor curioso não necessariamente é útil para o pesquisador.”

A pesquisa para a redação do livro durou cerca de seis meses. O escritor consultou biografias, memórias pessoais, de familiares e subordinados, jornais e documentos, além de pessoas próximas a alguns desses políticos. Um dos que carregam mais folclore em torno de si é o gaúcho Hermes da Fonseca, que governou o país de 1910 a 1914 e era conhecido por ser uma completa nulidade.

Em uma das passagens do livro, um episódio reflete esse traço do presidente que era sobrinho de Deodoro da Fonseca e que foi casado com a pintora, cantora e atriz Nair de Tefé. “No volume 3 do seu Folclore político, Sebastião Nery (jornalista) conta que Pinheiro Machado (senador), em visita ao marechal, doente de cama, disse-lhe: ‘Assim V. Exa. não se cura, sr. presidente’. — Por que? — Porque V. Exa. fica aí com estas janelas hermeticamente fechadas. Meses depois, a situação se inverteu: Hermes visitou o acamado Pinheiro. — Assim o senhor não se cura, senador. — Por que?— Porque o senhor fica aí com estas janelas pinheiristicamente fechadas.”, diz o trecho.

“Tinha muita anedota em torno dele. Hermes era uma pessoa que falava ‘hão de verem’ ou mesmo ‘biblhoteca’. Também tinha muita fama de azarado e isso é possível ver nos jornais da época. Tinha coisas que só aconteciam com ele”, diz Schmidt. A fama de pé-frio começou com a morte de Afonso Pena, em seguida à sua altercação com ele. Depois, eleito presidente, foi a Lisboa e, enquanto era recepcionado pelo rei d. Manuel II, a monarquia portuguesa foi derrubada. Em seu governo, o Ciclo da Borracha, que inundara Manaus de ouro, entrou em declínio, devido aos preços mais competitivos da borracha asiática

Outro envolto em lendas é Jânio Quadros que proibiu até rinhas de galo e lança-perfume em bailes de carnaval. O presidente, que durou apenas sete meses no cargo, foi um aluno mediano na juventude, segundo o livro. Dotado de temperamento tempestuoso, arremessou um tinteiro contra a cabeça de um professor que o advertiu com rispidez. Já Floriano Peixoto, quando era comandante, obrigou os praças a ficar horas em posição de sentido sobre um formigueiro, recebendo, imóveis, mordidas furiosas. Talvez venha daí a alcunha de Marechal de ferro.

Schmidt afirma que o mais complicado na hora de escrever o livro foi separar o joio do trigo, ou seja, identificar o que era informação verídica do que era simplesmente rasgação de seda. Tradutor e ilustrador, além de escritor, ele brinca que a experiência mais próxima de uma biografia que publicou foi o primeiro estudo em língua portuguesa sobre o famigerado assassino inglês Jack, o estripador. “Já tenho uma certa bagagem em biografar monstros, por isso vim com uma certa tarimba para esse projeto”, diverte-se.

Guia politicamente incorreto dos presidentes da República

Autor: Paulo Schmidt
Editora: LeYa
496 páginas
R$ 49,90


AFONSO PENA
(1906-1909)
Foi o primeiro representante das Gerais a ocupar o cargo mais alto da República. Conhecido por sua honestidade e honradez, tinha verdadeira devoção por sua esposa, Maria Guilhermina, e pelos 12 filhos do casal. Pequenino, nervoso e ágil, recebeu o apelido de Tico-tico.

DELFIM MOREIRA
(1918-1919)
Afável, de sotaque carregado, o presidente conservava hábitos simples que beiravam a jequice. Sua mulher e prima, dona Chiquinha, mandava comprar pano para fazer coadores de café com as próprias mãos, deixando boquiabertos os funcionários do palácio presidencial. Delfim sofria de uma enfermidade mental que o fez ser tachado de louco. Rui Barbosa foi uma vez visitá-lo acompanhado de um jornalista. Os dois tiveram de aguardar por uma hora, durante a qual a porta do gabinete presidencial se entreabria e se fechava, de instante a instante: era o presidente a espiá-los. Rui teria dito, então: “Que estranho país é o Brasil, onde até um louco pode ser presidente da República, e eu não posso”

ARTHUR BERNARDES
(1922-1926)
Pouca gente sabe, mas o mineiro de Cipotânea, na Zona da Mata, criou um verdadeiro campo de concentração no Amapá, para onde mandava os oposicionistas. Muitas pessoas morreram lá e o lugar foi apelidado de inferno verde. Apelidado de Seu Mé, por causa de sua cara de carneiro, ele ganhou uma marchinha no Carnaval de 1922: “Ai, seu Mé!/Ai, seu Mé!/Lá no Palácio das Águias, olé!/Não hás de pôr o pé.../O zé-povo quer a goiabada campista/Rolinha, desista./Abaixa essa crista.../Embora se faça uma bernarda a cacete, não vais ao Catete!”

JUSCELINO KUBITSCHEK

(1956-1961)
O presidente bossa-nova ganhou uma frase lírica de Guimarães Rosa: “Juscelino é o poeta da obra pública”. Nelson Rodrigues foi outro admirador famoso que declarou que JK trouxe a gargalhada para a presidência da República. Uma curiosidade sobre o diamantinense é que ele costumava dizer que Deus lhe havia poupado o sentimento do medo. Porém, Juscelino não levara em conta a esposa. Durante uma festinha na Gávea Pequena, no Rio, chegou o recado da portaria de que um carro preto estava subindo a ladeira. Segundo uma testemunha, o presidente entrou em pânico: “É a Sara!” Mandou todo mundo se esconder. Foi um constrangimento, uma vergonha — e aí se verificou que não era a Sara e então ele confessou a uma amiga que não tinha medo do Exército, nem do Lott, nem do Lacerda; que a única pessoa que metia medo nele era a Sara.

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