Marieta Severo retorna a BH com peça 'Incêndios'

Escrito pelo libanês Wajdi Mouawad, espetáculo fala sobre uma mãe vítima da guerra civil que deixa uma missão aos filhos

por Carolina Braga 09/04/2016 08:00

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Leo Aversa/Divulgação
(foto: Leo Aversa/Divulgação)
Marieta Severo nunca foi de esconder suas opiniões. Inclusive as políticas. Em cenário tão delicado, a atriz está certa de que é preciso sair do perigoso discurso polarizado de ódio e intolerância. “É muito difícil falar porque as pessoas atacam a gente com virulência”, comenta. Mesmo assim ela fala. Não apenas porque precisa, mas porque é da natureza da arte que escolheu fazer. “Não é uma opção racional. É o jeito de viver, de acreditar nas coisas. Não saberia fazer diferente.”

Incêndios, espetáculo que apresenta no palco do Teatro Sesiminas hoje e amanhã, é uma prova disso. A peça foi escrita por Wajdi Mouawad, autor libanês radicado no Canadá e considerado sumidade na literatura dramática contemporânea. Marieta Severo é Nawal, cidadã árabe que enfrenta uma guerra civil. Antes de morrer, deixa ao casal de filhos gêmeos a missão de entregar uma carta ao pai e outra a um irmão cuja existência eles desconheciam.

A história se passa em dois planos. Paralelamente à narração de Nawal, existe o desenvolvimento da missão dada por ela. No meio da ação, um discurso pesado sobre como “permanecer humano em um contexto desumano”. É o tipo de espetáculo para se ver mais de uma vez. A amarração da trama é tão surpreendente que, por mais que as atuações sejam marcantes e elementos como o cenário ou trilha sonora também chamem a atenção, é difícil o curso da narrativa não dominar o espectador. Sobram camadas por observar.

“A peça vai ficando cada vez mais contundente e atual. Merece mais atenção e mexe cada vez mais comigo. É uma guerra civil. Irmão matando irmão. Questões políticas e econômicas com interesses atrelados. Estamos vivendo uma época de posições acirradas e antagônicas”, diz a atriz sobre a montagem dirigida pelo marido, o encenador Aderbal Freire-Filho.

Marieta Severo vê com preocupação o acirramento das posições políticas no Brasil. Incêndios passou por Belo Horizonte em março de 2014. Segundo ela, os últimos dois anos deram ainda mais força às palavras escritas por Wajdi e ditas por Nawal. “Infelizmente, em 2016, as pessoas precisam ouvir ainda mais essas coisas. Dá-me a sensação de que é urgente levar as questões para a cena”, continua.

RELEVÂNCIA A atriz se lembra bem de quando, há cerca de 20 anos, alguns colegas chegavam a fazer propostas indecorosas de novas montagens apoiadas no sucesso construído pela televisão. Houve quem dissesse: “Vamos fazer uma pecinha e viajar pelo Brasil”. Marieta nunca soube trabalhar assim. “Sempre tenho que achar que estou fazendo a peça mais importante do mundo. É tão complicado estar em cena. É custoso”, diz quem tem o hábito de produzir os próprios espetáculos.

Marieta é defensora da relação horizontal com a plateia, sem essa história de o ator ser rei no palco. “Nossa relação é de igual para igual. Sem a resposta do público, ali, não reinamos em nada”, observa. Para ela, a experiência  com Incêndios é suficiente para derrubar lugares-comuns sobre o atual hábito de consumo de arte. “As pessoas criam dogmas e ficam agindo de acordo com aquilo. Quando assiste a peças como Incêndios ou outras com a mesma densidade dramática, o público responde e manifesta uma outra necessidade”. Ou seja, para ela, é furada a ideia de que público só quer musicais ou comédias.

Para além do gênero, o espetáculo é um caso raro no cenário da produção teatral brasileira. São oito atores no elenco: Marieta Severo, Felipe de Carolis, Keli Freitas, Márcio Vito, Kelzy Ecard, Fabianna de Mello e Souza, Isaac Bernat e Júlio Machado. Na primeira temporada, foram mais de dois anos em cartaz. Este ano voltou à programação do Rio de Janeiro com casa lotada. “Não continuamos por uma questão econômica mesmo”, conta.

A turnê da peça segue até o fim de maio. Depois, Marieta Severo tem compromissos com o cinema. Está escalada para A voz do silêncio, próximo filme de André Ristum, e também é presença certa em Severina (nome provisório), segundo longa da carreira do diretor Felipe Hirsch. “Estou atracada nisso”, revela, antes de reconhecer que é difícil se despedir de certos personagens. Nawal é um desses casos. “Você se despede com muita dor quando dá tão certo”.

TRECHO

“Não posso te responder, Swada, porque estamos impotentes. Nenhum valor para nos guiar ou então só uns valorezinhos menores. O que a gente sabe e o que a gente sente. Isso é certo, isso não é certo. Mas vou te dizer: a gente não gosta da guerra, e a gente é obrigada a fazê-la. A gente não gosta da desgraça e a gente está bem no meio dela. Você quer ir se vingar, queimar casas, fazer com que sintam o que você está sentindo para que compreendam, para que mudem, que os homens que fizeram isso se transformem. Você quer puni-los para que compreendam. Mas esse jogo de imbecis se alimenta da burrice e da dor que te cegam”

Nawal, personagem de Incêndios.

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