Dennis Carvalho relembra episódio em que foi hostilizado nas Diretas-Já em BH

Diretor afirmou que "jamais" considerará Dilma "desonesta", mas avalia que ela "errou muito"

por Helvécio Carlos 20/04/2016 08:24

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ALBERTO ESCALDA/EM
Milton Nascimento e Dennis Carvalho, em ato pelas Diretas-Já, em Belo Horizonte, em fevereiro de 1984 (foto: ALBERTO ESCALDA/EM)

Dennis Carvalho, um dos mais importantes diretores da televisão brasileira, é rápido e preciso em suas respostas. Durante ensaio para teste de luz e som em mais uma das temporadas de Elis – A musical, que passou no fim de semana passado por Belo Horizonte, ele falou com o Estado de Minas sobre o espetáculo, sua carreira e política.

“No teatro, Elis... é a minha grande paixão dos últimos quatro anos. É meu filho preferido”, afirmou, ocupando um dos lugares da plateia do Sesc Palladium. Primeira direção de Dennis no teatro, o convite para comandar a peça o deixou apavorado, “afinal, o musical contaria a história da melhor cantora do Brasil”, observa.

Recomposto do susto, encarou o desafio. Sobre o fato de não tocar a fundo no envolvimento da cantora com as drogas – Elis morreu em 1982, aos 36 anos, de overdose – Dennis explica a escolha. “Eu e Nelsinho (o jornalista e produtor Nelson Motta é quem assina o roteiro) não queríamos tocar nisso. Teríamos que desenvolver o tema drogas.”

QUIPROCÓ
O palco onde Elis – A musical foi apresentado desta vez em BH é o mesmo onde em março passado o ator, produtor e diretor Claudio Botelho sofreu forte reação da plateia ao citar Lula e Dilma num caco na primeira sessão de Todos os musicais de Chico Buarque em 90 minutos na capital mineira. O resultado foi catastrófico, com a suspensão da sessão e o cancelamento da apresentação do dia seguinte.

“Belo Horizonte é uma cidade muito politizada e, por isso, preferi retirar do texto a fala em que Elis diz a Henfil ter dado dinheiro para (apoiar a) greve no ABC e ao próprio Lula”, disse o diretor, que afirma ter passado por uma situação semelhante à enfrentada por Botelho. Em Recife, apesar de o espetáculo ter sido ovacionado, o público ensaiou uma reação de vaias e aplausos durante a cena. Nas sessões seguintes, na capital pernambucana, o diretor optou por dizer ao microfone que o texto da peça era original “para não parecer provocação”.

Se desta vez Dennis escapou sem nenhum arranhão da temporada belo-horizontina, nos idos anos 1980 a situação foi diferente. O ator sofreu na pele a pressão dos manifestantes que lotavam a avenida Afonso Pena na histórica manifestação pelas Diretas-Já! “Como sou amigo do Milton (Nascimento) me chamaram para apresentá-lo no palanque. Quando entrei e parei em frente ao microfone, ouvia o público gritar ‘Abaixo a Rede Globo! Abaixo a Rede Globo!’, olhando para mim. Minhas pernas começaram a tremer, até dizer a eles que, antes de trabalhar na emissora, era um cidadão que, assim como eles, também queria votar para presidente. Ai foram se acalmando.”

Dennis não é otimista em relação aos próximos meses. “O futuro é negro. Já fiz campanha para o PT. Tive grandes decepções com toda essa corrupção, mas não quero ser governado nem pelo Temer nem pelo Cunha”, afirmou, na entrevista concedida na sexta-feira, antes portanto da votação do impeachment pela Câmara. “Jamais vou considerar Dilma desonesta, corrupta. Jamais. Mas ela errou muito e se cercou mal”, critica.

Diretor de obras que marcaram a história da TV, Dennis aponta como seus trabalhos preferidos a minissérie Anos rebeldes – “Ela mexeu com minha geração e foi ao ar na época do impeachment do Collor” – e a novela Vale tudo - “Que mexeu com o Brasil, ao começar a discutir como o brasileiro é malandro, como leva vantagem em tudo. Foi uma novela brilhante do Gilberto (Braga)”, elogia.

Mas o diretor não se furta a mencionar trabalhos que não foram tão bons assim. “Babilônia foi um fracasso. Reconheço, claro. A novela tinha um tremendo elenco, mas era pesada, e o público foi se afastando. Quando uma novela vai ladeira abaixo, não tem mais jeito. Além disso, logo na primeira semana após a ‘bicota’ entre Estela (Nathalia Timberg) e Teresa (Fernanda Montenegro), a bancada evangélica, que comanda a Record, mandou espalhar para todas as igrejas a recomendação de não assistirem mais à novela, que era pecado, era novela do diabo.”

Entre seus trabalhos como ator, ele destaca o Inácio, de Brilhante, de Gilberto Braga. “Foi o primeiro personagem homossexual da novela das 20h. Como a novela foi exibida em tempos de censura, o personagem foi muito censurado. Amo ser ator, está no sangue”, comenta ele que, aos 68 anos, se considera um verdadeiro observador da vida. “Só assim, tentando observar o que você poderia aproveitar, é que amadurecemos. Maturidade você não aprende na escola”.

Como diretor de sucessos como Dancin days (1978), O dono do mundo (1991), Celebridade (2003), JK (2006) trabalhou com alguns dos maiores nomes da teledramaturgia brasileira. Mas, independentemente do nome, sobrenome ou trajetória, Dennis garante tratar de igual para igual sua equipe. “Minha maior preocupação era não ser patronal, carrasco, aproveitar o poder da posição de diretor. Quero jogar junto. Acho que consegui, e as pessoas gostam muito de trabalhar comigo. Trato de igual para igual da Fernanda Montenegro à copeira. Mas, quando tiver que dar uma bronca, chamo em particular. Seria covarde se fizesse na frente de todo mundo. Acho que consegui conviver muito bem com eles.”

 

TÚLIO SANTOS/EM/D.A.PRESS
Dennis Carvalho conversa com o Estado de Minas na plateia do teatro onde foi apresentado na semana passada o espetáculo Elis - A musical, que ele dirige (foto: TÚLIO SANTOS/EM/D.A.PRESS)

NÍVEL BAIXO Dennis, que é filho de pais mineiros de Uberaba, também reconhece que, apesar da evolução técnica, a televisão sofre com a falta de bons roteiristas. “Na realização, damos um show”, afirma. “Mas meu medo é que apelem e comecem a nivelar por baixo, como acontece com a música. Se Elis estivesse viva, cortaria os pulsos mas não gravaria Wesley Safadão e Anitta. A MPB está se nivelando por baixo”, detona. “Não tenho nada contra, mas agora é só isso. Só sertanejo lotando estádios.”

Fã de séries como Homeland, Black mirror e Breaking bad, Dennis Carvalho diz não enxergar a TV a cabo como grande adversária da aberta. “Por enquanto, ela não representa perigo, mas é um alerta, um aprendizado –e acho muito bom”, afirma o diretor. “O grande problema é que a tecnologia dos smartphones está tirando o espectador de frente da televisão”, avalia.

A vida de Elis Regina, amiga pessoal de Dennis, estará nos planos profissionais do diretor por pelo menos mais um ano, quando ele espera dirigir uma série de dez episódios sobre a vida da cantora. O formato será documental, embora não linear, mas, por enquanto, não há nada definido sobre elenco, segundo ele. A estreia está prevista para o ano que vem.

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