Nós, do Grupo Galpão, discute temas contemporâneos em tom áspero

Sob a direção de Márcio Abreu, espetáculo se desenrola em torno da preparação de uma sopa, com espaço para improviso de atriz e participação da plateia

por Carolina Braga 10/04/2016 07:00

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GUTO MUNIZ/DIVULGAÇÃO
(foto: GUTO MUNIZ/DIVULGAÇÃO)
“E se a gente gravasse em outros idiomas?” O diretor Márcio Abreu lança a pergunta ao ator Eduardo Moreira. Ele topa. Português, inglês, espanhol, italiano, francês, alemão. Sem fronteiras. Em seguida, com facas, copos, tigelas, panelas, batata-doce, cenoura, alho, abóbora, limões, cachaça e água no palco, o encenador da Cia Brasileira de Teatro dispara aos companheiros do Grupo Galpão. “Vamos lá, gente, coragem! Se errar, errou.”


Antonio Edson, Chico Pelúcio, Eduardo Moreira, Júlio Maciel, Lydia Del Picchia, Paulo André e Teuda Bara se lançam. A conversa segue em ascendência até que os intérpretes começam a bradar, caem no chão. O caos. “Ih, a coisa não está fácil. Está difícil para todo mundo. Está fácil para você?”, pergunta a atriz Teuda Bara, enquanto a caipirinha demora a sair. O diálogo se repete.

Fazer diferente nunca é fácil. Aos 34 anos de carreira, o Galpão topou o desafio proposto por Márcio Abreu. Há pelo menos 10 anos o diretor radicado em Curitiba frequenta projetos no Galpão Cine Horto. Em 2014, a companhia mineira formalizou o convite para uma criação conjunta, o que só foi vingar a partir de outubro de 2015. A “condição” dada por Márcio Abreu foi a de fazer “um trabalho político”.

Daí se desdobraram diversos desafios. O Grupo Galpão é consagrado pela linguagem do teatro popular, na rua. Nós, espetáculo que estreia no próximo sábado, no Galpão Cine Horto, é totalmente diferente disso. É tão contemporâneo como nunca a companhia mineira experimentou fazer.

Você já viu alguém do Galpão falando inglês em cena, por exemplo? Ou os atores de tênis, bermuda e camiseta? Cortando legumes para a preparação de uma sopa em tempo real? Pois são detalhes dramatúrgicos que dizem sobre o todo.

“A peça será a soma dessa aventura humana de reafirmar nossa possibilidade de existência no mundo de outras maneiras que não as que nos impõem e com as quais querem que a gente concorde”, resume o diretor. A dramaturgia, assinada por Abreu em parceria com Eduardo Moreira, partiu da convivência dos artistas. O espetáculo retrata com certa fidelidade embates, sejam aqueles travados na intimidade do Galpão ou aqueles vividos das portas para fora. “(Trata-se de) Um questionamento para onde a gente pode ir, o que podemos construir e reconstruir”, diz Moreira.

O título escolhido para a 23ª montagem foi propositadamente dúbio. Como primeira pessoa do plural, Nós diz sobre o coletivo. Significa também os nós a serem atados e desatados. É aí que se encontra a dimensão política da peça.

 

 

 

GUERRA Em novembro do ano passado, o grupo abriu processo de criação de quatro cenas. Mesmo que ainda embrionário, já era possível constatar que o Galpão se aproximaria de temas até então inéditos em sua trajetória. Em Um homem é um homem (2005), os atores falaram sobre guerra por meio do texto de Bertolt Brecht (1898-1956). Agora, levantam discussão sobre a guerra real que aparece nas páginas dos jornais, sobre a violência cotidiana, sobre discriminação e tantos outros temas que pautam nossas conversas.

“Somos desafiados a construir uma relação entre ator e personagem, palco e plateia, ficção e realidade, dentro de uma perspectiva de concretude”, conta Chico Pelúcio. Nós acontece a partir de um ato real de convivência, a preparação de uma sopa. Enquanto os atores cortam os legumes, de alguma maneira articulam – ou pelo menos tentam articular – uma visão de mundo.

“Você chega em casa, liga a TV e ouve as mesmas frases que estamos falando no espetáculo”, comenta o ator Júlio Maciel. Eclipse (2011) foi a última experiência do Galpão com dramaturgia inédita, mesmo que tenha sido baseada em contos do autor russo Anton Tchékhov (1860-1904). Depois disso, trabalharam com clássico do italiano Luigi Pirandello (1867-1936), Os gigantes da montanha (2013), seguido de musical que revisitou a própria trajetória da companhia.

Nós abre muito espaço para improviso. A atriz Teuda Bara ocupa o centro da cena. Inclusive, há momentos em que ela não tem um texto definido. Teuda falará o que lhe vier à cabeça. A relação com o público também é diferente: toda a ação se passa em um tablado. A plateia se dispõe no formato arena.

Entre as outras quebras radicais no jeito Galpão de ser está a aproximação mais intensa com a seara das artes plásticas. Por isso, o ator – e figurinista da montagem – Paulo André situa Nós mais na área da performance do que propriamente como uma obra exclusivamente teatral. “Temos nos renovado bastante nesse encontro com o Márcio”, constata o ator.

RIGOR Para Antonio Edson, Abreu não foi nada condescendente com possíveis limitações ou zonas de conforto do Galpão. “Esse rigor é uma coisa com a qual a gente não tem muito contato. O grupo carece desse exercício”, avalia. “Para fazer um trabalho de verdade, é preciso não ter pudores nem meias verdades. O afeto vem junto de uma certa possibilidade de romper a pele do outro. Senão, não dá para fazer nada”, afirma Abreu.

Ao observar a companhia de outro ponto de vista, o encenador detectou uma característica tão difícil de lidar quanto prazerosa. “É um desafio para a matemática, para a filosofia entender como diferenças tão radicais convivem tanto tempo juntas. É uma aula de cidadania e de arte.”

Eduardo Moreira lembra que a primeira provocação feita por Márcio Abreu foi sobre como cada um reage a uma determinada ação externa que lhe afeta. A questão embaralha alguns nós – as combinações entre indivíduo e coletivo, público e privado, dentro e fora. Curiosamente, a peça termina com uma possibilidade de início. Os atores se perguntam: como recomeçar ou começar algo novo?.

Por esse viés, o espetáculo é, para o Grupo Galpão, uma tentativa concreta de renovação. Em sua dimensão política, Nós dá sinais de que é possível ter esperanças de que as diferenças possam ser aceitas e os homens possam conviver de modo minimamente harmônico. Por isso, abrir mão das fronteiras – entre o público e o privado, o coletivo e o individual, o ator e o personagem. Por isso dizer em português, inglês, espanhol, italiano, francês, alemão e em todos os outros idiomas: “Talvez seja impossível mudar o mundo. Talvez o caminho seja começar por nós mesmos”.

NÓS

16 de abril a 15 de maio. De quinta a sábado, às 21h; domingo, às 19h. Galpão Cine Horto. Rua Pitangui, 3.613, Horto, (31) 3481-5580. R$ 40 (inteira). Venda antecipada pelo site www.sympla.com.br/galpaocinehorto. Na bilheteria do teatro, duas horas antes do início do espetáculo.

MÁRCIO ABREU EM DOSE TRIPLA


Além de Nós, Belo Horizonte terá a oportunidade de ver outras duas montagens dirigidas por Márcio Abreu (na foto de pé). A Cia Brasileira de Teatro, grupo curitibano do qual eleé fundador e integrante, é convidado do Sesc Palladium para o Off Cena. Em 19 e 20 de abril, o grupo apresenta o elogiado Vida, baseado na poesia de Paulo Leminski. Já entre 22 e 24 de abril, entra em cartaz o espetáculo Projeto Brasil, o mais novo do repertório. Abreu também dará uma oficina e participa de uma mesa de debates sobre dramaturgia e o processo criativo da companhia. Mais informações no site www.sescmg.com.br.


É um desafio para a matemática, para a filosofia entender como diferenças tão radicais convivem tanto tempo juntas. É uma aula de cidadania e de arte”

>> MÁRCIO ABREU
, diretor, sobre os atores do Grupo Galpão

 

 

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