Em Nós, Grupo Galpão trata da agressividade nas relações pessoais

Peça aborda beligerância do cenário político brasileiro; impeachment de Dilma é referência subentendida

por Silvana Arantes 24/04/2016 07:00

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GUTO MUNIZ/DIVULGAÇÃO
GUTO MUNIZ/DIVULGAÇÃO (foto: GUTO MUNIZ/DIVULGAÇÃO)
 

“Tem gente que monta peça e tem gente que faz teatro. O Galpão faz teatro.” Nas apropriadas palavras de Paulo José, que dirigiu o grupo mineiro em O inspetor geral (2003) e Um homem é um homem (2005), o Galpão se coloca (com justeza) ao lado dos que usam o palco não para distrair o espectador de sua realidade, mas sim para exprimir um discurso artístico sobre o mundo.

Com o sarau De tempo somos, o Galpão lançou, no ano passado, um olhar afetivo e reminiscente sobre suas mais de três décadas dedicadas ao fazer teatral. Parecia um ponto final. O parágrafo que se abre agora, com  o recém-estreado Nós, dirigido por Marcio Abreu, traz uma reflexão do grupo a respeito do tempo da indelicadeza – nas relações interpessoais e na política, com umas dando combustão à outra. E vice-versa.

Se o tema não poderia ser mais oportuno, a forma de abordá-lo faz emergir aos olhos do público um Galpão de tom áspero, sombrio e algo desesperançado como não se via desde Partido (1999, direção de Cacá Carvalho). Marcas registradas do grupo, a música e a dança não estão ausentes. Mas aqui o Galpão canta “a balada do lado sem luz” e há mais inconformismo traduzido em gestos do que arrebatamento no solo de inspiração flamenca que Lydia Del Picchia realiza sobre a mesa de refeição.

É em torno delas – a mesa e a refeição; símbolos por excelência do convívio e da comunhão – que se desenvolve a narrativa de Nós. Um grupo de amigos de longa data prepara uma sopa. E na conversa que tempera  o tempo entre picar legumes e fazer uma caipirinha o desacerto se dá. Entre alfinetadas mútuas, a repetição incessante de ideias arraigadas e a recusa em considerar o ponto de vista do outro, o “diálogo” se transforma em disputa e julgamento.

ESCALADA Tendo a personagem de Teuda Bara como alvo preferencial das críticas, a escalada conduz ao momento em que o grupo decide abortar aquilo que parece ser seu maior incômodo. Num desempenho cativante, Teuda dá mostras de perceber a identificação imediata que sua personagem produz com o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. E se delicia ao dizer: “Chama o Exército, a polícia, o Corpo de Bombeiros, a Aeronáutica, o que você quiser. Eu não vou sair!”. Mas resiste à tentação do explícito “Não vai ter golpe!” (ao menos resistiu, na pré-estreia do espetáculo), numa decisão que eleva a montagem para além do andamento do atual imbróglio político brasileiro, atendo-se ao seu cerne – a indagação se somos ou não capazes de lidar com as decepções inseparáveis do exercício democrático.

No desfecho da cena, o cenário praticamente despido de elementos de Nós, em que uma estrutura multiuso se presta a várias tarefas, colabora para produzir um momento de intenso significado, a um só tempo sepultando o diálogo e reafirmando que “Narciso acha feio o que não é espelho”. Dizer mais seria subtrair do espectador a surpresa e seu impacto.

Depois de ser preparada com os ingredientes da agressividade e do autoritarismo, a sopa é servida ao público. Era de se esperar o gesto, já que, no início do espetáculo, Teuda Bara alerta para o sentido de cumplicidade, com um prefixo musical: “Respirando o mesmo ar, comendo a mesma comida, bebendo a mesma bebida”. É no entanto de espantar que a maioria da plateia a quem o prato foi oferecido na sessão de pré-estreia aceitou-o sem ressalvas. Embora espante, o comportamento não é novo. Em Apocalipse 1,11, do Teatro da Vertigem, não foram poucos os espectadores que, ao receber os ovos das mãos do juiz (de exceção) não hesitaram em atirá-lo na direção da personagem Talidomida do Brasil.

O Estado de Minas perguntou a Marcio Abreu como ele se sentiu ao ver o público de Nós se dispor à comunhão com a sopa da intolerância. O diretor se esquivou de reprovar o gesto. “A sopa pode ser recusada ou aceita. Vejo aquela cena como o compartilhamento de um momento de consciência.”

Nós pode ser indigesto, mas alimenta com vigor contínuo e momentos de grande beleza uma discussão incontornável para todos os que precisam tragar os tempos atuais.

>> Em tempo: numa cena que traça paralelo entre a desrazão do cenário político nacional e o extremismo religioso por trás da guerra na Síria, o sempre contido “príncipe” Eduardo Moreira se reposiciona aos olhos do espectador numa demonstração irrestrita de seus recursos dramáticos como ator.


Nós
Com o Grupo Galpão. Direção de Marcio Abreu. No Galpão Cine Horto (Rua Pitangui, 3.613, Horto). Informações: (31) 3481.5580. De quinta a sábado, às 21h; domingos, às 19h. Até 15/5. Ingressos: R$ 40 e R$ 20 (meia).

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