Livro 'Comunista demais para ser chacrete', de João Santos, conta a trajetória de Teuda Bara

Aos 75 anos, atriz do Grupo Galpão atravessa com graça a história do teatro brasileiro. O lançamento será neste domingo, em BH.

por Fred Bottrel 10/04/2016 07:00

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Para fazer a foto que você veria nesta página, o espaço da sala era apertado, e o fotógrafo sugeriu que a atriz Teuda Bara, de 75 anos, e seu biógrafo, João Santos, 26, se espremessem. Ela abriu o sorriso e os braços e, apesar do desengonço, não houve dúvida: foi no colo dela que ele se aninhou. De tão estabanada, a foto não pôde ser publicada aqui, mas a cena é um bom exemplo de como a relação dos dois afeta o livro Comunista demais para ser chacrete (Editora Javali, 200 páginas).

Uma espécie de transbordamento – misto de escracho e ternura – explode na narrativa sobre a mitológica atriz do Grupo Galpão. E marca sobremaneira qualquer contato com ela. Quem já ouviu a “risada da Teuda” nas plateias da cidade, patrimônio do teatro de Belo Horizonte, sabe bem: mesmo quando espectadora, ela é o espetáculo. O lançamento do livro ocorre hoje à tarde, no Edifício Maletta – personagem e cenário da história. “Foi por causa do Maletta que meu noivado acabou, uai”, conta a quase chacrete. No livro, originalmente um trabalho de conclusão do curso de comunicação social na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), escrito em 2011 e impresso agora graças a uma campanha de financiamento coletivo via internet, essa história é contada em um dos momentos em que a voz de Teuda interrompe a narrativa para se colocar em cena (leia trecho nesta página).

E o faz, no inspirado projeto gráfico do Estúdio Lampejo, com tipografia mais gordinha e letras impressas em forte tom de laranja. A isso se somam os coloquialismos e mineirismos próprios de Teuda, e o efeito é tridimensional: funciona como se ouvíssemos de fato os gritos roucos da atriz. Basta pouco contato com os dois juntos, como na tarde em que receberam o Estado de Minas para falar sobre o lançamento, para entender que Teuda é mesmo a letra gordinha e João, observador apaixonado de seu objeto-ídolo, a letra fininha, pronto a pontuar acidamente uma ou outra ironia. A metáfora gráfica cria vida quando juntos relembram as histórias que compõem a obra. “Não sei ainda se ela é comunista demais para ser chacrete ou chacrete demais para ser comunista, mas ficou assim o nome do livro”, despista o autor.    

 

Beto Novaes/EM/D.A Press
(foto: Beto Novaes/EM/D.A Press )
 

 

ESTÁGIO

A convivência de João e Teuda começou quando ele era estagiário na assessoria de comunicação do Grupo Galpão. “Ela nem sabia meu nome, acho, mas um dia resolvi fazer uma oficina com o Zé Celso (Martinez Corrêa, diretor do Teatro Oficina) e contei para ela. Ela me disse que o Admarzinho (filho mais novo de Teuda) só tinha nascido por causa do Zé Celso, uma história que também foi para o livro (leia trecho nesta página).

“Ficamos próximos desde então, porque, apesar da nossa diferença de gerações, temos muitos interesses em comum. Então o vínculo foi muito além do profissional”, conta ele. “Aí eu fiquei assim, carrapatinho do João”, completa ela. Da amizade nasceria também Doida, peça de Teuda com direção de Inês Peixoto e textos assinados por ele.

Quando decidiu que o objeto para a escrita seria a própria amiga, João tomou o ônibus e ficou no Rio de Janeiro acompanhando temporada de Tio Vânia, como Teuda relembra: “Foi maravilhoso, porque a gente não tinha tempo para nada, mas ele saía, ele ia, acompanhava o Galpão, a gente tomava café no hotel e ficava lá contando caso, dando risada, ele levava balinha para mim”. E dá-lhe história. Tudo para Teuda é motivo para desfiar um bom causo. Mesmo o armário escolhido como cenário para a nossa não-foto. Era cenário mesmo. Da peça Gigantes da montanha, montagem de 2013 do Grupo Galpão, do qual Teuda é uma das fundadoras. “Era da peça, mas diretor pensa as coisas da fantasia e ator é quem carrega, né? Olha o peso disso, gente, é madeira pura! Aí tirou isso do cenário e eu ganhei no sorteio. Mas é bonitinho demais, olha só”, conta ela, antes de mais uma gargalhada, enquanto mostra a pintura da fazendinha na madeira.    

RÁDIO

Teuda atribui ao hábito de ouvir novelas no rádio seu pendor para narrativas mirabolantes, sempre conduzidas com a experiência de quem sabe os pontos de inflexão, suspense e graça, para reter a atenção do interlocutor. Isso se evidencia quando ela repete para a reportagem a história que dá título ao livro, sobre como uma noitada com Chacrinha terminou com textos de ciências sociais engordurados de torresmo. Teuda conta a história quase literalmente como aparece no livro, como aqueles nossos melhores casos que repetimos com frequência.

A atriz diz que leu a biografia “em uma sentada”. Ligou para João de madrugada para agradecer, maravilhada. E essa história os “carrapatinhos” contam como se fosse um texto de teatro, um completando o diálogo e a narrativa do outro. “Adorei porque é muito emocionante alguém escrever sobre você. Passa a sua vida ali na sua frente, né? Cê desculpa ligar a essa hora”. E ele: “Estava doido para saber se você tinha gostado!”.     

A Editora Javali, de Assis Benevenuto e Vinícius Souza, trata este como o primeiro lançamento do selo que não se enquadra em dramaturgia, teoria ou crítica teatral – de fato, Comunista demais para ser chacrete é isso tudo ao mesmo tempo, sob a aparência de biografia. Entre os torresmos e garrafas de cerveja no Maletta hoje, estarão homenageados muitos nomes fundamentais para a história do teatro brasileiro, personagens que atravessam a história de Teuda, cheios de cor e vida, como Eid Ribeiro, Gabriel Vilela, Zé Celso, Wanda Fernandes e todo o Galpão.

Como se percebeu no começo deste texto, com ela não tem isso de respeitar o espaço do outro; avança e atravessa mesmo. Assim, são todos aqueles em Teuda. E Teuda em todos. João tem uma teoria: “Ela sempre gostava de ouvir os outros contarem histórias e ela foi vivendo a vida dela, essa vida em que ela se joga, se lança, se atira. E ela já sabia como contar. É um material muito rico”.

 

TRECHOS

MALETTA
– Com quem que você foi no Maletta?
– Fui com o Tibério (irmão de Teuda).
– Mas o que você foi fazer no Maletta?
– Fui ver o Tibério tocar, ele me levou na boate…
– Você entrou numa boatefalei?!?!: “Entrei”.Acabaram oito anos de namoro! De noivado! De bolinho, empadinha, almocinho, jantarzinho, tchututu tchururu… Tudo que eu fazia! Saía com ele, fazia
bordadinho, enxoval… Acabou tudo!

ZÉ CELSO
Foi então que o Zé Celso, que sabia que eu estava grávida, sacou o que estava acontecendo. (...) Pegou minha barriga e falou:
“Não aborta! Não vai abortar! Vai ter esse filho, sim! Você quer, vai ter esse filho e vai ter ele no palco! Ele vai nascer e ainda vai ser mais um artista para o mundo!

Comunista demais para ser chacrete

Lançamento hoje, às 16h, na Cantina do Lucas, Edifício Maletta (Av. Augusto de Lima, 233, loja 18/19, Centro). Editora Javali, 200 páginas, R$ 35.

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