Livrarias de Belo Horizonte contam com séquito de fãs incondicionais

Leitores fieis ajudam a não deixar a magia da literatura morrer

por Ana Clara Brant 22/04/2016 08:00

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Fotos Túlio Santos/EM/D.A Press
Quixote Livraria e Café uniu o útil ao agradável e virou ponto de encontro aos sábados (foto: Fotos Túlio Santos/EM/D.A Press)
Considerado o maior poeta brasileiro, o itabirano Carlos Drummond de Andrade costumava dizer que as livrarias eram uma continuação da vida das pessoas.


Mesmo com o fechamento recente de várias em Belo Horizonte – Status, Eldorado, Mineiriana e Itatiaia, por exemplo –, ainda restam estabelecimentos que se dedicam exclusivamente à arte de vender livros e continuam a ser uma extensão da casa de ávidos leitores.

“A livraria é um espaço de formação das pessoas, é um patrimônio da cidade que deve ser preservado. Com os fechamentos recentes, devemos ter cerca de 30 a 40 livrarias, se formos contar os espaços dedicados apenas para comercializar literatura”, diz Alencar Perdigão, sócio e fundador da Quixote Livraria e Café, criada há 13 anos na Savassi e que tem filiais nos câmpi da PUC-MG e da UFMG.

Formado em letras, ele chegou a trabalhar em uma livraria em BH e a administrar outra. Foi então que, no começo dos anos 2000, enxergou a possibilidade de entrar nesse mercado. “Sempre sonhei em ter a minha própria livraria. Tinha pesquisado e percebi que várias se aliavam com um café. Decidi fazer as duas coisas. Uni o útil ao agradável”, conta.

Localizada numa rua da Savassi (a Fernandes Tourinho) que se tornou o reduto dos livros, a Quixote, assim como suas concorrentes, transformou-se num espaço de convivência dos apaixonados por romances, biografias, ensaios e afins. Os encontros entre os leitores ocorrem especialmente aos sábados, dia dedicado à maior parte dos lançamentos.

Alencar Perdigão sempre sonhou em ter o próprio estabelecimento

Agenda Só para se ter uma ideia, a agenda de lançamentos da Quixote está fechada até agosto. “Além do horário tradicional, que é das 11h às 14h aos sábados, tive que abrir outro para lançar livros no mesmo dia – das 14h às 16h”, completa.

O livreiro conta que um dos mais assíduos frequentadores de seu espaço era o  escritor Bartolomeu Campos de Queirós, que ia à livraria todo santo dia.

 “Tem gente que vem aqui só para se sentar na poltrona em que ele costumava ficar. Para homenageá-lo, a nossa seção de livros infantis se chama Bartolomeu Campos de Queirós.”

Vizinha da Quixote, a Ouvidor foi aberta em 1970, na Galeria do Ouvidor, no Centro, daí a origem do nome.

Quatro anos depois, surgiu a filial da Savassi. A terceira unidade funciona na Cidade Jardim.

Bernardo Ferreira, proprietário da livraria, conta que cada uma das lojas tem a sua peculiaridade. Na unidade da qual cuida pessoalmente ele decidiu investir na criançada, dada a importância de se formar leitores.

Praticamente 50% do estabelecimento está voltado para os livros infantis. “Acho muito importante estimular isso. E tenho percebido que os pais, que estão na faixa dos 35, 40 anos, incentivam os filhos a ter contato com o livro físico. Frequentar esse tipo de ambiente e fazer com que a garotada tenha contato com o livro físico é essencial”, defende.

Além de muitas famílias, a livraria costuma ter clientes assíduos como juristas, jornalistas e escritores, como o professor Ângelo Machado, autor de O casamento da ararinha-azul e  Manual de sobrevivência em festas e recepções com bufê escasso, entre outros.

“Quando ele vem aqui, vira uma atração turística. É um barato. O nosso público é bem diferente do da internet. Quem vem aqui é quem gosta de saber as últimas novidades, gosta de pegar e folhear as obras. É uma outra magia”, opina Bernardo.

Na Crisálida, que funciona no Edifício Maletta, livros para todos os gostos

Editora
Na chamada “rua das livrarias”, outra que se destaca há quase duas décadas é a Scriptum, que, além de vender, edita livros. O proprietário e fundador Welbert Belfort, o Betinho, não vê como empecilho o fato de haver concorrentes tão perto. Muito pelo contrário.

“Já houve até mais. Uma estimula a outra. Você vai a um lançamento aqui, depois dá uma passada em outra mais adiante. Quando uma livraria fecha, todas saem perdendo”, afirma.

Mineiro de Ouro Preto, foi na cidade histórica que Betinho começou a se envolver com cultura. Quando se mudou para a capital, em 1997, decidiu abrir a Scriptum – que em latim significa ‘escrita’ ou ‘obra de arte’ – e que na época funcionava na Rua Pernambuco.

Ao longo do tempo, como a livraria estava sempre patrocinando ou promovendo alguma publicação, veio a ideia de editar poesia. O primeiro volume foi  a coletânea de poemas Trívio, de Ricardo Aleixo.

“A partir dali comecei a abrir o leque. Editamos críticas, ensaios, obras de psicanálise e ainda temos um selo jovem. Na verdade, a Scriptum oferece todos os gêneros, mas nas devidas proporções. E conseguimos ter uma clientela muito grande não só em Minas, mas no Rio, São Paulo, Bahia porque muitos títulos as pessoas só conseguem encontrar aqui”, assegura.

Betinho revela que já chegou a pensar em desistir devido à “perversidade da política editorial no Brasil”, mas o amor pela profissão acabou prevalecendo.

“A gente continua porque gosta demais. Dá uma satisfação enorme conseguir um livro com que o cliente sempre sonhou ou mesmo incentivar alguém a gostar de ler. Mas o mercado livreiro é mais complicado e menos ético do que o mercado financeiro. A gente enfrenta muitas dificuldades, concorre com grandes empresas. É meio terra de ninguém”, desabafa.

Essa é também a queixa do colega Alencar Perdigão, da Quixote, que é vice-presidente da Câmara Mineira do Livro.
O livreiro recorda que no começo da onda da internet, assim como outras livrarias menores, chegou a tentar vender pela web.
No entanto, os custos eram tão altos e a competição tão acirrada que se tornou inviável. “Não compensava. Hoje, a gente tem um delivery pelo telefone. Vida de livreiro não é fácil. Não tem uma lei que nos proteja como a Lei do Preço Fixo, que existe em países como a França e que estipula que o mercado trabalhe com valores uniformes. Deveria ter subsídio de alguns impostos, uma proteção. Senão vai ficar cada vez mais complicado”, analisa.

Fotos Túlio Santos/EM/D.A Press
Johan Van Damme foi homenageado na Bienal do Livro (foto: Fotos Túlio Santos/EM/D.A Press)

Meio século de ofício
Provavelmente, ela é a livraria mais antiga da cidade e mantém a mesma essência de quando foi criada, há 51 anos.

A Van Damme, fundada pelo belga Johan Van Damme, de 77, funcionou inicialmente na Rua da Bahia com Augusto de Lima. Em 1982, a loja foi transferida para a Rua Guajajaras.

O livreiro – que foi homenageado pela Bienal do Livro de Minas, que termina neste fim de semana – lembra que o início de tudo se deu quando começou a fazer assinatura de revistas estrangeiras. Por ter muitos contatos, sempre aparecia um conhecido lhe encomendando alguma publicação.

Até criar a própria livraria, Johan chegou a trabalhar em bancos, na indústria têxtil e de eletrodos e até como consultor de estradas. “Mas o que eu queria mesmo era mexer com livros. Costumo brincar que vivo de férias, já que faço o que gosto”, celebra.

Van Damme diz ter uma clientela de cerca de 12 mil pessoas que gostam, acima de tudo, de biografias, romances históricos, sociais e aventuras, e conta que chegou a sentir a crise causada pelas novas tecnologias. “A internet é a grande vilã das livrarias de rua. Mas pelo menos tem sempre quem goste desse tipo de entretenimento.”

O livreiro lê uma média de dois livros por semana. Estima já ter lido por volta de  4.200 publicações. Dentro da Van Damme há uma estante com as suas 90 obras preferidas, organizadas por ordem alfabética.

Dentre as favoritas há uma especial, Tuareg, romance de aventura no deserto do Saara, do escritor espanhol Alberto Vázquez-Figueroa.

“O livro mostra o que é tenacidade, honra e dignidade. Se o pessoal de Brasília lesse, eu mandava alguns exemplares para lá”, brinca.


DEVOLUÇÃO Van Damme já leu esste título pelo menos 15 vezes e sempre o indica. Caso o cliente não goste, pode até devolver.

Uma vez, uma senhora que adquiriu a obra voltou depois de certo tempo alegando que não tinha gostado e querendo devolvê-la. O livreiro estranhou.

“Mas posso lhe perguntar a razão de não ter gostado? Ela ficou meio cabisbaixa e acabou confessando que nem havia aberto o livro. Justificou não ter gostado porque o genro disse que a capa era feia”, relembra.

“Aí retruquei que isso não era critério de avaliação e aquela senhora acabou concordando em tentar. Foi então que soltei: E quem falou que o Tuareg agora quer que você o leia? Livro tem sentimentos. A senhora disse que ele era feio, por isso vai demorar um bom tempo para ele querer voltar para sua casa”, diverte-se.

 

SERVIÇO
Livraria e Editora Scriptum: Rua Fernandes Tourinho, 99, Savassi, (31) 3223-7226. De segunda a sexta, das 9h às 20h. Sábado, das 9h às 15h.
Ouvidor: Rua Fernandes Tourinho, 253, Savassi, (31) 3221-7473. De segunda a sexta, das 9h às 19h. Sábado, das 9h às 14h.
Livraria Van Damme: Rua Guajajaras, 505, Centro, (31) 3273-9792. De segunda a sexta, das 9h às 19h. Sábado, das 9h às 14h.
Quixote Livraria e Café: Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi, (31) 3227-3077. De segunda a sexta, das 9h às 20h e sábado, das 9h às 16h.
Crisálida: Rua da Bahia, 1.148, sobreloja, 63, Centro, (31) 3222-4956. De segunda a sexta, das 9h às 18h e sábado, das 9h às 13h.

 

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